Meta Pixel

Por que o mercado financeiro ainda insiste em escrever cartas para Lula?

Antes mesmo do Natal, começam a chegar cartas abertas ao presidente reeleito. Empresários e investidores têm todo o direito de apresentar suas propostas, mas suas preferências econômicas não se confundem com o mandato concedido pelas urnas.

Ainda faltam quase dois meses para o Natal, mas as cartinhas abertas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva já começaram a chegar. Empresários, gestores financeiros e parte da imprensa econômica parecem empenhados em estabelecer, poucos dias depois da eleição, as prioridades do próximo mandato. Os pedidos variam entre responsabilidade fiscal, reformas estruturais, moderação política e recuperação da confiança dos investidores. São temas legítimos, que merecem discussão. Mas há uma questão anterior: por que Lula, às vésperas de seu quarto mandato, precisaria demonstrar, mais uma vez, que merece a confiança de setores que preferiam outro resultado eleitoral?

Lula venceu com 64,3 milhões de votos, sustentado por uma coalizão política e social diversificada. A vitória lhe conferiu legitimidade para governar, sem depender da aprovação do mercado financeiro. No discurso da vitória, o presidente já declarou que governará para todos os brasileiros, inclusive os que não votaram nele. Isso significa ouvir interesses diferentes, negociar e construir consensos. Não significa, porém, abandonar as prioridades defendidas durante a campanha para se submeter às preferências econômicas dos setores que apoiaram a oposição.

O Brasil enfrenta desafios fiscais importantes, mas está longe do cenário de terra arrasada sugerido por algumas interpretações. O desemprego recuou para 5,2%, a renda real dos trabalhadores cresceu e a economia continua em expansão, embora em ritmo mais lento. Ao mesmo tempo, o endividamento público exige atenção, os investimentos precisam avançar e os juros continuam excessivamente elevados. Com os juros nominais do setor público ultrapassando R$ 1,2 trilhão em doze meses, seria difícil discutir responsabilidade fiscal sem examinar também os efeitos da política monetária sobre a dívida, o crédito e a atividade econômica. O equilíbrio das contas públicas é necessário, mas não pode ser tratado como objetivo isolado do crescimento e da melhoria das condições de vida.

Há algo de anacrônico nessa nova temporada de cobranças. Em 2002, Lula divulgou a Carta ao Povo Brasileiro para tranquilizar investidores diante da perspectiva de um governo petista ainda desconhecido. Comprometeu-se a respeitar contratos, preservar a estabilidade e controlar a inflação. Vinte e quatro anos depois, após três mandatos presidenciais, sua trajetória econômica pode ser avaliada por resultados concretos, positivos e negativos. É legítimo exigir compromissos fiscais e políticas consistentes, mas o país não precisa repetir indefinidamente o ritual pelo qual um presidente eleito busca uma espécie de certificado de credibilidade concedido pelo sistema financeiro.

A pressão dos investidores faz parte da democracia, assim como as reivindicações de trabalhadores, empresários do setor produtivo, consumidores e movimentos sociais. A imprensa também tem o direito de defender determinada orientação econômica. O problema surge quando essas preferências passam a ser apresentadas como as únicas escolhas responsáveis. Toda política fiscal envolve decisões sobre quem paga impostos, quem recebe benefícios, quais despesas são preservadas e quais interesses devem ceder. Não são questões exclusivamente técnicas, muito menos prerrogativas de um único grupo econômico.

Lula terá de enfrentar esses dilemas e responder pelos resultados de suas escolhas. Deve ouvir o mercado, mas também os milhões de brasileiros que esperam empregos, renda, serviços públicos e crédito mais barato. A responsabilidade de governar para todos não equivale à obrigação de satisfazer a todos, especialmente quando seus interesses são conflitantes. As cartas são bem-vindas como contribuições ao debate, não como instruções ao presidente. Afinal, o mercado pode escrever quantas cartas desejar. Mas não pode reescrever o resultado das urnas.


Clear insights on Brazilian equities

Join portfolio managers and investors who get our curated analysis on Latin America’s largest economy.

Advertisement

Deixe um comentário