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O dia em que tropas brasileiras desfilaram vitoriosas por Buenos Aires

Em fevereiro de 1852, soldados do Império ajudaram a derrubar Juan Manuel de Rosas, num conflito que redesenhou o mapa na bacia do Prata.

Por Brazil Stock Guide — Na manhã de 20 de fevereiro de 1852, um portenho que saísse de casa no centro de Buenos Aires encontraria uma cidade familiar e, ao mesmo tempo, ligeiramente assustada. O Cabildo estava no mesmo lugar em que continua até hoje, de frente para a atual Plaza de Mayo. Era o antigo edifício da administração colonial espanhola e já funcionava como um dos grandes símbolos cívicos da cidade.

As casas baixas continuavam alinhadas ao redor da então Plaza de la Victoria. Cavalos cruzavam as ruas. Mas naquele dia havia também soldados brasileiros. Vinham em formação, armados, acompanhados por bandas militares e oficiais a cavalo. Acima das fileiras apareciam as bandeiras do Império do Brasil.

Era difícil imaginar um cenário mais improvável.

Vinte e cinco anos antes, quase no mesmo dia, brasileiros e portenhos haviam tentado matar uns aos outros nos campos da atual fronteira entre Brasil e Uruguai. Em 20 de fevereiro de 1827, na Batalha de Ituzaingó – ou Passo do Rosário, como ficou conhecida no Brasil -, o Exército Imperial sofrera uma de suas derrotas mais importantes na Guerra da Cisplatina. O conflito terminaria no ano seguinte. O Brasil perdeu a província. Dela nasceu o Uruguai.

Um quarto de século depois, soldados do mesmo Império atravessavam o coração de Buenos Aires. Não se sabe se alguém naquele desfile sorriu com a coincidência. Mas seria surpreendente se ninguém tivesse notado.

A campanha que levou os brasileiros até Buenos Aires não tinha sido organizada para vingar Ituzaingó. Governos raramente mobilizam milhares de homens por razões tão românticas. O Brasil estava preocupado com coisas mais concretas: fronteiras, navegação, comércio, acesso a província de Mato Grosso (seu acesso se dava pelos rios da Bacia do Prata) e a possibilidade de Buenos Aires tornar-se poderosa demais.

Dois grandes atores no mesmo palco. De um lado Juan Manuel de Rosas. Do outro, Pedro II.

Rosas não era presidente da Argentina porque, a rigor, ainda não existia uma Argentina organizada da maneira como a entendemos hoje. Era governador de Buenos Aires e responsável pelas relações exteriores da Confederação Argentina. Na prática, isso bastava. Buenos Aires tinha o porto. Tinha a alfândega. Tinha dinheiro. E Rosas tinha Buenos Aires.

Rosas, figura forte de Buenos Aires na primeira metade do século 19.

Seus admiradores o consideravam o homem capaz de impor ordem a uma coleção de províncias frequentemente em conflito. Seus inimigos preferiam palavras como tirano e ditador.

Para o Império do Brasil, porém, o problema não era exatamente o estilo de Rosas. Era o mapa e o controle da região. Se Buenos Aires conseguisse controlar também o Uruguai e exercer influência dominante sobre o Paraguai, o governo brasileiro teria diante de si uma potência capaz de comandar grande parte da Bacia do Prata. Para um país continental ainda mal conectado por terra, isso era uma ameaça estratégica concreta.

Para chegar do Rio de Janeiro a Mato Grosso, muitas vezes era mais fácil navegar pelo Atlântico, entrar no Rio da Prata e subir pelos rios Paraná e Paraguai do que atravessar o próprio território brasileiro. Os rios eram estradas. E o Brasil não queria que Rosas tivesse a chave do pedágio.

O historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira tratou essa disputa como parte do longo processo de formação dos Estados nacionais da Bacia do Prata. Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai ainda definiam suas fronteiras, seus governos, suas rotas de comércio e até a extensão prática de suas soberanias. As guerras daquele período, portanto, não eram apenas choques entre países já prontos. Eram parte do próprio processo de construção desses países.

Vista dessa maneira, a guerra contra Rosas não foi uma excursão militar do Império. Era uma disputa sobre que Argentina surgiria, que Uruguai sobreviveria, se o Paraguai permaneceria autônomo e qual potência teria maior influência sobre os rios e governos do sul do continente.

O primeiro tabuleiro foi o Uruguai. Ali havia uma guerra civil que parecia não terminar nunca. De um lado estavam os blancos de Manuel Oribe, apoiados por Rosas. Do outro, os colorados instalados em Montevidéu. Oribe cercou Montevidéu durante anos. O Brasil decidiu intervir.

Em 1851, tropas imperiais entraram no Uruguai e ajudaram a desmontar o cerco. Mas o golpe fatal contra Rosas não viria do Rio de Janeiro. Viria da própria Argentina. Justo José de Urquiza, governador da província de Entre Ríos, rompeu com Rosas. Era uma ruptura particularmente perigosa porque Urquiza tinha homens, cavalos e uma província estrategicamente localizada.

Pouco depois, reunia argentinos de Entre Ríos e Corrientes, exilados inimigos de Rosas, uruguaios e brasileiros. Deram à força o nome de Grande Exército Aliado Libertador. Nomes modestos não eram uma característica do século XIX. O exército tinha algo em torno de 25 mil homens. Apenas aproximadamente 4 mil eram brasileiros. Os números, porém, enganam.

O Brasil fornecia dinheiro, infantaria profissional, artilharia, navios e logística. Sua Marinha transportava soldados, cavalos, munição, mantimentos e canhões pelos rios. Era possível ser minoria no campo de batalha e ainda assim ser indispensável à guerra. A divisão brasileira era comandada pelo brigadeiro Manuel Marques de Sousa, que mais tarde receberia o título de conde de Porto Alegre. Acima dele, na estrutura militar brasileira, estava Luís Alves de Lima e Silva, o futuro duque de Caxias.

No início de fevereiro de 1852, aquela mistura de argentinos, brasileiros e uruguaios apareceu diante de Buenos Aires. Rosas decidiu lutar. A batalha ocorreu em Caseros, no dia 3 de fevereiro. Não foi uma batalha especialmente longa. A cavalaria de Urquiza atacou pelos lados. No centro, brasileiros, uruguaios e argentinos enfrentaram posições protegidas pela artilharia de Rosas.

Batalha de Caseros, 3 de fevereiro de 1852. A gravura, publicada pelo Illustrated London News no mesmo ano, mostra a 1ª Divisão brasileira em combate contra as forças de Juan Manuel de Rosas.

A infantaria imperial avançou. Houve tiros, cargas, fumaça, confusão e combate a curta distância. Algumas horas depois, estava terminado. O regime de Rosas, construído durante quase vinte anos, sobreviveu menos que uma manhã. O governador deixou o campo, escreveu sua renúncia e procurou proteção britânica. Pouco depois estava num navio rumo à Inglaterra. Nunca mais voltou ao poder. Terminaria seus dias em Southampton, onde morreu em 1877.

Buenos Aires estava aberta. Mas dizer que “o Brasil conquistou Buenos Aires” seria uma ótima manchete e uma descrição ruim. A maior parte do exército vencedor era argentina. Urquiza não havia derrotado Rosas para entregar sua capital a Pedro II.

Não houve tomada da cidade casa por casa. Não houve batalha na Plaza de la Victoria. Não houve anexação. Houve algo talvez mais interessante. Um desfile. Dezessete dias depois de Caseros, os vencedores transformaram Buenos Aires num palco. As tropas atravessaram o centro em formação. Passaram pela antiga Plaza de la Victoria, hoje Plaza de Mayo, diante do Cabildo e dos prédios que concentravam o poder portenho.

Relatos sobre o percurso mencionam as ruas Perú e Federación – a atual Hipólito Yrigoyen – e o deslocamento em direção a Palermo, onde Rosas possuía sua residência. Não existem fotografias conhecidas daquela entrada triunfal. A fotografia já havia chegado a Buenos Aires, mas os daguerreótipos precisavam de exposições longas. Fotografavam melhor edifícios obedientes do que exércitos em movimento.

Por isso conhecemos o cenário, mas não exatamente a cena. Há imagens do Cabildo daquele período. Há litografias da batalha. Há pinturas posteriores. O resto precisa ser reconstruído. Também não sabemos exatamente o que pensava o sujeito parado na praça assistindo aos brasileiros passarem. Se fosse adversário de Rosas, talvez estivesse satisfeito. Se tivesse perdido parentes na guerra, talvez não.

Mesmo entre os inimigos do antigo governador, devia haver alguma ambivalência em ver soldados estrangeiros marchando armados pelo centro da cidade. A libertação e a humilhação podem, ocasionalmente, ocupar a mesma calçada. Para os brasileiros, a mensagem era de vitória. O Império havia conseguido fazer algo que nenhum outro país da América do Sul conseguia naquele momento com a mesma facilidade: financiar uma coalizão, deslocar tropas e navios por milhares de quilômetros, sustentar uma campanha fora de suas fronteiras e alterar a política de um vizinho.

Pedro II tinha 26 anos. Seu país começava a descobrir que era uma potência regional. E então havia aquela data. 20 de fevereiro. Exatamente vinte e cinco anos depois de Ituzaingó. Não é necessário transformar o desfile numa vingança oficial para compreender seu simbolismo.

O rei aos 26 anos: apoio às tropas de Urquiza

Em 1827, tropas das Províncias Unidas haviam derrotado o Brasil. Em 1852, o Exército Imperial atravessava Buenos Aires. Mais curioso ainda: o Uruguai, cuja independência nascera da Guerra da Cisplatina, agora lutava ao lado do Brasil. Os inimigos de ontem tinham encontrado um inimigo novo. Essa talvez seja uma das regras mais permanentes da política do Prata. As alianças duram menos que as fronteiras. Depois do desfile, os brasileiros foram embora.

Não havia projeto de incorporar Buenos Aires ao Império. O governo de Pedro II conseguira o que queria: Rosas estava no exílio, o Uruguai permanecia independente, o Paraguai não fora absorvido e Buenos Aires perdera a possibilidade de organizar sozinha o equilíbrio regional. Urquiza tentou então construir uma Argentina constitucional. Buenos Aires, naturalmente, discordou. E nisso também estava em jogo a formação de um Estado nacional. A questão argentina só seria resolvida depois de novas guerras entre Buenos Aires e as demais províncias, até que um poder central mais estável conseguisse se impor.

O que hoje parece uma fronteira nacional óbvia foi, durante décadas, resultado de negociação, violência e guerra. Seguiram-se novas disputas, novas batalhas e novas alianças. Treze anos mais tarde, o mapa político teria mudado outra vez. Brasil, Argentina e Uruguai estariam novamente do mesmo lado de uma guerra. Desta vez contra o Paraguai. Maior especialista sobre o tema, Francisco Doratioto mostrou como a Guerra do Paraguai foi consequência de uma longa disputa pelo equilíbrio regional. Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai procuravam preservar territórios, governos, rotas e áreas de influência.

A guerra de Rosas pertence ao capítulo anterior dessa mesma história. Caseros não foi um ensaio geral da Guerra do Paraguai, mas algumas coisas estavam ali: operações fluviais, exércitos multinacionais, alianças improváveis e uma região em que os assuntos internos de um país frequentemente terminavam envolvendo todos os outros.

Nos últimos tempos, a Guerra do Paraguai voltou a aparecer no debate político brasileiro depois de declarações de Lula sobre as origens do conflito. Brasil e Argentina também voltaram a trocar provocações por causa de presidentes, ideologias e eleições. É tentador procurar paralelos. Convém não exagerá-los. Lula não é Pedro II. Milei não é Rosas. E ninguém está movimentando esquadras pelo Paraná.

Talvez essa seja justamente a parte reconfortante da história. Hoje, quando brasileiros e argentinos se irritam uns com os outros, convocam embaixadores, dão entrevistas e publicam mensagens nas redes sociais. Em 1852, reuniram 25 mil homens. E, numa manhã de fevereiro, no aniversário de uma velha derrota brasileira, soldados do Império atravessaram a praça que hoje se chama Plaza de Mayo, diante do Cabildo que ainda está lá.

Cabildo de Buenos Aires, c. 1852. O daguerreótipo, de 16 x 21,5 cm, mostra o edifício aproximadamente como era quando as tropas aliadas, incluindo o contingente brasileiro, passaram pela então Plaza de la Victoria. A imagem, atribuída a Charles DeForest Fredricks, é considerada a fotografia mais antiga conhecida de um edifício na Argentina. O original foi severamente danificado após uma tentativa de limpeza com um pano.


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