Meta Pixel

BREAKING NEWS: Casas Bahia não resiste à crise e entra com pedido de recuperação judicial neste domingo após renúncias no conselho

Em menos de 24 horas, a cronologia da fragilidade: varejista expõe crise financeira, dois conselheiros renunciam, VP jurídico deixa o cargo e empresa pede proteção judicial antes da abertura do mercado nesta segunda-feira.

montagem

By Brazil Stock Guide — A Casas Bahia (B3: BHIA3) não resistiu nem ao primeiro dia depois de expor ao mercado a profundidade de sua crise financeira. Às 23h32 deste domingo, menos de 24 horas após divulgar um balanço que já admitia a possibilidade de recuperação judicial, a varejista informou que havia recorrido à Justiça.

No intervalo entre uma notícia e outra, a crise avançou rapidamente. Dois integrantes do Conselho de Administração renunciaram e deixaram a reunião convocada para as 16h. O vice-presidente Jurídico e Tributário também deixou o cargo. Os cinco conselheiros remanescentes aprovaram, em caráter de urgência, o pedido de recuperação judicial e autorizaram a administração a buscar medidas para preservar contratos-chave, liberar bens e impedir a execução de garantias.

O que na madrugada de domingo aparecia nas demonstrações financeiras como uma possibilidade tornou-se, antes do fim do mesmo dia, a solução escolhida pela companhia.

O balanço do segundo trimestre havia sido divulgado por volta das 2h da madrugada, depois do prazo previsto. Como mostrou o Brazil Stock Guide ainda na madrugada, a Casas Bahia reportou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões, enquanto a auditoria EY se absteve de emitir conclusão sobre as demonstrações financeiras diante de uma incerteza relevante relacionada à continuidade operacional.

A companhia também já reconhecia que poderia precisar recorrer a instrumentos formais de reorganização de seus passivos. Horas depois, a hipótese deixou de existir apenas no papel.

Um domingo de crise

A ata da reunião do Conselho de Administração permite reconstruir parte do que aconteceu nos bastidores.

Às 16h, os sete integrantes do conselho estavam reunidos. Também participaram representantes da Alvarez & Marsal e do escritório Thomaz Bastos, Waisberg, Kurzweil Advogados, especialistas em reestruturação de empresas, que esclareceram dúvidas dos conselheiros em suas respectivas áreas.A ordem do dia colocava lado a lado uma reorganização relevante da cúpula e a decisão mais grave da história recente da varejista: receber as renúncias de dois conselheiros, aceitar a saída do vice-presidente Jurídico e Tributário, eleger sua substituta e autorizar a Casas Bahia a protocolar, em caráter de urgência, o pedido de recuperação judicial.

Jackson Schneider (ex-presidente da Anfavea e hoje conselheiro da CBMM e da Abra, controladora da Gol) e Rogério Calderón (que faz parte do board do Nubank e Alupar) apresentaram suas renúncias ao Conselho de Administração. Depois que as saídas foram formalizadas, ambos deixaram a reunião.

Os cinco conselheiros remanescentes seguiram então para a discussão e deliberação dos outros itens da pauta — entre eles, o pedido de recuperação judicial.

Os documentos divulgados pela Casas Bahia não relacionam as renúncias à decisão de recorrer à Justiça. A sequência dos acontecimentos, no entanto, mostra uma ampla reorganização da governança justamente no momento em que a companhia decidiu colocar sua reestruturação sob proteção judicial.

Na mesma reunião foi formalizada a renúncia de Fábio Eduardo de Pieri Spina (ex-Anheuser-Busch Inbev, Suzano e Vale) ao cargo de vice-presidente Jurídico e Tributário, com efeitos a partir desta segunda-feira, 17 de agosto. Spina estava na companhia desde 2024 e, segundo a própria Casas Bahia, havia conduzido processos relevantes de reestruturação interna da área jurídica. Ele continuará como consultor. A empresa convocou Sírley Lima, que deixou o Jurídico da Heineken, e foi eleita para substituir Spina, passando a comandar uma estrutura ampliada que reúne Jurídico, Tributário, Compliance e Controles Internos.

Um buraco de R$ 7,8 bilhões no capital de giro

Os números apresentados poucas horas antes ajudam a dimensionar a urgência. Em 30 de junho, o Grupo Casas Bahia apresentava capital circulante líquido negativo de R$ 7,84 bilhões no consolidado, acima dos R$ 7,42 bilhões registrados no fim de 2025. Na controladora, o déficit havia aumentado de R$ 10,76 bilhões para R$ 11,97 bilhões.

O relatório da EY foi ainda mais contundente. A companhia acumulou prejuízo de R$ 11,18 bilhões no primeiro semestre, enquanto o patrimônio líquido negativo alcançava R$ 8,27 bilhões. O auditor chamou atenção para condições que poderiam levantar dúvida significativa sobre a capacidade de continuidade operacional da Casas Bahia.

O saldo consolidado de empréstimos e financiamentos de curto e longo prazo atingia R$ 7,03 bilhões em junho, ante R$ 6,30 bilhões no final de dezembro.

Mas o problema central era liquidez.

A EY destacou a necessidade de geração futura de caixa para cumprir obrigações financeiras e operacionais, liquidar passivos operacionais já vencidos e manter capital de giro em nível suficiente para dar estabilidade às operações. A capacidade de cumprir as obrigações nos vencimentos contratados dependia do sucesso das medidas financeiras e operacionais que estavam sendo implementadas.

Era um retrato bem mais delicado do que alguns dos indicadores escolhidos pela administração para abrir a apresentação de resultados.

O release destacava R$ 2,9 bilhões de liquidez, incluindo recebíveis, R$ 800 milhões de fluxo de caixa livre no trimestre e alavancagem de 0,5 vez.

O problema não estava apenas no estoque de dívida. Estava na capacidade de financiar o giro necessário para manter uma operação varejista desse tamanho funcionando.

O dinheiro novo não chegou

Desde 2023, a Casas Bahia vinha tentando transformar sua estrutura financeira. Renegociou obrigações, converteu dívidas, alongou vencimentos, vendeu ativos e reduziu a necessidade de capital empregado.

Concluída parte dessa reestruturação, o passo seguinte era encontrar fontes mais baratas e mais longas de dinheiro para financiar o capital de giro. A estratégia previa substituir gradualmente modalidades de financiamento de maior custo por novos recursos compatíveis com a geração operacional de caixa.

Foi justamente aí que o plano começou a falhar.

Os limites de crédito concedidos por seguradoras aos fornecedores não avançaram na intensidade esperada. Uma operação de captação internacional chegou à fase final, com investidor-âncora confirmado e bookbuilding estruturado, mas não foi concluída nas condições e no cronograma originalmente previstos. A própria companhia reconheceu que o acesso a capital novo ficou mais restrito.

A restrição obrigou a Casas Bahia a diminuir compras de estoque e acelerar o redimensionamento da operação. A lógica era simples e dura: comprar menos significava precisar de menos capital, mas também significava operar uma empresa menor.

No fato relevante divulgado às 23h32, a companhia reconheceu o desfecho dessa tentativa. As alternativas de liquidez que vinham sendo estruturadas não se concretizaram. A Casas Bahia também citou juros elevados, restrição de crédito, aumento do custo financeiro e pressão sobre consumo e capital de giro.

A solução deixou de ser apenas financeira e passou a ser judicial.

Proteção para contratos, bens e garantias

A ata do conselho mostra que a preocupação ia além de simplesmente renegociar vencimentos.

Os administradores autorizaram a companhia a apresentar pedidos urgentes para preservar contratos considerados essenciais, liberar bens e impedir a execução de garantias, além de buscar outras tutelas judiciais, extrajudiciais ou administrativas necessárias à recuperação.

O pedido foi protocolado no Juízo de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível de São Paulo e inclui, além do Grupo Casas Bahia, empresas como Cnova Comércio Eletrônico, Casas Bahia Tecnologia, Indústria de Móveis Bartira e subsidiárias de logística.

A companhia afirma que pretende manter suas operações em todos os canais, sem interrupções relevantes. A estratégia será concentrar a estrutura em negócios mais rentáveis e de maior margem e buscar, sob proteção judicial, o reperfilamento e alongamento das dívidas financeiras e operacionais.

A decisão ainda precisará ser ratificada pelos acionistas em Assembleia Geral Extraordinária. Na mesma AGE, a administração pretende reduzir formalmente o Conselho de Administração de sete para cinco integrantes, consolidando o tamanho do colegiado depois das duas renúncias.

Da recuperação extrajudicial à recuperação judicial

A ida à Justiça não começa agora.

Em abril de 2024, a Casas Bahia pediu a homologação de um plano de recuperação extrajudicial para reestruturar e alongar cerca de R$ 4,07 bilhões em dívida financeira quirografária. O plano já havia sido assinado por dois bancos que representavam 54,53% desse passivo e foi homologado pela 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Capital em junho daquele ano.

A diferença agora é fundamental.

A recuperação extrajudicial de 2024 partia de uma negociação previamente estruturada com credores financeiros. Dois anos depois, a Casas Bahia recorre à recuperação judicial, depois que novas fontes de liquidez não se materializaram e os próprios auditores levantaram dúvidas significativas sobre sua capacidade de continuidade operacional.

A sequência mostra como a reestruturação perdeu fôlego.

Em 2024, a empresa tentou resolver cerca de R$ 4,1 bilhões em passivos financeiros por meio de um acordo extrajudicial. Em 2026, depois de reduzir lojas, vender ativos, renegociar dívidas e tentar captar dinheiro novo, chegou à Justiça novamente — desta vez buscando uma proteção mais abrangente.

A Casas Bahia passou meses tentando ganhar tempo, diminuir de tamanho, reduzir sua necessidade de capital e reconstruir a confiança de fornecedores, bancos, seguradoras e investidores.

No domingo, o tempo acabou.


Clear insights on Brazilian equities

Join portfolio managers and investors who get our curated analysis on Latin America’s largest economy.

Advertisement

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Brazil Stock Guide

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo