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Credores exigem juros maiores e garantias sobre ativos da Braskem no Brasil

Contraproposta prevê elevar custo médio da dívida para 8,5% ao ano, antecipar aportes de capital e converter créditos em ações a R$ 2.

Chemical, braskem

By Brazil Stock Guide — Os credores da Braskem querem ampliar as garantias sobre os ativos da petroquímica no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa, elevar os juros da dívida reestruturada e exigir um compromisso maior de capital imediato dos acionistas como condição para apoiar a recuperação extrajudicial da companhia. As exigências constam de uma contraproposta apresentada em 24 de outubro, um dia depois de a empresa submeter sua própria versão do plano de reestruturação.

Os termos foram divulgados pela Braskem em fato relevante acompanhado de 25 páginas de documentos financeiros e propostas comerciais. Apesar das negociações realizadas entre a companhia, seus principais acionistas e representantes dos credores, nenhuma das propostas foi aceita. As partes têm até 30 de outubro para cumprir um novo marco previsto no protocolo de negociação, depois da prorrogação do prazo originalmente estabelecido.

Uma das principais divergências envolve o custo da dívida. Os credores propõem elevar a taxa média ponderada dos instrumentos financeiros de aproximadamente 6,8% para 8,5% ao ano. Também querem restringir a possibilidade de capitalização dos juros: enquanto a Braskem propõe permitir que 100% dos encargos sejam incorporados ao principal até junho de 2029, mediante prêmio adicional, os investidores defendem limitar essa alternativa a 50% dos juros até dezembro de 2027, com acréscimo de 1,75 ponto percentual.

A disputa se estende às garantias. A Braskem propõe vincular ativos e participações societárias de suas operações americanas à dívida reestruturada, deixando outros ativos sujeitos a negociação. Os credores querem um pacote mais abrangente, incluindo garantias de primeira prioridade sobre ativos e participações das operações brasileiras, americanas e europeias, além da participação na Braskem Idesa, no México. A proposta ampliaria substancialmente a proteção dos credores e reduziria a liberdade da companhia para utilizar esses ativos em futuras operações financeiras.

Outra diferença importante envolve a utilização do caixa. Pela proposta da Braskem, recursos excedentes a US$ 2 bilhões poderiam ser direcionados anualmente à amortização antecipada da dívida. Os credores querem reduzir esse limite para US$ 1 bilhão, preservadas determinadas exclusões relativas aos recursos levantados no aumento de capital. Também propõem destinar integralmente os recursos obtidos com vendas de ativos ao pagamento da dívida garantida.

Aumento de capital de US$ 2,25 bilhões

As duas partes concordam, em princípio, com um aumento de capital de US$ 2,25 bilhões, mas divergem sobre quem deverá assegurar a operação e quando os recursos deverão chegar à companhia.

A Braskem propõe um compromisso de subscrição de US$ 1,2 bilhão, garantido pelos principais acionistas ou terceiros, com metade dos recursos desembolsada no fechamento da operação e os 50% restantes apenas 12 meses depois. O plano também prevê um compromisso adicional contingente de até US$ 500 milhões, que poderia ser utilizado em junho de 2029 para assegurar o cumprimento de indicadores financeiros.

Os credores, por sua vez, exigem elevar a parcela garantida para US$ 1,85 bilhão, com desembolso integral no fechamento da transação. Também rejeitam a estrutura de aporte contingente e querem ter poder de aprovação sobre terceiros que assumam compromissos de subscrição no lugar dos principais acionistas.

A conversão da dívida em ações representa outro ponto sensível. A Braskem propõe transformar imediatamente até US$ 2,8 bilhões de créditos em participação acionária, a um preço vinculado à cotação de mercado. Os investidores defendem uma conversão inicial de US$ 1,85 bilhão, ao preço fixo de R$ 2 por ação, além da possibilidade de converter mais US$ 450 milhões em junho de 2029, sujeito às condições financeiras estabelecidas.

Na contraproposta, as novas ações emitidas para levantar capital seriam oferecidas a R$ 1,60 cada, um desconto de 20% em relação ao preço de conversão da dívida. A combinação de capitalização de créditos e emissão de novas ações poderá provocar uma diluição expressiva dos atuais acionistas, dependendo dos termos definitivos, das regras de implementação e da participação de cada investidor na operação.

Projeções revelam pressão sobre o caixa

Os documentos também apresentam um cenário financeiro que ajuda a explicar a urgência da reestruturação. Nas projeções elaboradas pela administração, a Braskem estima EBITDA de US$ 1,46 bilhão em 2026, seguido de recuo para US$ 1,10 bilhão em 2027. A recuperação operacional seria gradual, com o indicador alcançando US$ 2,05 bilhões apenas em 2030.

O problema mais imediato, porém, é o fluxo de caixa. No cenário denominado status quo, que considera o serviço da dívida conforme as condições originalmente contratadas, a companhia projeta consumo de caixa de US$ 1,89 bilhão em 2027 e saldo de caixa livre negativo de US$ 3,17 bilhões ao final daquele ano. Trata-se de uma simulação financeira que evidencia a incompatibilidade entre o perfil atual de pagamentos e a geração projetada de recursos, e não de uma previsão de saldo bancário efetivamente negativo.

Um segundo exercício, que considera a suspensão dos pagamentos de juros e amortizações financeiras no período analisado, aponta caixa livre de US$ 981 milhões ao final de novembro de 2026. Mesmo nesse cenário, a Braskem prevê EBITDA mensal negativo em novembro, de US$ 6 milhões, reforçando a fragilidade operacional em meio ao ciclo desfavorável da indústria petroquímica.

Os credores também procuram ampliar sua influência sobre decisões estratégicas. A contraproposta condiciona a implementação da transação envolvendo a Braskem Idesa ao fechamento da reestruturação e exige a aprovação de pelo menos 50% dos credores signatários para investimentos estratégicos, incluindo o projeto Transforma Rio.

A documentação mostra que as negociações avançaram na definição da estrutura financeira, mas continuam distantes de um consenso sobre a distribuição dos custos da reestruturação entre credores e acionistas. Embora exista convergência sobre a necessidade de capital novo e de conversão de parte da dívida em ações, permanecem divergências importantes sobre juros, garantias, diluição acionária e controle do caixa.

A Braskem ressaltou que as projeções foram preparadas exclusivamente para as negociações da recuperação extrajudicial e não constituem guidance. Os termos comerciais apresentados pelas partes também são indicativos e não vinculantes, sujeitos a novas negociações, aprovações societárias e demais requisitos legais.

O próximo marco das negociações está previsto para sexta-feira, 30 de outubro. Até lá, o principal desafio será conciliar a necessidade de preservar a liquidez da Braskem com a exigência dos credores de obter maior proteção financeira e participação nos benefícios de uma eventual recuperação da companhia.


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