By Brazil Stock Guide — O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) abriu em 24 de agosto um inquérito administrativo contra a Cooperativa dos Médicos Anestesiologistas de Pernambuco (Coopanest-PE) e a Sociedade de Anestesiologia do Estado de Pernambuco (Saepe) por possíveis infrações à ordem econômica.
A Superintendência-Geral do Cade decidiu aprofundar a apuração após identificar indícios de possível abuso de posição dominante, influência sobre a conduta comercial de anestesiologistas e uso de ameaças de suspensão ou descredenciamento durante negociações com hospitais e operadoras de planos de saúde.
A abertura do inquérito não representa condenação. O Cade afirmou que ainda precisa apurar se houve efetivamente abuso concorrencial ou apenas o exercício regular das atividades de uma cooperativa médica.
A Coopanest reúne 798 dos 1.110 anestesiologistas ativos registrados em Pernambuco, ou 71,89% do total, segundo dados analisados pela autarquia. A SG considerou preliminarmente que a cooperativa possui posição dominante no mercado estadual de anestesiologia. A Saepe, por sua vez, reúne 905 associados, equivalentes a 81,53% dos especialistas registrados no Estado.
O caso começou antes da entrada da Rede D’Or na disputa. Em fevereiro de 2025, o Cade recebeu uma denúncia anônima segundo a qual a Coopanest imporia reajustes acima dos padrões de mercado e ameaçaria interromper atendimentos quando suas condições não fossem aceitas. O procedimento preliminar foi aberto em março daquele ano.
Em dezembro de 2025, Rede D’Or e SulAmérica apresentaram uma representação própria, ampliando as acusações. As empresas alegam que a Coopanest usa sua concentração de médicos para impor preços e condições comerciais e dificultar a entrada de concorrentes.
Um estudo apresentado pela SulAmérica ao Cade estima que os preços praticados pela Coopanest fiquem entre 167% e 171% acima de uma referência utilizada pela operadora. Na comparação com São Paulo, o custo médio de um evento de anestesiologia em Pernambuco seria 354% maior — cerca de 4,5 vezes o valor paulista — segundo a empresa.
Outro levantamento apresentado pelas representantes comparou nove cooperativas de anestesiologia e concluiu que os preços da Coopanest seriam 48,6% superiores à média ponderada do grupo analisado. Os números são alegações da Rede D’Or e da SulAmérica e ainda serão examinados durante o inquérito.
A disputa se intensificou depois que a Rede D’Or assinou, em novembro de 2025, um contrato não exclusivo com a Fluence Anestesia, empresa que vinha tentando ampliar sua atuação em Pernambuco. Segundo o grupo hospitalar, o objetivo era criar uma alternativa de prestação de serviços e reduzir a dependência de um único fornecedor.
Rede D’Or e SulAmérica afirmam que, após a contratação da Fluence, a Coopanest e a Saepe passaram a adotar medidas destinadas a dificultar a atuação da concorrente, incluindo notificações, denúncias a entidades médicas, manifestações públicas e ameaças de suspensão dos serviços.
A investigação preliminar também reuniu relatos de outros agentes do mercado. A Camed Saúde afirmou ao Cade que não encontrava alternativas à Coopanest para contratação de anestesiologistas em Pernambuco e disse ter recebido ameaças de paralisação durante negociações comerciais, inclusive por e-mail.
A Saúde Caixa informou que a Coopanest negocia em nome dos médicos e que os valores aplicados aos anestesiologistas vinculados à cooperativa são iguais. A operadora relatou ainda que houve suspensões efetivas de atendimento no passado, embora tenha dito que, no período mais recente analisado pelo Cade, as negociações ocorreram sem ameaças de suspensão ou descredenciamento.
A Coopanest nega as acusações. Na documentação entregue ao Cade, a cooperativa afirma que não pratica preços únicos ou tabelas padronizadas, que os valores são negociados conforme as características de cada contrato e que não impõe exclusividade aos médicos. Diz também que eventuais interrupções de serviços decorrem de questões contratuais ou operacionais, e não de pressão concorrencial.
A entidade afirma ainda que mantém políticas internas de compliance e que não pune ou restringe cooperados que optem por relações profissionais fora da cooperativa. Também contesta a alegação de que impeça glosas ou revisões de cobranças.
A Saepe também nega envolvimento em práticas comerciais. A sociedade afirma que não negocia preços ou contratos, não exige exclusividade e não interfere na liberdade profissional de seus associados, sustentando que sua relação com a Coopanest é de natureza científica, associativa e representativa.
A Coopanest já foi alvo de um processo anterior do Cade envolvendo abuso de posição dominante e influência à adoção de conduta uniforme. A cooperativa afirma que, desde então, adotou compromissos para adequar sua atuação às regras concorrenciais.
Apesar de abrir o inquérito, a Superintendência-Geral rejeitou, por enquanto, o pedido de medida preventiva feito pela Rede D’Or e pela SulAmérica. As empresas queriam que o Cade proibisse a Coopanest de suspender serviços, pressionar anestesiologistas ou realizar campanhas contra concorrentes durante a investigação.
Segundo a SG, os elementos disponíveis são suficientes para justificar a continuidade da apuração, mas ainda não demonstram risco “concreto, atual e iminente” que permita uma intervenção cautelar. A medida poderá ser reavaliada caso novas evidências surjam.
O Cade agora pretende ouvir hospitais, operadoras e outros participantes do mercado para analisar como os serviços de anestesiologia são contratados, se concorrentes conseguem recrutar profissionais em Pernambuco e se existem barreiras artificiais à atuação independente de médicos e novos prestadores.













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