Meta Pixel

A ameaça do shadow banking

Casas Bahia mostra como o crédito migrou dos bancos para fundos. É preciso descobrir se a supervisão consegue acompanhar o risco na mesma velocidade.

Já alertamos neste espaço para o ponto cego criado pelo crescimento acelerado dos FIDCs no Brasil. O crédito que antes ficava concentrado nos balanços dos bancos passou a circular por fundos, gestoras, securitizadoras, fintechs e plataformas. Isso ampliou as fontes de financiamento e a concorrência. Mas distribuir o crédito não elimina o risco: apenas muda quem o carrega e pode tornar mais difícil descobrir onde a perda terminará.

A recuperação judicial da Casas Bahia oferece uma boa radiografia dessa transformação. A companhia informou R$ 7,03 bilhões em dívida bancária e outros R$ 2,016 bilhões em obrigações relacionadas a cotas seniores de FIDCs. Durante anos, seu tradicional carnê foi financiado principalmente por bancos como Bradesco e Banco do Brasil. Quando essas linhas ficaram mais restritas, a varejista começou, no fim de 2023, a recorrer aos FIDCs para sustentar o crediário. Depois, a estrutura alcançou também sua cadeia de fornecedores.

Os FIDCs não causaram a crise da Casas Bahia. O ponto é outro: um “não” dos bancos deixou de significar necessariamente o fim do financiamento. O mercado de capitais pode dizer “sim”. Essa é uma virtude de um sistema financeiro mais desenvolvido, mas também a essência do problema colocado pelo shadow banking: atividades semelhantes à intermediação bancária continuam acontecendo fora dos balanços tradicionais, sem que o risco desapareça junto com o empréstimo.

O BTG Pactual colocou números nessa preocupação. A indústria brasileira de FIDCs já soma R$ 765 bilhões em patrimônio, alta de 42% desde outubro de 2024. O banco não trata os fundos como problemáticos por definição, mas chama atenção para três questões: liquidez, concentração e formação de preços. Uma perda pode existir economicamente antes de aparecer integralmente na avaliação de um ativo e um evento de crédito pode revelar exposições espalhadas por muito mais investidores do que os balanços bancários sugeriam.

A Shopee mostra outra face do mesmo fenômeno. Seus dois FIDCs chegaram a cerca de R$ 7,5 bilhões em julho, alta de 200% em um ano e equivalentes a aproximadamente 92% da carteira brasileira comparável do Mercado Livre. Mas carteiras que crescem tão rapidamente carregam uma armadilha estatística: empréstimos novos ainda não tiveram tempo de envelhecer e migrar para as faixas mais longas de inadimplência. O crescimento pode, durante algum tempo, fazer a qualidade do crédito parecer melhor do que ela realmente é.

É aí que a discussão deixa de ser apenas sobre quem concedeu o crédito. As perguntas importantes passam a ser outras: quem ficou com o risco, quanto o ativo realmente vale, quando uma perda será reconhecida e quem absorverá o primeiro prejuízo? Num banco, provisões, capital e supervisão prudencial tornam esse processo relativamente visível. Num sistema pulverizado entre fundos e estruturas diferentes, reconstruir a exposição completa é mais trabalhoso.

Banco Central e CVM já parecem ter percebido essa dificuldade. Em abril, os dois reguladores ampliaram o compartilhamento de informações de crédito para enxergar melhor exposições espalhadas entre bancos, fundos e securitizadoras. A CVM também colocou a fiscalização dos FIDCs entre as áreas que pretende reforçar, incluindo verificação de lastro, análise de provisões e cruzamento de informações. Em outras palavras, o regulador está tentando reconstruir num mesmo radar aquilo que o mercado fragmentou.

A ameaça do shadow banking, portanto, não é a existência dos FIDCs. O Brasil precisa deles. O risco está em o crédito viajar mais rapidamente do que a capacidade de investidores e reguladores de acompanhá-lo. Casas Bahia mostra onde parte da exposição reaparece quando algo dá errado. O verdadeiro teste será saber se o sistema consegue descobrir onde está a perda antes que seja uma recuperação judicial a desenhar o mapa dos prejuízos.


Clear insights on Brazilian equities

Join portfolio managers and investors who get our curated analysis on Latin America’s largest economy.

Advertisement

Deixe um comentário

Descubra mais sobre Brazil Stock Guide

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo