A Vale decidiu levar a mineração para dentro da campanha presidencial brasileira. A companhia apresentou nesta semana o estudo “Destravando o Potencial da Mineração no Brasil”, uma agenda de 15 iniciativas que será entregue aos candidatos à Presidência. O pacote combina licenciamento mais previsível, conhecimento geológico, infraestrutura, energia, fortalecimento dos órgãos reguladores e ambientais e uma política nacional para minerais críticos e estratégicos.
A projeção é grandiosa. A Vale estima que a produção mineral brasileira possa subir de cerca de R$ 300 bilhões atualmente para R$ 535 bilhões em 2035. A cadeia ampliada poderia alcançar 5,3 milhões de empregos e gerar cerca de R$ 1,3 trilhão em arrecadação ao longo da próxima década. O Brasil tem as condições ideais: uma geologia excepcional, mas ainda encontra dificuldades para transformá-la em novos projetos.
Minerais críticos ocupam espaço importante nessa proposta. A Vale defende explicitamente uma Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, além de instrumentos para estimular a transformação mineral. É uma agenda que converge com a ambição do governo de usar a riqueza mineral brasileira para construir cadeias produtivas de maior valor agregado no país.
Mas a política mineral que a Vale recomenda para o Brasil não precisa coincidir com a estratégia de investimentos que escolhe para si. Gustavo Pimenta, CEO da Vale, deixou claro que a companhia continua concentrando capital onde já possui escala, conhecimento e vantagens competitivas: minério de ferro de alto teor, cobre e níquel. Terras raras e lítio permanecem em estudo, sem decisão de entrada.
Isso não significa resistência aos minerais críticos – cobre e níquel também pertencem a essa categoria. Significa disciplina de capital. Pimenta observa que o mercado de terras raras ainda é pequeno diante de cobre ou minério de ferro e que a tecnologia de refino permanece fortemente concentrada na China. A relevância geopolítica de uma commodity pode ser enorme sem que ela se transforme automaticamente no melhor destino para o capital da Vale.
A companhia parece bem mais disposta a colocar dinheiro onde já conhece a economia do negócio. Pimenta diz que o Brasil deveria voltar a desenvolver megaprojetos de mineração de US$ 15 bilhões a US$ 20 bilhões e afirma que a Vale tem capital, infraestrutura e conhecimento para fazê-los. Em Carajás, o Projeto Alemão, de cobre, deverá exigir entre R$ 8 bilhões e R$ 10 bilhões. O problema, portanto, não parece ser falta de dinheiro. É decidir onde colocá-lo.
É nesse ponto que a estratégia corporativa da Vale não coincide necessariamente com a política industrial de Brasília. Para o governo, desenvolver uma cadeia brasileira de terras raras pode fazer sentido por razões de tecnologia, emprego, segurança de abastecimento e geopolítica. Para a Vale, o mesmo projeto precisa competir pelo capital com uma expansão de cobre em Carajás ou de minério de ferro de alto teor, negócios nos quais a companhia já possui infraestrutura, escala e décadas de experiência.
O dilema tem precedente. No fim dos anos 2000, o governo Lula pressionou a Vale comandada por Roger Agnelli a investir mais no Brasil e a participar mais ativamente da expansão da siderurgia. A lógica era semelhante: se o país possuía minério de ferro, por que não transformar uma parcela maior dele em aço no próprio Brasil, capturando empregos e valor industrial? A administração de Agnelli resistia às pressões para que a alocação de capital da companhia acompanhasse as prioridades oficiais.
A diferença é que aquela Vale oferecia ao governo canais de influência muito maiores. Fundos de pensão ligados a estatais e o BNDES participavam do bloco de controle reunido na Valepar. Depois da dissolução dessa estrutura, a Vale tornou-se uma companhia de capital pulverizado. O governo pode formular uma política para minerais críticos; dispõe hoje de muito menos instrumentos para fazer com que a estratégia de investimento da mineradora seja uma extensão dessa política.
Isso não torna a política industrial irrelevante. O Estado pode ampliar o mapeamento geológico, reduzir incertezas regulatórias, construir infraestrutura, desenvolver tecnologia e criar incentivos capazes de tornar terras raras, lítio ou outras cadeias suficientemente competitivas para atrair capital. A própria Vale propõe forças-tarefas para projetos considerados transformacionais, reduzindo ciclos de desenvolvimento que podem levar 15 anos para oito ou dez, mantendo o rigor ambiental. Outras Vales poderiam surgir daí.
Quinze anos atrás, o governo queria que uma Vale rica em minério ajudasse o Brasil a produzir mais aço – espaço ocupado majoritariamente pela China. Hoje, quer que um país rico em minerais críticos capture uma parcela maior do valor industrial desses recursos. A ambição é reconhecível; a estrutura da Vale mudou. O governo pode escolher quais cadeias o Brasil quer desenvolver. O conselho da Vale precisa escolher onde o capital de seus acionistas terá melhor retorno. O país pode precisar de campeões em terras raras. Não necessariamente precisa que um deles seja a Vale.













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