Meta Pixel

O pêndulo regulatório está voltando?

O Brasil começa a descobrir o outro lado da desintermediação: riscos mais difíceis de localizar, precificar e conter. A reação já começou.

Na última década, a direção da regulação financeira brasileira pareceu bastante clara: reduzir a dependência do crédito bancário, ampliar o mercado de capitais e permitir que o crédito circulasse por novos canais. FIDCs cresceram, fintechs ganharam espaço, securitizações se multiplicaram e estruturas de fundos se tornaram mais sofisticadas. Em parte, foi uma transformação positiva. Empresas ganharam novas fontes de financiamento, investidores novos ativos e o risco deixou de ficar concentrado nos balanços de algumas poucas instituições financeiras. Mas risco distribuído não é necessariamente risco menor. Às vezes ele apenas se torna mais difícil de enxergar.

Os sinais de tensão começam a aparecer justamente quando a economia perde velocidade. Na Pesquisa de Estabilidade Financeira de agosto, instituições financeiras apontaram aumento da preocupação com inadimplência e atividade: a frequência desse risco entre os três principais mencionados subiu novamente, enquanto famílias e empresas continuam altamente alavancadas. A confiança na estabilidade do sistema permanece elevada, mas voltou a cair na margem. Os indicadores não apontam para nada próximo de uma crise sistêmica. O que há é uma fase mais delicada do ciclo, com o crédito espalhado por uma arquitetura mais intrincada do que aquela existente uma década atrás.

É quando o ciclo começa a virar que a arquitetura passa a importar. Enquanto o crédito performa, pouco importa quantos intermediários existem entre quem originou um empréstimo e quem carrega a perda final. Quando a inadimplência sobe, valuation é questionado e liquidez desaparece, essa distância passa a importar muito. Os créditos judiciais são talvez o exemplo mais evidente. FIDCs passaram a carregar ativos cujo preço depende de probabilidades jurídicas, prazos de anos, decisões ainda não tomadas e metodologias de avaliação pouco observáveis por terceiros. Quando esses ativos circulam entre veículos, são reavaliados, convivem com partes relacionadas e aparecem dentro de fundos que investem em outros fundos, a fronteira entre sofisticação financeira e opacidade fica perigosamente estreita. Casos como Master e Digimais transformaram uma discussão antes abstrata sobre governança em investigações envolvendo valuation, lastro, conflitos de interesse e suspeitas de fraude.

É nesse contexto que deve ser entendida a nova regra do Conselho Monetário Nacional para legal claims. O CMN não se limitou a exigir mais disclosure. Decidiu que FIDCs não poderão fazer novas aquisições de direitos judiciais ou arbitrais enquanto esses créditos não forem líquidos, certos e exigíveis. Na prática, o regulador concluiu que, para essa classe de ativos, transparência e governança não eram mais suficientes. É uma mudança de filosofia: em vez de dizer ao mercado “assuma o risco e explique-o”, o Estado começa a dizer que alguns riscos simplesmente não devem estar dentro de determinados veículos.

Em outra frente, o movimento também aparece no crédito ao consumidor. Na divulgação do Relatório de Política Monetária de setembro, Gabriel Galípolo disse que o BC pretende avançar gradualmente em medidas macroprudenciais e limitar modalidades de crédito consideradas predatórias, em vez de anunciar um único pacote. O próprio desenho da Pesquisa de Estabilidade Financeira mostra que a preocupação não termina na perda de um credor: o BC acompanha os canais pelos quais um choque pode atravessar mercados, instituições, fundos e previdência — contágio, congelamento de liquidez, queda de preços de ativos e perda de confiança de depositantes e cotistas estão explicitamente entre eles.

O pêndulo, portanto, parece começar a voltar — mas não necessariamente para um sistema dominado novamente pelos bancos. A questão será descobrir onde recolocar as barreiras sem destruir os benefícios da desintermediação. Look-through de fundos, identificação de beneficiários finais, regras para partes relacionadas, valuation independente, limites de concentração e restrições a ativos excessivamente opacos tendem a ganhar espaço. Agora os reguladores enfrentam uma tarefa diferente: descobrir onde o risco foi parar e desarmar as bombas antes que seja preciso encontrá-las durante uma crise.


Clear insights on Brazilian equities

Join portfolio managers and investors who get our curated analysis on Latin America’s largest economy.

Advertisement

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Brazil Stock Guide

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo