By Brazil Stock Guide — A influência conquistada nas redes sociais por partidários ligados ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reeleito para um quarto mandato, começa a ser utilizada como instrumento de pressão sobre decisões econômicas no Brasil.
A influenciadora digital Ana Elisa (PT-MG), de 21 anos, eleita deputada federal com mais de 524 mil votos, tenta reverter o encerramento da produção de aço da Gerdau (B3: GGBR4; NYSE: GGB) em Divinópolis, no Centro-Oeste de Minas Gerais.
Após uma reunião com o vice-presidente Geraldo Alckmin, na quarta-feira (4), ela afirmou que a paralisação da unidade pode não ser definitiva e que o governo federal está disposto a buscar alternativas para preservar os empregos.
“Há possibilidade, sim, de volta”, declarou Ana Elisa. A parlamentar eleita afirmou que a unidade estaria em processo de “hibernação”, embora a Gerdau não tenha confirmado qualquer plano de retomada. A empresa anunciou na terça-feira (3) o encerramento da produção de aço na fábrica, com a demissão de 278 funcionários e a manutenção de aproximadamente 180 trabalhadores em atividades remanescentes.
Natural de Divinópolis, Ana Elisa ganhou projeção nacional por meio das redes sociais, onde reúne cerca de 2 milhões de seguidores. Estudante de Direito, foi a segunda candidata a deputada federal mais votada de Minas Gerais nas eleições de outubro, atrás do influencer de direita, Nikolas Ferreira (PL).
Sua atuação digital também chamou a atenção da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva, que a convidou a colaborar com a comunicação no segundo turno presidencial. Agora, antes mesmo de assumir o mandato, em fevereiro de 2027, ela procura converter essa projeção em influência sobre uma decisão empresarial.
O encontro com Alckmin contou também com a participação da prefeita de Divinópolis, Janete Aparecida (Avante), e de representantes da Gerdau. Apesar das diferenças partidárias, as duas políticas defenderam uma atuação conjunta para tentar preservar a atividade industrial no município.
Das redes sociais às decisões econômicas
O movimento ocorre na mesma semana em que o presidente Lula acionou o chamado “Exército do Lula”, canal de WhatsApp organizado pelo deputado André Janones (Rede-MG), para mobilizar apoiadores durante a audiência pública do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a medida provisória que proibiu as apostas esportivas e os jogos online no Brasil.
O canal, que ultrapassou 10 milhões de seguidores durante o segundo turno das eleições, recebeu mensagens de áudio e vídeo do presidente na terça-feira (3), incentivando a mobilização contra as bets. Ao longo do dia, a hashtag #ComLulaNãoTemBets esteve entre os assuntos mais comentados do X. A iniciativa buscou levar para o debate regulatório a capacidade de mobilização digital desenvolvida durante a campanha eleitoral.
A audiência, conduzida pelo ministro Luiz Fux, reuniu 34 representantes de órgãos públicos, clubes de futebol, empresas e entidades ligadas ao setor de apostas. De um lado, o governo defendeu a proibição com argumentos relacionados à saúde pública e ao endividamento das famílias. De outro, clubes e representantes empresariais alertaram para perdas de receitas, empregos e contratos de patrocínio. O encontro não teve caráter decisório, e a constitucionalidade da medida provisória ainda depende de julgamento.
Os dois episódios ilustram uma mudança na relação entre influência digital, política e economia por parte dos partidários de Lula. Audiências de milhões de seguidores, antes utilizadas principalmente em campanhas eleitorais, passam a servir também como instrumentos de mobilização em disputas envolvendo empresas, empregos e políticas públicas. Mas o alcance nas redes não garante resultados: decisões corporativas continuam sujeitas a condições econômicas, enquanto decisões judiciais dependem de fundamentos jurídicos e constitucionais.
Custos elevados e concorrência internacional
No caso da Gerdau, a tentativa de reverter a decisão enfrenta obstáculos econômicos. A companhia atribuiu o encerramento da produção à perda de competitividade da unidade, principalmente à dificuldade de obter minério de ferro a custos adequados. A empresa também apontou o aumento das importações de aço no mercado brasileiro e as condições desfavoráveis para exportações, historicamente importantes para a fábrica de Divinópolis.
Segundo a Gerdau, a medida integra uma estratégia de concentrar a produção de aço em operações mais competitivas, eficientes e tecnologicamente avançadas. A justificativa indica que uma eventual retomada dependeria de mudanças nas condições econômicas da unidade, e não apenas de negociações políticas.
O impacto ultrapassa os empregos diretamente eliminados. A Prefeitura de Divinópolis estima que cerca de mil pessoas, entre empregados e terceirizados, sejam afetadas pela decisão, número equivalente a aproximadamente 7,4% dos postos de trabalho industriais da cidade. Estudos municipais indicam ainda que a unidade pode representar até 15% dos repasses de ICMS recebidos pelo município, além de sustentar parte da demanda por serviços, transporte e comércio na região.
Paralelamente às negociações políticas, representantes da Gerdau, do Sindicato dos Metalúrgicos e do Ministério do Trabalho discutiram um acordo para os empregados desligados. A proposta prevê indenização adicional equivalente a três salários e meio, benefícios proporcionais ao tempo de serviço e possibilidades de transferência para outras unidades do grupo. O entendimento ainda depende de aprovação em assembleia dos trabalhadores.
A mobilização ocorre em um momento de crescente preocupação da indústria siderúrgica brasileira com a concorrência internacional. A Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) afirmou que a decisão da Gerdau evidencia a necessidade de uma política industrial de longo prazo, capaz de reduzir custos e fortalecer a competitividade da produção nacional.
Por enquanto, a perspectiva de reabertura permanece uma possibilidade defendida por lideranças políticas. A Gerdau não anunciou a reversão do encerramento da produção, não apresentou um cronograma de retomada e tampouco confirmou a reintegração dos trabalhadores demitidos. O alcance político da mobilização digital já é visível. Sua capacidade de alterar decisões empresariais ainda está por ser demonstrada.













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