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Lula e a juventude nas ruas

Ampliar o SUS e a escola pública exigirá enfrentar a rigidez do orçamento e rever prioridades de gasto. Um alvo prioritário: os benefícios fiscais.

A vitória inédita de Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato teve nas ruas uma força que as pesquisas eleitorais não conseguiram antecipar por inteiro. Nas manifestações pelo Brasil, chamava a atenção a presença de jovens organizados em entidades estudantis, coletivos universitários e movimentos em defesa da escola pública. Muitos exibiam também camisetas e bandeiras em defesa do SUS, em contraste com a referência de Flávio Bolsonaro a um sistema de saúde “padrão Einstein”, inspirado num hospital privado. Para essa juventude, a eleição de Lula para o que apresenta como seu último mandato não representava apenas a escolha de um presidente, mas a defesa de serviços públicos que considera ameaçados.

A reivindicação tem algo de familiar. No início das manifestações de 2013, que abalaram o governo Dilma Rousseff, estudantes e trabalhadores exigiam saúde e educação “padrão FIFA”, numa referência aos bilhões destinados à construção e reforma de estádios para a Copa do Mundo. Aquele movimento abriu um período de instabilidade política que culminaria no impeachment de Dilma e na ascensão da extrema direita. Treze anos depois, Lula promete universalizar a educação em tempo integral até o ensino médio e ampliar o alcance do SUS. Se quiser deixar um legado comparável ao de seus programas de combate à fome e à miséria, terá de evitar a frustração de uma nova geração que depositou expectativas em sua vitória. O apoio de hoje pode se transformar na cobrança de amanhã.

No Brasil, o problema começa pelos números. A proposta de Orçamento para 2027 reserva R$ 272,2 bilhões à saúde, exatamente o piso constitucional, e R$ 141,2 bilhões à educação, apenas R$ 2,4 bilhões acima do mínimo obrigatório. Nada menos que 91,7% das despesas primárias previstas são obrigatórias. O governo, portanto, dispõe de pouca liberdade para decidir onde aplicar recursos adicionais. E essa margem corre o risco de diminuir nos próximos anos, pressionada pelo crescimento dos benefícios previdenciários, das despesas com pessoal e de outros compromissos legais. Universalizar o ensino integral significa contratar professores, alimentar estudantes e manter escolas funcionando durante mais horas. Ampliar o SUS exige médicos, equipamentos, medicamentos e custeio permanente. É preciso garantir quem pagará a conta todos os anos.

Lula terá de encontrar espaço para suas promessas dentro de um orçamento apertado. O arcabouço fiscal limita a 2,5% ao ano o crescimento real das despesas sujeitas à regra, restringindo a capacidade de ampliar investimentos e serviços públicos. O presidente poderia negociar uma flexibilização desse limite, mas mudar a lei não muda a aritmética: autorizar mais gastos não significa encontrar dinheiro para pagá-los. Sem receitas permanentes ou uma revisão das prioridades existentes, a expansão dos programas sociais poderá pressionar a dívida pública e os juros, comprometendo a capacidade futura do Estado de financiar a saúde e a educação. A questão, portanto, não é apenas quanto Lula poderá gastar, mas o que estará disposto a mudar para cumprir suas promessas.

Existe uma alternativa, embora politicamente mais difícil do que alterar o arcabouço: enfrentar os benefícios fiscais. Em 2026, as renúncias tributárias e os subsídios financeiros e creditícios federais somam quase R$ 800 bilhões, incluindo incentivos à indústria e ao crédito rural. Nem todo esse valor é recuperável, mas Lula poderia revisar benefícios concedidos a setores empresariais, exigir resultados concretos e direcionar parte dos recursos recuperados à saúde e à educação. Também poderia negociar a redistribuição das emendas parlamentares, tarefa difícil diante de um Congresso hostil. Já uma reforma estrutural das despesas obrigatórias, que consomem quase todo o orçamento, dificilmente encontrará disposição política no governo petista. Restaria combinar a revisão dos subsídios com uma mudança limitada do arcabouço, sem comprometer a trajetória da dívida. O obstáculo não é apenas econômico: significa escolher entre preservar benefícios consolidados e financiar as promessas feitas à nova geração.

Isso não significa que a solução dependa exclusivamente de arrecadar e gastar mais. Uma expansão gradual do ensino integral, concentrada inicialmente nas faixas mais vulneráveis, poderia combinar financiamento federal, participação de estados e municípios e metas verificáveis de aprendizagem. Na saúde, sistemas integrados para organizar filas, ampliação do atendimento especializado e aproveitamento da capacidade ociosa da rede hospitalar poderiam oferecer resultados mais rápidos do que simplesmente inaugurar novas unidades. Melhorar a eficiência não elimina a necessidade de recursos adicionais, mas permite que cada real produza mais serviços. O caminho economicamente defensável seria combinar essas mudanças com financiamento permanente, metas de desempenho e uma trajetória confiável de estabilização da dívida pública.

O desafio de Lula, portanto, não será escolher entre atender aos jovens e satisfazer o mercado financeiro. Será demonstrar que responsabilidade fiscal e serviços públicos de qualidade podem fazer parte de um mesmo projeto. A reeleição deu a Lula capital político para negociar mudanças que dificilmente seriam possíveis sem uma vitória nas urnas. Mas o presidente terá de enfrentar interesses consolidados, inclusive entre seus aliados, se quiser transformar promessas em resultados. A juventude que ocupou a Avenida Paulista e a praia de Copacabana não saiu às ruas para defender uma fórmula fiscal, mas sim em defesa do próprio futuro.


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