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O gato, o mapa e a panela

As megalivrarias fecharam e a Amazon ficou com o volume. Às pequenas livrarias restou o que não se automatiza: a confiança de quem te apresenta um livro que você nem sabia querer.

Por Rodrigo Uchoa, especial para Brazil Stock Guide

O leitor distraído leva alguns minutos para perceber a grande peculiaridade da Gato sem Rabo. As mesas da livraria estão cheias, as estantes também, e há gente sentada com um café esfriando ao lado de uma pilha que certamente não vai caber na sacola. Até aí, nada de especial. Mas, ao conferir as lombadas, nota-se que não há nenhum autor homem.

A livraria de Johanna Stein, aberta em 2021 na Vila Buarque, no centro de São Paulo, mostra a literatura pela perspectiva das mulheres (e, mais recentemente, por pessoas trans e queer). Começou numa loja de 65 metros quadrados em frente ao Minhocão e hoje ocupa o térreo de um prédio modernista de 1956, do arquiteto Oswaldo Bratke, que foi retrofitado na Rua Major Sertório, agora com café e bar.

Vitrine da livraria Gato Sem Rabo, no centro de São Paulo: o tempo e a descoberta ainda andam juntos (reprodução internet)

O nome vem de Virginia Woolf. Em “Um Teto Todo Seu”, de 1929, a narradora vê um gato sem rabo cruzar o gramado de uma universidade inglesa e passa a pensar em tudo o que está fora do lugar e incompleto. Johanna transformou a metáfora em plano de negócios, o que Virginia, dona da própria editora, certamente aprovaria.

Escolhi aqui três livrarias conhecidas, uma em São Paulo e duas em Londres, sem pretensão de amostra estatística. Mas creio que elas ilustram um fenômeno que já passou da fase da novidade: a livraria especializada, de nicho, que não briga com a Amazon em preço e prazo – é uma briga perdida desde 1995, diga-se.

Essa livraria conquista o leitor pela confiança. A confiança de que alguém leu antes, separou o que vale a pena e vai te mostrar algo que você não conseguiria descobrir sozinho pela internet. Assim, a livraria de rua recuperou um prestígio que parecia enterrado nos anos 1990: virou lugar de encontro, de clube de leitura, de debate numa terça-feira à noite (uma tendência que se fortaleceu depois da pandemia).

Em Notting Hill, no número 4 da Blenheim Crescent, uma fachada vermelho-bombeiro abriga desde 1983 a Books for Cooks, que só vende livros de culinária. Na soleira, um mosaico mostra um chef equilibrando uma sopeira sobre um livro aberto. No fundo, uma cozinha de testes prepara o almoço do dia com receitas tiradas das prateleiras; não há reserva, e os habitués começam a rondar as mesas antes do meio-dia. Uma plaquinha pede que se peça licença antes de copiar receitas. Eric Treuille, que comanda o fogão desde 1994, admite não saber se a cozinha ajuda a vender livros. Eu apostaria que sim.

Em Covent Garden, a Stanfords vende mapas desde 1853. Continua viva, em plena era de GPS. Florence Nightingale, Shackleton e Scott foram clientes, e Conan Doyle fez com que Sherlock Holmes procurasse ali um mapa de Dartmoor. Em 2019, a loja trocou Long Acre, onde estava desde 1901, por Mercer Walk, com globos de todos os tamanhos, café e espaço para lançamentos. Não que a vida seja fácil. Em 2020, com vendas a 30% do normal, pediu socorro aos clientes numa vaquinha. Continua aberta.

Stanfords, Londres. Fundada em 1853, a livraria especializada em mapas e viagens resiste à era do GPS. (reprodução redes sociais)

Há dados que indicam que o declínio das livrarias de rua se estabilizou há algum tempo. A Associated Press notou em maio que, nos números, a curva de decadência desse nicho terminou faz anos, mas com ressalvas. Nos Estados Unidos, a American Booksellers Association tinha 2.010 empresas associadas em 2021 e 3.416 em 2025, alta de 70%. No Reino Unido e na Irlanda, as independentes saíram do fundo do poço de 867 lojas em 2016 para 1.052 em 2024, num varejo que fechava cerca de 37 lojas por dia.

No Brasil, a Associação Nacional de Livrarias conta 2.972 livrarias, uma para cada 72 mil habitantes, com perto de cem aberturas desde 2021. A ressalva: as independentes americanas, que tinham 30% do mercado quando a Amazon nasceu, hoje ficam com cerca de 7%.

Do lado dos gigantes, o obituário é conhecido. A Borders fechou em 2011. Aqui, a Saraiva, que chegou a ter mais de cem lojas e uma rede própria para vender iPhones, fechou as últimas cinco e teve a falência decretada. A Cultura pediu recuperação judicial em 2018, logo depois de fechar as lojas da Fnac que havia comprado.

Quem sobreviveu copiou a lição das pequenas. James Daunt, fundador da Daunt Books em Londres, recuperou a Waterstones e depois a Barnes & Noble com uma ideia simples: cada loja escolhe o próprio estoque. Ele abriu mão do dinheiro que as editoras pagavam por mesa de destaque, espalhou bilhetes de recomendação escritos pelos funcionários e terminou 2025 com 702 lojas, mais de 60 abertas no ano. “Eu mesmo sou um livreiro independente”, diz ele, apesar do número significativo de lojas.

Os japoneses têm uma palavra para o que vem depois: tsundoku, o hábito de comprar livros e deixá-los empilhados. Um texto de 1879 já zombava de um “tsundoku sensei”, o mestre cheio de livros que não lia. Quem sai da Gato sem Rabo com três volumes e a promessa de lê-los nas férias conhece o sintoma. A pequena livraria vive dessa aritmética otimista, vendendo o que você não sabia que queria, junto com a convicção de que haverá tempo. Raramente há.

www.instagram.com/theskepticalhedonist


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