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Quem quer ser industrial no Brasil?

A venda do controle da Nexa completa mais uma etapa da transformação da Votorantim. A mudança diz tanto sobre a companhia quanto sobre o Brasil.

Antônio Ermírio de Moraes foi, durante boa parte da segunda metade do século XX, um dos personagens mais simbólicos do capitalismo industrial brasileiro. De origem têxtil, a Votorantim produzia, quando o empresário morreu em 2014, cimento, alumínio, aço, zinco, níquel e celulose, controlava dezenas de fábricas e gerava boa parte da energia consumida pelo próprio grupo. O empresário e a indústria quase se confundiam. Durante muito tempo, crescer significava construir capacidade produtiva.

A venda do controle da mineradora Nexa para a sueca Boliden, anunciada nesta quinta-feira, é um dos derradeiros capítulos dessa transformação. Em vez de controlar diretamente minas, fundições e decisões estratégicas, a Votorantim passará a deter cerca de 7% de um grupo global maior e terá representação em seu conselho. Em pouco mais de uma década, o grupo familiar combinou a Fibria com a Suzano e posteriormente deixou o negócio de celulose, transferiu sua siderurgia brasileira para a ArcelorMittal, acertou a venda do controle da CBA a um consórcio liderado pela chinesa Chalco e agora negocia o controle da Nexa. O cimento permanece como seu principal grande negócio industrial sob controle direto.

A Votorantim não deixou de acreditar no capital mas mudou a forma de empregá-lo. O grupo de hoje não é necessariamente menor, mais fraco ou pior administrado. É mais diversificado, mais orientado à gestão de portfólio e provavelmente mais disciplinado na alocação de recursos. A própria companhia descreve sua evolução como a passagem de um conglomerado industrial para uma holding de investimentos. Para os acionistas, isso pode ser simplesmente boa administração. Um conglomerado centenário não precisa preservar negócios por razões sentimentais. Capital deve migrar para onde encontra a melhor relação entre risco e retorno. Famílias empresárias que confundem tradição com estratégia de alocação frequentemente destroem valor.

O problema começa quando a mesma decisão passa a fazer sentido para tantas grandes empresas industriais brasileiras. Não é de hoje que companhias vendem, fundem ou reduzem sua exposição a ativos produtivos. Em uma economia na qual o retorno sobre ativos financeiros pode superar de forma persistente o retorno de investimentos produtivos de longo prazo, construir ou manter uma fábrica passa a competir em desvantagem com outras formas de alocação de capital. Mas uma fábrica não desaparece quando muda de controlador. Pode continuar produzindo, empregando e até receber mais investimentos. O efeito pode ser outro: um país pode perder densidade industrial, tecnologia e, sobretudo, poder de decisão. A próxima expansão de capacidade, o novo projeto de engenharia ou o próximo bilhão de dólares em investimento passam a disputar espaço dentro de estratégias globais definidas fora do Brasil.

É aí que a nostalgia por Antônio Ermírio precisa dar lugar à política econômica. O Brasil não necessita que todo controlador industrial tenha passaporte brasileiro. Precisa criar condições para que qualquer controlador – brasileiro, americano, chinês, europeu ou australiano – tenha razões econômicas para instalar aqui a próxima fábrica, desenvolver aqui engenharia e tecnologia e ampliar aqui os elos mais sofisticados da cadeia produtiva. O papel do Estado não é conservar famílias industriais artificialmente. É evitar que a racionalidade econômica empurre o país para a posição de mero fornecedor de minério, commodities, energia e mercado consumidor. Financiamento público, incentivos tributários, concessões, acesso a recursos naturais e infraestrutura devem servir para aumentar a produtividade e agregar valor localmente e não apenas para reduzir o risco de ativos cujas decisões estratégicas depois passam a ser tomadas no exterior.

O que aconteceu com o Brasil para que uma das famílias que melhor aprendeu a construir indústria tenha concluído que ser acionista pode ser mais atraente do que ser industrialista? E, talvez mais importante: quem serão os Antônios Ermírios do futuro?


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