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Lucro da Vale despenca 53%, custos disparam e entrada extraordinária sustenta geração de caixa

Apesar da estabilidade nas vendas e do avanço do cobre, mineradora registra forte deterioração da rentabilidade.

By Brazil Stock Guide — A Vale (VALE3) encerrou o terceiro trimestre de 2026 com uma queda de 53% no lucro líquido, revelando um contraste cada vez mais evidente entre o discurso de eficiência operacional da companhia e sua capacidade efetiva de transformar receitas em resultados.

O lucro líquido atribuível aos acionistas recuou de US$ 2,69 bilhões para US$ 1,26 bilhão, apesar do crescimento de 2% na receita líquida, que alcançou US$ 10,6 bilhões. Em outras palavras, a Vale conseguiu preservar seu faturamento, mas passou a reter uma parcela significativamente menor do dinheiro gerado pelas vendas.

O EBITDA ajustado caiu 24%, de US$ 4,37 bilhões para US$ 3,33 bilhões. A margem EBITDA ajustada encolheu de aproximadamente 41,9% para 31,4%, uma perda superior a dez pontos percentuais em apenas um ano.

Ao mesmo tempo, o custo dos produtos vendidos e dos serviços prestados aumentou 20%, atingindo US$ 7,94 bilhões, ritmo muito superior ao crescimento das receitas.

Os números colocam em perspectiva a mensagem apresentada pela administração. Embora a Vale destaque disciplina financeira, flexibilidade operacional e ganhos de eficiência, o balanço mostra uma companhia ainda profundamente exposta à combinação de preços menores do minério de ferro e custos crescentes.

Minério de ferro concentra a deterioração

A piora foi especialmente acentuada no principal negócio da mineradora.

O EBITDA ajustado da divisão de soluções de minério de ferro recuou 34%, para US$ 2,63 bilhões. Considerando apenas os finos de minério de ferro, a queda chegou a 39%, com o resultado diminuindo para US$ 2,08 bilhões.

O preço médio realizado dos finos caiu 10% em relação ao terceiro trimestre de 2025, para US$ 85,10 por tonelada. A produção de minério diminuiu 6%, para 88,4 milhões de toneladas, principalmente devido à menor disponibilidade de minério em Serra Norte.

As vendas permaneceram praticamente estáveis, em 86,3 milhões de toneladas, mas a própria companhia reconheceu que a utilização de estoques acumulados em períodos anteriores contribuiu para sustentar os volumes comercializados.

Do lado dos custos, a situação também se deteriorou. O custo caixa C1 subiu 12%, para US$ 23,10 por tonelada, enquanto o custo total all-in de minério de ferro e pelotas avançou 21%, para US$ 60,40 por tonelada. O custo médio do frete marítimo aumentou outros 21%, alcançando US$ 22,80 por tonelada.

A valorização do real, o encarecimento do combustível e os gastos com transporte explicam parte desses movimentos. Mas o resultado combinado evidencia as dificuldades da Vale para proteger suas margens quando as condições do mercado internacional se tornam menos favoráveis.

A estratégia de proteção contra oscilações do petróleo e do frete produziu um benefício econômico de US$ 97 milhões no trimestre. A medida atenuou parte das pressões externas, mas não impediu a forte contração do resultado operacional.

O que existe por trás da geração de caixa

A Vale destacou a geração de US$ 2,23 bilhões em fluxo de caixa livre, uma expansão de 48% em relação ao segundo trimestre. O indicador, entretanto, merece uma leitura mais cuidadosa.

Desse total, US$ 857 milhões corresponderam a uma liberação extraordinária de recursos relacionada a incentivos fiscais.

Sem esse ingresso não recorrente, o fluxo de caixa livre recorrente ficou em US$ 1,37 bilhão, uma redução de 12% na comparação anual e de 9% em relação ao trimestre anterior.

Isso significa que aproximadamente 38% do fluxo de caixa livre anunciado pela companhia teve origem em um evento extraordinário, que não deve ser confundido com geração de recursos sustentável das operações.

A Vale também se beneficiou da redução dos estoques e do alongamento dos prazos de pagamento a fornecedores. Essas medidas ajudam a administrar a liquidez, mas não podem substituir indefinidamente uma recuperação efetiva da rentabilidade operacional.

No trimestre, a companhia distribuiu aproximadamente US$ 1,68 bilhão em dividendos e juros sobre capital próprio, valor superior ao fluxo de caixa livre recorrente produzido no mesmo período. Embora distribuições e geração de caixa não precisem coincidir trimestre a trimestre, a comparação evidencia a necessidade de conciliar a remuneração dos acionistas com a deterioração dos resultados.

Cobre avança, mas não compensa a queda do minério

A divisão de metais básicos apresentou um desempenho mais favorável. O EBITDA ajustado do segmento cresceu 61%, para US$ 1,11 bilhão, impulsionado principalmente pelo cobre, cujo resultado aumentou 66%, para US$ 1,02 bilhão.

A valorização dos preços realizados do metal contribuiu para compensar parte das perdas no negócio de minério de ferro e reforçou a importância da estratégia de diversificação da Vale.

Entretanto, o avanço não foi suficiente para neutralizar a deterioração do principal negócio da mineradora. Nos nove primeiros meses de 2026, a receita líquida da Vale cresceu 11%, para US$ 30,36 bilhões. O EBITDA ajustado, porém, permaneceu praticamente estável, em US$ 10,83 bilhões, enquanto o lucro líquido atribuível aos acionistas recuou 27%, para US$ 4,52 bilhões.

Esse talvez seja o sinal mais relevante do balanço: o crescimento das receitas deixou de produzir uma expansão proporcional dos resultados.

Brumadinho e Mariana continuam pesando

As demonstrações financeiras também mostram que as consequências dos desastres de Brumadinho e Mariana permanecem presentes nos números da Vale.

As despesas relacionadas a Brumadinho e à descaracterização de barragens cresceram de US$ 30 milhões para US$ 181 milhões no trimestre. A companhia registrou ainda um impacto negativo de US$ 322 milhões associado à revisão de provisões da Samarco, responsável pela barragem que se rompeu em Mariana.

A Vale informou que aproximadamente 84% dos compromissos previstos no acordo de reparação integral de Brumadinho haviam sido concluídos até setembro, o que demonstra avanço no cumprimento das obrigações.

Ainda assim, os compromissos financeiros relacionados aos dois desastres continuam relevantes e deverão permanecer nos balanços por vários anos.

A dívida líquida alcançou US$ 13,1 bilhões, uma alta de 5% em relação ao terceiro trimestre de 2025. Já a dívida líquida expandida, que incorpora determinadas provisões de reparação e posições com derivativos, recuou ligeiramente para US$ 16,4 bilhões.

O desafio da administração

O presidente da Vale, Gustavo Pimenta, apresentou os resultados como uma demonstração de disciplina na execução da estratégia e resiliência operacional. Destacou o avanço de projetos em Serra Sul, a flexibilidade do portfólio e o crescimento da contribuição dos metais básicos.

Há resultados concretos que sustentam parte dessa avaliação. A companhia continua produzindo caixa, mantém um endividamento administrável e amplia sua exposição ao cobre, um negócio que ganhou importância na composição dos resultados.

Mas essas conquistas não eliminam os sinais de alerta. Para uma mineradora do porte da Vale, as oscilações internacionais das commodities fazem parte do negócio. Já a combinação de inflação de custos, compressão de margens e maior dependência de ajustes de capital de giro ou entradas extraordinárias de recursos exige respostas mais consistentes da administração.

A empresa manteve sua projeção de produzir entre 335 milhões e 345 milhões de toneladas de minério de ferro em 2026. Para atingir até mesmo o piso dessa faixa, precisará produzir aproximadamente 92,7 milhões de toneladas no quarto trimestre, acima das 88,4 milhões registradas entre julho e setembro.


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