O Gasbol – o gasoduto Brasil-Bolívia – mudou o mercado de gás do Sul do Brasil no anos 1990. O contrato da Petrobras com a YPFB ajudou a justificar investimentos, criar demanda industrial e integrar a região a uma fonte de gás que parecia abundante nas últimas décadas. O gás boliviano não desapareceu, mas sua produção entrou em declínio e os próprios contratos tiveram de ser adaptados à menor disponibilidade.
É nesse contexto que o projeto da Compass em Rio Grande ganha uma dimensão maior do que a construção de mais um terminal. A Edge, controlada do grupo, assinou um memorando com o governo gaúcho para desenvolver um terminal terrestre de GNL, integrado ao Terminal de Regaseificação de São Paulo, em Santos, e com potencial de gerar até R$ 1 bilhão em investimentos. A intenção é ampliar a oferta principalmente para grandes consumidores industriais em um estado que hoje enfrenta dificuldades para obter mais gás pela infraestrutura existente.
Rio Grande pode, assim, começar a dar ao Sul algo que o Gasbol ofereceu nos anos 1990: uma nova perspectiva de expansão do mercado. Mas há uma diferença fundamental. O novo ciclo não precisaria depender de uma única molécula nem de um único gasoduto. Além do GNL da Edge, a Sulgás já injeta biometano em sua rede e está desenvolvendo em Esteio um hub para receber gás renovável de diferentes produtores. A distribuidora prevê investir R$ 163,7 milhões em 2026 na expansão de sua infraestrutura e de novas fontes de suprimento.
E há uma terceira peça esperando do outro lado da fronteira: Vaca Muerta. A expansão da produção argentina pode tornar o Rio Grande do Sul uma das portas naturais para mais gás chegar ao Brasil. A EPE avalia que essa integração poderia diversificar o suprimento da região, hoje ainda parcialmente dependente da Bolívia, e até substituir parte do GNL importado de mercados mais distantes. O projeto original do gasoduto Uruguaiana-Porto Alegre nunca foi concluído, mas a combinação de mais produção argentina e interesse brasileiro recolocou essa rota no mapa.
Por isso, o terminal da Compass não precisa ser visto como concorrente de Vaca Muerta. Ele pode ser uma das peças de um futuro hub de gás no Sul: GNL entrando por Rio Grande, gás argentino chegando pela fronteira, biometano produzido no próprio estado e a rede da Sulgás conectando oferta e consumidores. Ainda é cedo para afirmar que esse mercado existirá nessa escala. O projeto da Edge depende de decisão final de investimento e de aprovações regulatórias, e a própria Compass diz que o capital será alocado conforme a demanda amadurecer.
Talvez seja justamente aí que esteja o melhor sinal desde o Gasbol. Nos anos 1990, uma grande infraestrutura trouxe ao Sul uma nova fonte de gás. Agora, Rio Grande pode ajudar a construir algo potencialmente mais valioso: um mercado no qual diferentes fontes disputem espaço, deem segurança ao abastecimento e permitam que a oferta cresça junto com a demanda.













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