A indústria do cigarro aperfeiçoou um argumento particularmente eficiente para a defesa de seu negócio: o contrabando como razão para conter impostos e restrições regulatórias. A alegação era que, se o produto legal ficasse caro ou excessivamente regulado, consumidores migrariam para o ilegal, o governo perderia arrecadação e o crime organizado ganharia espaço.
O argumento continha uma verdade, mas escondia outra. O cigarro contrabandeado acrescentava evasão fiscal e criminalidade a um produto que já fazia mal quando comprado legalmente. O problema não começava na fronteira entre o legal e o ilegal, mas começava no próprio produto: o cigarro.
A indústria brasileira de apostas começa a descobrir a utilidade do mesmo raciocínio. Um estudo da LCA Consultoria Econômica, encomendado pelo Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), estima que a parcela ilegal do mercado caiu de 46% para 41% entre 2025 e 2026 após a implantação da regulação. O IBJR usa o resultado para sustentar que a regulação começou a produzir efeitos e que “não pode haver retrocessos”. O instituto afirma representar cerca de 75% do mercado brasileiro.
Segundo Carlos Lima, presidente do IBJR, uma carga excessiva poderia reduzir a competitividade das casas legalmente autorizadas a operar no Brasil, oferecer vantagem às clandestinas e empurrar consumidores para o mercado ilegal. O resultado seria menor “canalização” — a migração do apostador para empresas licenciadas — e eventualmente menor arrecadação. É uma estrutura argumentativa familiar: não aperte demais o mercado legal porque o consumidor pode procurar o ilegal.
O problema é transformar essa constatação em uma espécie de salvo-conduto para o produto regulamentado. A existência de uma versão pior não torna a versão legal inofensiva. E os próprios números da LCA mostram isso. Entre os apostadores classificados como mais expostos ao mercado ilegal, 61% disseram já ter apostado mais do que deveriam. Mas, mesmo entre os demais, o percentual chega a 42%. A ilegalidade parece agravar o problema, mas está longe de explicá-lo.
É aí que a métrica da “canalização” revela sua limitação. Ela mede onde o consumidor aposta, não quanto aposta, quanto perde ou o impacto disso sobre renda, endividamento, saúde e relações familiares. Um país pode conseguir deslocar milhões de apostadores para empresas licenciadas e, ainda assim, terminar com um mercado de apostas maior e socialmente mais danoso. Até a precisão dos 41% merece cautela: o número resulta de pesquisa autodeclarada e de premissas adotadas pela LCA para transformar respostas como “maior parte” ou “menor parte” das apostas em percentuais atribuídos ao mercado ilegal.
Combater casas clandestinas é necessário. Elas podem acrescentar fraude, evasão fiscal, lavagem de dinheiro e ausência de proteção ao consumidor. Mas fazer disso o centro da discussão desloca a pergunta essencial: o que o próprio mercado de apostas, legal ou ilegal, está fazendo com as famílias brasileiras? O contrabando nunca tornou o cigarro saudável. E uma bet ilegal não torna a bet legal inofensiva.













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