Em junho de 2021, Gabriel Galípolo participou de uma conversa com o economista André Lara Resende, conduzida pelo jornalista Luís Nassif. Ainda distante da presidência do Banco Central, Galípolo não escondia sua admiração pelas ideias do economista, um dos criadores do Plano Real. Disse que precisava conversar mais com ele e elogiou sua contribuição para desmistificar a economia e atualizar conceitos que já não encontravam correspondência na realidade.
Lara Resende questionava a existência de uma taxa natural de juros, a relação tradicional entre poupança e investimento e a eficácia da política monetária convencional. Galípolo acompanhava o raciocínio com entusiasmo, acrescentando argumentos próprios e referências filosóficas. Era o Galípolo do Velho Testamento. A afinidade intelectual não era circunstancial. Em 2017, Galípolo e Luiz Gonzaga Belluzzo haviam publicado um artigo no Valor Econômico questionando os efeitos dos juros elevados sobre a dívida pública e a própria inflação.
Na conversa de 2021, Galípolo voltou ao tema, destacando como a redução do custo de financiamento do Tesouro poderia melhorar a trajetória da dívida mesmo diante de déficits primários expressivos. Também defendeu instrumentos alternativos de administração da liquidez e a necessidade de compreender a moeda e o crédito para além das explicações tradicionais. Não se tratava de um economista simplesmente interessado em ouvir uma interpretação heterodoxa. Galípolo participava ativamente da construção daquele argumento.
Cinco anos depois, o cenário é bastante diferente. Como presidente do Banco Central, Galípolo conduz a política monetária dentro do regime de metas de inflação e defende a manutenção de juros restritivos enquanto persistirem pressões sobre os preços. Em setembro, o Copom reduziu a Selic para 13,75% ao ano, mas reafirmou a necessidade de cautela diante das expectativas inflacionárias desancoradas.
O presidente do BC passou a explicar os juros elevados pela necessidade de reequilibrar oferta e demanda, justamente um dos mecanismos tradicionais de transmissão da política monetária que Lara Resende questiona. A mudança de posição institucional do titular do BC é evidente, embora isso não prove que suas convicções intelectuais tenham desaparecido.
Há diferenças importantes entre os dois momentos. Em 2021, a economia ainda sofria os efeitos da pandemia, com desemprego elevado e capacidade ociosa. Em 2026, o mercado de trabalho permanece aquecido, a inflação resiste à convergência para a meta e o Banco Central precisa administrar expectativas que não controla inteiramente.
Galípolo também reconhece as limitações da política que executa. Em audiência no Senado em maio, observou que a elevada participação de títulos públicos indexados à Selic faz com que aumentos dos juros ampliem a renda de seus detentores, criando uma dificuldade adicional para a transmissão da política monetária. O diagnóstico do passado, portanto, não foi inteiramente abandonado. O que mudou, sobretudo, foi a disposição de extrair consequências práticas dele. Nesta quarta, dia 4, o Copom decidirá o rumo dos juros básicos no Brasil.
É nesse contexto que Lara Resende reaparece com uma proposta ainda mais ousada: reduzir a Selic a 7,5% em 12 meses, estabelecer posteriormente uma banda estrutural de juros entre 3% e 5,5% e criar um conselho para coordenar as políticas fiscal e monetária. Galípolo participou, em 2022, de um grupo do CEBRI que já defendia maior coordenação entre essas políticas, embora não haja evidência de que tenha endossado integralmente o novo plano.
A divergência até agora é concreta. Enquanto Lara Resende considera os juros elevados o principal motor do desequilíbrio fiscal, o Banco Central continua tratando a restrição monetária como necessária à estabilidade dos preços. São interpretações diferentes de um problema que ambos conhecem profundamente.
Seria simplista acusar Galípolo de incoerência. Pensar a política econômica fora do governo como toda a liberdade acadêmica é bem diferente de conduzi-la sob responsabilidades legais, institucionais e políticas. Mas também seria um desperdício intelectual aceitar que a passagem para o poder encerra automaticamente os questionamentos feitos antes dele. O Galípolo de 2021 parecia convencido de que a economia precisava rever seus dogmas. O de 2026 administra esses mesmos conceitos com prudência, disciplina e uma dose de conservadorismo.
Mas será que não existe mesmo uma contradição entre as duas atitudes? Vale a pergunta: o Galípolo do Velho Testamento ainda acredita na necessidade de reformar a política monetária brasileira ou descobriu, ao assumir o Banco Central, que é mais seguro preservar a doutrina sagrada do mercado financeiro do que tentar reescrevê-la?













Deixe um comentário