Ainda estudante, antes dos 20 anos, Rafael Fonteles – governador reeleito do Piauí – conquistou três medalhas internacionais em Química e Matemática e recebeu uma menção honrosa em Física. Concluiu Matemática na Universidade Federal do Piauí em apenas dois anos e obteve o mestrado em Economia Matemática pelo Impa aos 21. Filho de um dos fundadores do PT no estado, tornou-se professor, empresário da educação e consultor de investimentos autorizado pela CVM, antes de assumir a Secretaria da Fazenda do Piauí aos 29 anos. Hoje, aos 41, é governador reeleito com 70,9% dos votos. Sua trajetória despertou o interesse de investidores surpreendidos pela vitória de Lula no último domingo, interessados em saber se um dos nomes cogitados para o Ministério da Fazenda no quarto mandato do presidente estaria disposto a promover um ajuste fiscal.
Vale resgatar sua trajetória pública. Fonteles comandou a Fazenda piauiense de 2015 a 2022, durante o governo Wellington Dias, atravessando a recessão brasileira do governo Dilma, a crise fiscal dos estados no governo Temer e a pandemia na gestão Bolsonaro. Participou do controle de despesas, da reorganização das contas públicas e de uma reforma previdenciária. Entre 2018 e 2020, a dívida bruta estadual recuou de 67,6% para 56,3% da receita corrente líquida, segundo o Banco Mundial. O estado registrou superávits primários em 2020 e 2021, beneficiado também pelo socorro federal da pandemia, incluindo transferências emergenciais e compensações por perdas do Fundo de Participação dos Estados. Presidente do Comsefaz, comitê que reúne os secretários estaduais de Fazenda, entre 2019 e 2022, Fonteles ganhou experiência nas negociações nacionais sobre tributação e financiamento dos estados.
Mas o que efetivamente mudou no Piauí? Entre 2015 e 2023, período que abrange sua passagem pela Fazenda e o primeiro ano como governador, a economia estadual cresceu cerca de 15% em termos reais, impulsionada pelo agronegócio, pelos serviços e pelas energias renováveis. A pobreza, que atingia 55,6% da população em 2012, recuou para 37,3% em 2024, resultado também associado às políticas federais de transferência de renda. O estado, porém, permanece entre os mais pobres do Brasil. Em 2023, seu PIB por habitante era de R$ 24,7 mil, menos da metade da média nacional. O crescimento trouxe mudanças, mas ainda não foi suficiente para superar desigualdades históricas.
Na educação, os avanços são particularmente notáveis. A rede estadual, última colocada no Ideb do ensino médio em 2005, chegou ao segundo lugar nacional em 2025, com nota 4,9. A melhora atravessou diferentes administrações, mas ganhou impulso recente. Sob Fonteles, o Piauí alcançou a liderança nacional em ensino médio integral, com 81,46% das matrículas da rede estadual nessa modalidade, além de ampliar a formação técnica e introduzir inteligência artificial no currículo. A expansão do ensino integral também é prioridade do programa de governo com o qual Lula conquistou a reeleição. Os efeitos sobre produtividade e renda ainda precisarão ser medidos, mas a educação pode representar uma mudança estrutural para um estado de baixa renda.
Como governador, Fonteles também ampliou a participação privada em infraestrutura. Em 2024, concedeu os serviços de água e esgoto à Aegea, mediante outorga de R$ 1 bilhão e previsão de R$ 9,6 bilhões em investimentos ao longo de 35 anos, na esteira do Marco do Saneamento aprovado no governo Bolsonaro. Adotou ainda regras de controle de despesas e planejamento fiscal. Há, porém, contradições. A dívida bruta voltou a crescer, alcançando 76,7% da receita corrente líquida em 2024, segundo o Banco Mundial. Os juros elevados agravaram o custo do financiamento, mas a deterioração fiscal também refletiu o aumento das despesas correntes e dos investimentos. Caso assuma a Fazenda, Fonteles enfrentará desafios de outra escala: administrar as contas de um país muito maior, mais diverso e complexo, com dívida pública crescente, despesas obrigatórias em expansão e um Congresso fragmentado e polarizado.
Lula não precisa escolher Rafael Fonteles para que sua experiência seja relevante ao debate nacional. Reeleito por ampla maioria no Piauí, apoiado por uma coalizão que reúne esquerda, centro e direita, o governador é um dos representantes da nova geração do PT que combina formação técnica, experiência empresarial e articulação política. Mas sua trajetória também expõe uma questão que números fiscais favoráveis não conseguem resolver: como transformar crescimento econômico em prosperidade para uma população que continua majoritariamente distante dos padrões de renda do restante do país? As medalhas conquistadas na juventude mostraram que Fonteles sabia resolver problemas complexos. O Piauí lhe apresentou um desafio difícil: tirar da pobreza mais de um terço de sua população. Uma mudança para Brasília não encerraria esse teste. Apenas o tornaria nacional.













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