O crescimento dos FIDCs é uma das evidências do amadurecimento do mercado de capitais brasileiro. Empresas que antes dependiam de poucos bancos passaram a acessar novas fontes de financiamento. Fintechs ampliaram a oferta de crédito. Investidores ganharam exposição a ativos antes restritos aos balanços das instituições financeiras.
Há mais concorrência, capital e alternativas. Mas há também um ponto cego.
O risco que antes estava concentrado nos bancos foi dividido e distribuído entre fundos, gestoras, securitizadoras, plataformas e investidores de renda fixa. Tornou-se menos concentrado, mas não necessariamente menor.
O alerta feito pelo presidente do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho, merece atenção por isso. Segundo ele, o mercado de capitais já movimenta um volume de crédito corporativo superior ao do sistema bancário, mas essa nova estrutura nunca foi testada em uma crise econômica profunda.
“Hoje você tem, pelo menos, quase uns dois Itaús em crédito corporativo no sistema”, estimou Maluhy.
O desenvolvimento é positivo. A dúvida é como o sistema reagirá quando vários devedores entrarem simultaneamente em dificuldades.
Um banco que mantém um empréstimo em seu balanço precisa reservar capital, reconhecer provisões e responder diretamente ao regulador pela qualidade da carteira.
Quando o crédito é transferido a um fundo, a instituição recupera capacidade para conceder novos financiamentos. O risco passa aos cotistas. Esse mecanismo é legítimo e necessário para ampliar o mercado. O problema começa quando quem origina o crédito está distante de quem suportará a perda.
Esse modelo, conhecido como originate to distribute, foi uma das engrenagens centrais da crise do subprime nos Estados Unidos. Bancos e correspondentes concediam hipotecas, vendiam os empréstimos e transferiam o risco para títulos adquiridos por investidores.
O problema não era a securitização em si, mas a combinação de crédito ruim, incentivos desalinhados e estruturas opacas: quem originava recebia antes, enquanto a perda potencial ficava com participantes distantes do devedor.
Plataformas são remuneradas pela originação. Instituições recebem pela estruturação. Gestoras cobram taxas. Distribuidores recebem pela colocação dos produtos.
A fragmentação da cadeia pode, assim, diluir a responsabilidade pela análise do risco, sobretudo quando quem origina e distribui o ativo não pretende carregá-lo até o vencimento.
Em períodos de liquidez abundante, isso quase não aparece. Os pagamentos continuam chegando, os fundos captam recursos e os spreads permanecem baixos. Numa crise, a distância entre quem concedeu o crédito e quem absorverá a perda se torna central.
Maluhy observou que parte dos empréstimos originados por novos bancos e plataformas termina dentro de fundos. Embora formalmente esteja no mercado de capitais, economicamente continua sendo um risco de crédito semelhante ao carregado por uma instituição financeira.
O executivo comparou parte desse universo a um shadow banking: atividades parecidas com as bancárias, mas realizadas fora dos balanços tradicionais e com menor visibilidade sobre os riscos finais.
“É um risco que é quase um shadow banking, que a gente tem baixa visibilidade efetivamente do que está dentro desses FIDCs”, afirmou.
Isso não significa que os ativos dos FIDCs sejam necessariamente ruins. Significa que pode ser mais difícil saber quem carrega o risco, com qual capacidade de absorver perdas e quais credores terão prioridade numa situação de estresse.
A fragmentação também torna as renegociações mais complexas. Uma empresa em dificuldade pode encontrar bancos, fundos, debenturistas e securitizadoras com interesses distintos.
Alguns credores conseguem esperar. Outros precisam marcar os ativos a mercado ou enfrentar pedidos de resgate. Distribuir o risco diminui a possibilidade de uma única instituição ser derrubada por um grande devedor. Mas também pode dificultar uma resposta coordenada quando vários investidores procuram liquidez ao mesmo tempo.
A mesma fragmentação aparece no crédito ao consumidor.
Segundo Maluhy, o brasileiro passou de cerca de 1,4 cartão por CPF para cinco ou seis. Sem anuidade, o consumidor pode acumular cartões sem custo imediato. Quando deixa de conseguir pagar, guarda um cartão e passa ao seguinte, preservando por último o banco onde concentra seu relacionamento financeiro.
Cada credor observa apenas uma parte do problema, enquanto o endividamento total do cliente pode se deteriorar mais rapidamente do que os indicadores individuais sugerem.
O alerta deve ser interpretado com cautela. O Itaú é um banco grande, capitalizado e amplamente regulado. É natural que veja com desconfiança concorrentes que crescem mais rapidamente e operam com modelos mais leves.
Ao apontar preços e concessões irracionais, o banco também defende sua própria estratégia. Maluhy afirmou que o Itaú prefere perder participação de mercado a conceder crédito em condições que não remunerem adequadamente o risco e o capital.
O argumento pode ser interessado e ainda assim estar correto.
O boom dos FIDCs não é necessariamente uma bolha, e as declarações do Itaú não demonstram que uma crise seja iminente. Mas a ausência, até agora, de uma crise sistêmica que teste essa arquitetura também não comprova que ela seja segura.
A liquidação extrajudicial do Banco Master ofereceu uma primeira advertência. O episódio atingiu diretamente 58 FIDCs que, juntos, somavam patrimônio líquido de R$ 3,9 bilhões — valor que não representa necessariamente a exposição integral ou a perda dos fundos.
Em 52 deles, a Master CCTVM atuava como administradora; nos outros seis, o Banco Master aparecia como cedente dos créditos.
O Master foi um primeiro teste relevante, mas ainda não o verdadeiro teste de estresse.
Esse virá quando a deterioração atingir simultaneamente os devedores, o valor dos ativos e a liquidez de diferentes fundos.













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