Enquanto começavam a circular as notícias sobre a fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, posteriormente confirmadas, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, publicou um vídeo em suas redes sociais com uma mensagem repetida seis vezes: “A eleição passou.” O pronunciamento, divulgado na terça-feira (27), dois dias depois da segunda derrota presidencial consecutiva do bolsonarismo, tinha um sentido político que ia além do reconhecimento do resultado eleitoral. Tarcísio agradeceu os quase 60 milhões de votos recebidos por Flávio e apresentou os princípios do que chamou de um “projeto de país”: responsabilidade fiscal, redução de impostos, ministérios técnicos, combate ao crime e atenção à população vulnerável. Não mencionou a saída do aliado do país, tampouco citou Lula nominalmente. Mas o discurso trouxe elementos de uma agenda nacional e colocou em evidência uma questão para 2030: Tarcísio pretende construir uma direita com identidade própria ou apenas administrar a herança política da família Bolsonaro?
Sua trajetória reúne credenciais administrativas e eleitorais, mas também contradições que a imagem de gestor técnico frequentemente encobre. Engenheiro formado pelo Instituto Militar de Engenharia, serviu na missão de paz da ONU no Haiti entre 2005 e 2006 e ocupou cargos no Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) durante o governo Dilma Rousseff. Também participou do Programa de Parcerias de Investimentos no governo Michel Temer, antes de chegar ao Ministério da Infraestrutura de Jair Bolsonaro, onde ganhou projeção nacional. A experiência atravessou governos de orientações ideológicas diferentes, mas foi sob Bolsonaro que o técnico se transformou em político. Sua eleição para o governo paulista em 2022 ocorreu com o apoio decisivo do então presidente. A reeleição neste ano, com 14,49 milhões de votos, equivalentes a 62,65% dos válidos, ainda no primeiro turno, demonstrou capacidade de consolidar uma ampla coalizão. Mas não apaga a dependência política que marcou sua chegada ao poder, nem permite confundir experiência administrativa com neutralidade ideológica.
A gestão paulista revela escolhas políticas que também precisam entrar nessa avaliação. Na segurança pública, Tarcísio escolheu inicialmente Guilherme Derrite, representante de uma linha dura de atuação policial. São Paulo registrou queda nos homicídios e nos roubos, mas também aumento da letalidade policial. Em 2025, 834 pessoas morreram em intervenções de policiais civis e militares, o terceiro aumento anual consecutivo. Pressionado por episódios de violência, o governador reconheceu publicamente que estava equivocado ao se opor às câmeras corporais usadas pelos policiais. Foi um mea-culpa explícito, embora a mudança no modelo de gravação tenha continuado a provocar críticas. Na educação, a implantação das escolas cívico-militares enfrentou questionamentos do Tribunal de Contas sobre procedimentos de contratação e exigências fiscais, além de decisões judiciais contra regras de aparência dos alunos. O governo defende o programa como instrumento de disciplina e segurança escolar. São exemplos de políticas que expressam preferências conservadoras e cuja eficácia deve ser examinada por resultados, não apenas pela identificação ideológica de seus defensores.
Na economia, Tarcísio dispõe de uma agenda mais identificável. A privatização da Sabesp, as concessões rodoviárias e as parcerias público-privadas são exemplos de sua aposta na capacidade de investimento do setor privado. Essa orientação encontra respaldo em segmentos do empresariado e do mercado financeiro, que já viam no governador uma alternativa presidencial antes da escolha de Flávio Bolsonaro. Mas privatizar e conceder serviços não são objetivos em si mesmos. Os resultados precisam ser medidos pela universalização do saneamento, pela qualidade dos serviços, pelos investimentos realizados e pela capacidade do Estado de fiscalizar contratos. Em junho, ao aprovar com ressalvas as contas paulistas de 2025, o Tribunal de Contas advertiu justamente sobre deficiências na supervisão de serviços concedidos à iniciativa privada. A eficiência prometida pela desestatização depende também de um Estado regulador competente.
A responsabilidade fiscal, outra bandeira de seu pronunciamento, oferece um segundo teste de coerência. São Paulo registrou déficit orçamentário de R$ 12,2 bilhões em 2025, resultado que alimentou questionamentos sobre a trajetória das contas estaduais. O governo contesta a interpretação de deterioração fiscal e destaca a ampliação dos investimentos por meio de parcerias. Mais reveladora, porém, é a discussão sobre os benefícios tributários. O Tribunal de Contas apontou que cerca de 1% das empresas cadastradas concentra 80% das renúncias fiscais estaduais e cobrou maior transparência sobre os beneficiários. Quando Tarcísio defende cortar privilégios antes de exigir sacrifícios da população, a experiência paulista oferece um ponto concreto para começar. E quando promete reduzir impostos, despesas públicas e o peso dos juros da dívida, sem abandonar investimentos sociais, precisa explicar como pretende conciliar esses objetivos. A responsabilidade fiscal exige escolhas, inclusive quando elas contrariam interesses de setores economicamente influentes.
Há também uma questão estrutural que qualquer projeto de centro-direita precisará enfrentar. A desigualdade brasileira não permite simplesmente confiar que o crescimento econômico, por si só, resolverá os problemas sociais. A experiência dos governos de Fernando Henrique Cardoso, com sua combinação de reformas liberalizantes e políticas sociais, assim como a ampliação dos programas de inclusão sob Lula, demonstra que mercado e proteção social não são necessariamente incompatíveis. Uma direita liberal poderia defender concorrência, produtividade, segurança jurídica e maior participação privada na economia, sem abrir mão do SUS, da educação pública e das transferências de renda. Quando Tarcísio fala em retirar pessoas da vulnerabilidade, falta esclarecer se está propondo apenas expansão do emprego e do empreendedorismo ou também mecanismos permanentes de redistribuição de renda. A tradição social-democrata oferece uma referência para esse debate, especialmente num país em que a desigualdade limita as oportunidades e compromete o próprio potencial de crescimento.
A aproximação com o trumpismo acrescenta outra contradição. Em janeiro de 2025, Tarcísio comemorou a posse de Donald Trump com um vídeo em que aparecia colocando o boné vermelho do movimento Make America Great Again (MAGA), acompanhado da expressão “Grande dia!”. Meses depois, o governo americano impôs tarifas comerciais que atingiram empresas brasileiras, inclusive paulistas. Em agosto de 2026, questionado pela RedeTV!, Tarcísio afirmou que não voltaria a usar o boné, procurando separar a celebração da posse das decisões posteriores de Trump. Foi um recuo, mas não necessariamente uma revisão da identificação política expressa naquele gesto. O episódio coloca uma questão que vai além do acessório: como conciliar a defesa dos interesses econômicos brasileiros com a aproximação de um movimento estrangeiro cujas políticas comerciais podem prejudicá-los? Uma direita comprometida com a soberania nacional precisa estabelecer seus próprios critérios de política externa, independentemente das afinidades ideológicas com governos de outros países.
O obstáculo político mais importante, contudo, permanece na relação com o bolsonarismo e com as instituições brasileiras. Em setembro de 2025, durante manifestação na Avenida Paulista, Tarcísio defendeu uma anistia ampla aos envolvidos nos episódios golpistas e atacou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, a quem chamou de tirano. No pronunciamento desta semana, adotou um tom mais conciliador ao reconhecer o resultado das urnas, defender a pacificação do país e atribuir ao Congresso um papel no funcionamento das instituições. Mas manteve acusações de uso indevido da máquina pública e interferência do Judiciário, sem apresentar provas específicas no vídeo. Criticar decisões judiciais e fiscalizar o governo são direitos legítimos da oposição. A diferença está entre exercer esse papel institucional e alimentar dúvidas não demonstradas sobre a legitimidade do processo eleitoral. Se pretende estabelecer uma identidade distinta do bolsonarismo, Tarcísio terá de esclarecer como concilia a defesa da estabilidade democrática com posições anteriores de confronto com o Judiciário. Não se trata necessariamente de exigir uma declaração formal de arrependimento, mas de identificar se houve uma revisão consistente de suas posições ou apenas uma adaptação do discurso às circunstâncias.
Os quase 60 milhões de votos recebidos por Flávio Bolsonaro demonstram a força eleitoral da direita, mas não constituem um patrimônio transferível automaticamente ao governador paulista. Tampouco representam um eleitorado homogêneo. Conservadores religiosos, liberais econômicos, empresários e trabalhadores que rejeitam o PT podem concordar na escolha de um candidato e divergir profundamente sobre o papel do Estado. A movimentação de Tarcísio não passou despercebida ao Estadão, historicamente identificado com setores da elite econômica paulista, que deu amplo destaque à sua entrevista. Um sinal de que a busca por um novo protagonista da direita também mobiliza o establishment econômico. A reorganização desse campo para 2030 exigiria mais do que unidade eleitoral: dependeria da construção de um programa econômico, de compromissos institucionais e de partidos capazes de sustentar propostas para além de uma liderança individual. Tarcísio dispõe de quatro anos à frente de São Paulo para desenvolver suas ideias e apresentar resultados administrativos. Sua votação, sua experiência e sua interlocução empresarial fazem parte dessa equação, assim como as controvérsias de sua gestão e os compromissos assumidos com a família Bolsonaro. O vídeo de terça-feira abriu a discussão, mas não resolveu sua principal contradição: reconhecer que a eleição passou é uma coisa; demonstrar que o bolsonarismo também pode deixar de determinar os rumos de sua carreira política é outra. Para representar uma direita com identidade própria, não bastará mudar o tom do discurso. Será preciso demonstrar, nas ideias e nas decisões, o que efetivamente mudou.













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