Por Rodrigo Uchoa, especial para Brazil Stock Guide
Bater perna pelas lojas de Pinheiros é daqueles programas paulistanos que atraem moradores e turistas. E, enquanto este inverno de nosso descontentamento ainda não se transforma em verão sob o glorioso sol de um York tropical, alguns calçados expostos nas vitrines da Cônego Eugênio Leite e da Mateus Grou chamam a atenção pelo arco histórico e cultural que carregam.
Comecemos pela dupla Wallabee e Desert Trek, ambos com costuras em pontos miúdos que desenham o contorno do mapa do Brasil sobre a camurça. Seria possível ainda encontrar aqueles pares em tom bege? Eram da collab entre a Clarks Originals e a carioca Carnan, primeira parceria latino-americana da marca britânica, apresentada em uma campanha com Marcelo D2 e Luiza Machado. Não, não dá mais. Estão esgotados.

Poucos quarteirões adiante, outra vitrine, agora reluzente e branca, expõe a segunda peça dessa trama teatral. É uma Dr. Martens, mas cercada de parentes que ninguém em 1960 teria imaginado: um mule sem cadarços nem cano, semelhante ao cruzamento indeciso entre Birkenstock e Crocs, mas com a tradicional costura amarela na sola como certidão de nascimento.
As duas vitrines resumem um fenômeno que une Clarks e Dr. Martens. Ambas nasceram de necessidades práticas — uma inspirada nos calçados usados por oficiais britânicos durante as folgas, outra concebida para oferecer conforto e resistência aos trabalhadores do pós-guerra. Hoje, disputam espaço nas prateleiras com grifes de streetwear e sportswear de luxo, décadas depois de terem assumido, cada uma a seu modo, uma segunda encarnação como uniformes de subculturas.
Para entender como a Clarks chegou até ali, porém, é preciso voltar ao modelo que inaugurou sua transformação em ícone cultural.
A Desert Boot nasceu do tédio de um oficial. Nathan Clark, herdeiro da família de sapateiros de Somerset, servia no Exército britânico na Birmânia quando reparou nos colegas, durante as folgas, usando botas rústicas de camurça inspiradas em calçados vendidos nos bazares do Cairo. A ideia atravessou o oceano com ele e virou produto em 1950: sola de crepe, dois ilhoses, nenhuma pretensão.
A bota virou item de moda quase por acaso, primeiro entre beatniks e músicos de jazz nos anos 1950 e, depois, na cena mod londrina, combinada com ternos bem cortados ao som de soul e R&B americano. Mas foi na Jamaica dos anos 1960 e 1970 que ganhou seu significado mais duradouro. Os rude boys adotaram a Desert Boot e outros modelos da Clarks como símbolos de sofisticação urbana. O reggae e o dancehall, ao espalharem essa estética, levaram também a marca para o resto do mundo. Bob Marley foi um de seus usuários mais célebres, ajudando a transformar os sapatos de camurça da Clarks em parte do vocabulário visual da música jamaicana.

A origem da Dr. Martens é ainda mais circunstancial. Klaus Märtens, médico do Exército alemão, machucou o pé enquanto esquiava em 1945 e, insatisfeito com a rigidez das botas militares da época, desenvolveu para uso próprio uma sola com amortecimento a ar. A invenção virou patente e negócio. Mais tarde, atravessou o Canal da Mancha, depois que a família Griggs adquiriu os direitos de fabricação no Reino Unido.
Em 1º de abril de 1960 nasceu o modelo 1460 — repare, o nome é simplesmente a data. Adotada primeiro por carteiros, policiais e operários que precisavam de conforto e resistência, a bota foi capturada no fim dos anos 1960 pelos skinheads e, na década seguinte, pelos punks. Sid Vicious ajudou a transformá-la quase em logotipo. Depois vieram os góticos e, mais tarde, as cenas grunge e riot grrrl. Cada subcultura reescreveu o significado da mesma costura amarela, o que é, convenhamos, um feito e tanto para um calçado nascido de uma necessidade ortopédica.

Ambas passaram, é claro, por um purgatório. Entre o fim dos anos 2000 e meados da década seguinte, a Desert Boot e a 1460 foram empurradas para a gaveta do “sapato do pai”: algo confortável, honesto e absolutamente sem graça. A ressurreição veio pela mesma porta que tantas vezes devolve produtos antigos ao desejo contemporâneo: o streetwear e suas parcerias.
Quem manda hoje
Aqui a história perde parte do romantismo. A Clarks atravessou uma grave crise em 2020, quando a pandemia agravou problemas acumulados durante anos, incluindo falhas na gestão de estoques e dificuldades para adaptar a operação ao varejo digital. A família Clark acabou aceitando um aporte de £ 100 milhões da LionRock Capital, concluído em 2021, que viabilizou a reestruturação e afastou o risco de colapso financeiro da marca fundada quase 200 anos antes.
A LionRock assumiu o controle e, posteriormente, transferiu sua participação à Viva China Holdings, atual Viva Goods, grupo sediado em Hong Kong. A família Clark permaneceu como acionista minoritária, mas deixou de comandar a empresa que levava seu nome.
A Dr. Martens seguiu caminho inverso e mais vistoso. Abriu o capital na Bolsa de Londres em janeiro de 2021, avaliada em £ 3,7 bilhões. A festa durou pouco. As ações perderam cerca de 80% do valor nos anos seguintes, castigadas por falhas operacionais, excesso de estoques, problemas na distribuição nos Estados Unidos e desaceleração da demanda.

A marca, no entanto, continua vendendo aproximadamente 10,5 milhões de pares por ano. No último balanço, referente ao exercício encerrado em março de 2026, a receita caiu 2,9%, para £ 764,9 milhões, enquanto o lucro ajustado antes de impostos avançou 61%, para £ 55 milhões. A empresa virou um paradoxo para o mercado: uma marca culturalmente onipresente que, por anos, foi incapaz de traduzir essa relevância em valor para os acionistas.
Enquanto isso, as duas seguem colecionando parcerias como quem coleciona selos. Só em 2026, a Dr. Martens lançou collabs com a Supreme, que resultou no modelo Postal Supreme, com o Metallica e com a japonesa Wasted Youth, de Verdy. A Clarks fechou parcerias com a dinamarquesa NN.07, revisitando Wallabee e Desert Boot em couro nobre, e com a japonesa MASU, que apresentou uma Desert Boot pintada à mão em um pop-up em Sendai. Isso sem falar, claro, na própria collab com a brasileira Carnan.
O preço da nostalgia
No Brasil, onde qualquer calçado importado carrega imposto como carrega sola, um par de Dr. Martens 1460 costuma custar entre R$ 1.200 e R$ 2.500 nas lojas que vendem o produto original. É uma variação enorme, mas que diz mais sobre o câmbio, os tributos e a logística do que sobre o produto em si.
Os pares da collab Carnan x Clarks, aqueles já esgotados, foram lançados em edição limitada a partir de R$ 2.399, o equivalente a cerca de US$ 440 na época.
No fim, o que as vitrines de Pinheiros revelam é uma ironia que nenhuma das duas marcas planejou: calçados inspirados por necessidades militares, ortopédicas e industriais sobrevivem hoje vendendo, acima de tudo, anemoia — a nostalgia por aquilo que não se viveu.
Da minha parte, calcei minha Wallabee para continuar a bater perna por Pinheiros como quem bate perna por Camden, território espiritual da Dr. Martens.













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