By Brazil Stock Guide — O Brasil deu um passo importante para reduzir o custo energético de sua indústria. O primeiro leilão de gás natural da União, realizado nesta quinta-feira (22) pela Pré-Sal Petróleo (PPSA), vendeu toda a oferta de 1,1 milhão de metros cúbicos por dia a 23 empresas, entre elas Vale, CSN, Braskem, Gerdau e Yara. O preço médio estimado da molécula ficou em US$ 5,83 por milhão de unidades térmicas britânicas (MMBtu), significativamente abaixo das referências atuais do mercado brasileiro.
Pela primeira vez, a União vendeu diretamente a consumidores industriais o gás natural que lhe pertence nos contratos de partilha de produção do pré-sal, criando uma alternativa ao modelo tradicional de comercialização. O leilão atraiu 36 empresas habilitadas, das quais 32 participaram, e registrou demanda de aproximadamente 1,5 milhão de m³/dia, superior ao volume ofertado.
A operação movimentou uma receita estimada de R$ 377 milhões para a PPSA. Os 110 lotes disponibilizados foram integralmente arrematados, com prêmio médio de US$ 2,44/MMBtu, equivalente a um ágio de 35% sobre o valor inicial de US$ 1,80/MMBtu. Os contratos terão fornecimento entre março e dezembro de 2027.
Grandes indústrias buscam energia mais competitiva
O setor químico e petroquímico concentrou a maior parcela da oferta, com 350 mil m³/dia adquiridos por Braskem, Rhodia, Evonik, Ingredion e Peróxidos do Brasil. Em seguida, siderúrgicas, metalúrgicas e mineradoras contrataram 320 mil m³/dia, distribuídos entre Vale, CSN, Gerdau Aços Longos, Samarco e Ternium Brasil.
Os demais volumes foram destinados às indústrias de cerâmica, com 200 mil m³/dia; fertilizantes nitrogenados, com 130 mil m³/dia; e vidro, com 100 mil m³/dia. Entre os vencedores também aparecem Dexco, Yara e grandes fabricantes de revestimentos cerâmicos.
A disputa revelou diferenças importantes entre os setores. O prêmio vencedor ficou em US$ 1,92/MMBtu na indústria química e petroquímica e em US$ 2,30/MMBtu na siderurgia, metalurgia e mineração. No setor vidreiro, que registrou maior concorrência, o prêmio médio alcançou US$ 4,01/MMBtu. Esses valores são adicionais incorporados à fórmula de preço do gás, e não o custo total da molécula.
O preço do gás ainda não é o custo final
O principal atrativo do leilão está na formação dos preços. Os contratos combinam 115% da cotação do Henry Hub, referência do mercado americano de gás natural, com os prêmios definidos no certame. Com base nas condições de referência utilizadas pela PPSA, o resultado aponta para um preço médio estimado de US$ 5,83/MMBtu, diante de referências de aproximadamente US$ 12/MMBtu utilizadas no mercado brasileiro.
A comparação, porém, exige particularidades. O preço divulgado não inclui transporte, distribuição e tributos, que poderão representar parcelas relevantes da despesa final das empresas. Além disso, o custo da molécula não será fixo durante o contrato, pois acompanhará as variações mensais do Henry Hub.
O gás será disponibilizado na saída da Unidade de Tratamento de Gás de Itaboraí, no Complexo de Energias Boaventura, antigo Comperj, no Rio de Janeiro. A partir desse ponto, cada comprador deverá contratar a movimentação do combustível até suas instalações industriais, diretamente ou por meio de comercializadoras.
Isso significa que a economia efetiva dependerá da localização das fábricas, das tarifas de transporte e das condições dos contratos de fornecimento atualmente utilizados pelas companhias.
Para empresas como Vale, CSN e Braskem, a contratação representa uma oportunidade de reduzir despesas energéticas. Ainda não há, contudo, informações suficientes sobre os volumes individuais adquiridos e os custos finais de entrega para estimar o impacto sobre suas margens operacionais.
Um novo mercado para o gás brasileiro
O resultado também oferece uma referência concreta para a política energética brasileira. Ao vender integralmente a oferta e atrair demanda superior ao volume disponível, o leilão mostrou que existe interesse industrial por novas fontes de suprimento a preços competitivos.
O presidente da PPSA, Luis Fernando Paroli, classificou o resultado como um marco para a indústria nacional. Para o governo, a iniciativa pode contribuir para ampliar a concorrência e transformar parte da produção do pré-sal em vantagem competitiva para setores intensivos em energia.
A experiência terá continuidade. A PPSA prevê realizar um novo leilão em 2027, com oferta de 1,8 milhão de m³/dia para fornecimento em 2028, volume aproximadamente 63% superior ao desta primeira edição. Os contratos do certame realizado nesta semana deverão ser assinados na primeira quinzena de dezembro.













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