José Carlos Martins tem uma resposta simples para um dos problemas mais antigos da mineração: se a empresa não controla o preço da commodity, precisa controlar o custo. O novo chairman da Cedro, do empresário Lucas Kallas, quer usar a próxima geração de projetos da mineradora para testar essa lógica, incorporando automação, sensores e conectividade desde a concepção das operações, em vez de tentar adaptar minas maduras anos depois.
A aposta importa porque a Cedro prepara uma expansão intensiva em capital para uma empresa de seu porte. Só o projeto de pellet feed de alto teor em Mariana, Minas Gerais, está estimado em mais de R$ 3 bilhões. A estratégia mais ampla inclui ainda bilhões de reais em infraestrutura logística própria. Tecnologia, portanto, não pode apenas deixar a mina mais moderna: precisa melhorar o retorno sobre o capital.
Ex-executivo da CSN e da Vale, Martins argumenta que novos empreendimentos dão à Cedro uma oportunidade. Implantar sistemas digitais em uma mina que já está funcionando é complexo, caro e pode interferir na produção. Construir uma operação já preparada para trabalhar com sensores, automação e processamento de dados é outra história.
“Vamos aproveitar esses novos projetos nossos para já entrar com uma tecnologia nova dentro de um ambiente voltado para essa tecnologia”, disse Martins em evento realizado nesta quinta-feira em São Paulo. Para ele, uma das maiores dificuldades é justamente aplicar novas tecnologias em operações já estabelecidas.
O objetivo não é acumular equipamentos sofisticados. Martins vê a conectividade como a infraestrutura que une sensores, equipamentos e sistemas de uma mina e permite que os dados produzidos na operação sejam utilizados em tempo real. “O que liga esse troço todo é conectividade”, afirmou. Mas a justificativa definitiva é financeira. “No longo prazo, as empresas competem por custo. E o custo de caixa é o mais importante”, disse Martins.
Esse é o teste para a estratégia da Cedro. A empresa dificilmente conseguirá competir com a Vale em escala, balanço ou acesso a capital. Pode, porém, tentar reduzir parte dessa desvantagem construindo ativos mais novos, com menos restrições herdadas de operações antigas e, potencialmente, custos operacionais menores.
Há também uma segunda aposta. O projeto de Mariana pretende produzir minério de maior qualidade, com teor de ferro que pode chegar a 68%. O minério premium tende a ganhar importância à medida que siderúrgicas buscam matérias-primas capazes de reduzir o consumo de carvão e as emissões. A tese combina minério melhor com uma mina potencialmente mais eficiente.
Mas existe uma armadilha. A história da mineração está cheia de projetos em que ambições tecnológicas elevaram o investimento inicial mais rapidamente do que reduziram os custos posteriores. Para a Cedro, uma mina digital só criará valor se o ganho de produtividade, a maior disponibilidade dos equipamentos e a eficiência operacional compensarem o capital adicional empregado.
Esse é o ponto mais interessante da aposta da Cedro. A companhia não precisa construir uma Vale em miniatura. Precisa provar que ativos mais novos, minério melhor e uma operação concebida desde o início para ser digital conseguem produzir retornos competitivos. No fim, o número de sensores instalados será irrelevante. O que contará será o capital empregado, o custo por tonelada e o caixa gerado.











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