By Brazil Stock Guide — A Vibra Energia (B3: VBBR3) não quer abrir mão da marca BR. E não faz muito esforço para esconder isso. Embora a Petrobras já tenha informado que não pretende renovar o contrato de licenciamento nas condições atuais, a distribuidora continua apostando em um acordo para manter a bandeira que identifica milhares de postos de combustíveis pelo Brasil.
Na quinta-feira, o presidente da Vibra, Ernesto Pousada, deixou clara essa preferência. Durante a teleconferência de resultados do terceiro trimestre, afirmou que renovar o contrato é uma “prioridade absoluta”. Os planos A, B e C da companhia, segundo ele, passam pela renovação. Retirar a marca dos postos seria apenas o plano D.
O problema é que, por enquanto, não há negociação. Pousada reconheceu que as conversas com a Petrobras ainda não começaram. E o relógio está correndo: o contrato termina em 28 de junho de 2029, data que também marca o fim da restrição que impede a Petrobras de voltar à distribuição de combustíveis.
A marca BR é uma das mais tradicionais e reconhecidas do mercado brasileiro de combustíveis. Sua força está diretamente associada à Petrobras, estatal que construiu ao longo de décadas uma relação de confiança com os consumidores.
A antiga BR Distribuidora perdeu o controle estatal em 2019, durante o governo Jair Bolsonaro, e a Petrobras vendeu sua participação remanescente em 2021. A empresa passou a se chamar Vibra, mas a marca permaneceu com a estatal, que licenciou seu uso à antiga subsidiária.
Agora, o cenário pode mudar novamente. Com Lula reeleito para um quarto mandato, a Petrobras pretende recuperar espaço na distribuição de combustíveis, atividade da qual se retirou com a privatização da BR. Se essa estratégia avançar, a marca BR poderá ganhar ainda mais importância para a estatal, deixando de ser apenas uma identidade licenciada à Vibra para voltar a integrar uma operação própria de distribuição.
Há outro ingrediente nessa disputa: o mercado brasileiro de combustíveis atravessa um processo de maior formalização, impulsionado pela fiscalização, pelo combate à sonegação e pela repressão a fraudes. O movimento tende a favorecer redes consolidadas, com capacidade logística, contratos regulares e marcas conhecidas.
A marca BR concorre com bandeiras como Shell, operada pela Raízen, e Ipiranga, do grupo Ultrapar. Quanto maior o peso da confiança e da procedência do combustível na decisão do consumidor, mais valiosa se torna uma marca reconhecida nacionalmente.
Para a Vibra, portanto, a marca continua sendo um ativo comercial importante. A companhia encerrou setembro com 7.686 postos em sua rede e incorporou 595 novos estabelecimentos nos primeiros nove meses do ano. No relatório do terceiro trimestre, destaca expressamente a “força de marca” entre os fatores que atraem revendedores, ao lado da segurança do abastecimento e da qualidade dos combustíveis.
Não é difícil entender a preocupação. Trocar uma marca conhecida em todo o país não significa apenas substituir fachadas, bombas e uniformes. É preciso preservar a confiança dos consumidores, convencer os revendedores a permanecer na rede e evitar que a transição abra espaço para os concorrentes.
Uma separação que pode levar anos
A divergência já chegou à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Em outubro, a Vibra esclareceu que as duas empresas discordam sobre o prazo para apresentar um plano de retirada das marcas Petrobras de sua rede.
A estatal entende que a decisão de não renovar o contrato desencadeou um prazo de 180 dias para a apresentação desse plano. A Vibra discorda. Para a distribuidora, a obrigação só se aplica a determinadas hipóteses de rescisão ou encerramento contratual, e não à comunicação antecipada de desinteresse na renovação.
A diferença está longe de ser trivial. Pousada já afirmou que a Vibra considera a possibilidade de realizar a transição ao longo de seis anos depois do vencimento do contrato, conforme os compromissos assumidos com os revendedores. Nesse cenário, a marca BR poderia continuar aparecendo em postos até 2035. Essa, porém, é a interpretação da Vibra – não um cronograma acertado com a Petrobras.
Há também uma questão financeira. Segundo registro publicado pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), a remuneração contratual declarada pelo uso das marcas equivale a 0,03% da receita operacional líquida total da Vibra.
Considerando a receita contábil consolidada de R$ 162,1 bilhões nos primeiros nove meses de 2026, esse percentual representaria aproximadamente R$ 48,6 milhões. Trata-se de um cálculo de referência, e não de um valor efetivamente pago confirmado pela distribuidora. Ainda assim, oferece uma ideia da dimensão econômica do licenciamento.
O custo de perder a marca é uma conta bem mais complicada. A Vibra não divulgou quanto precisaria investir para mudar a identidade visual de sua rede nem estimou os possíveis efeitos sobre as vendas. O problema envolve também a disposição dos revendedores de permanecer sob uma nova bandeira.
Até agora, a estratégia da Vibra parece ser ganhar tempo e insistir na renovação. A Petrobras, por sua vez, tem seus próprios planos para a distribuição de combustíveis e não sinalizou disposição de manter o acordo nas condições existentes.
Lucro da Vibra cresce mais de 500% no trimestre
A disputa pela marca ocorre em um momento de forte recuperação dos resultados da Vibra. A companhia encerrou o terceiro trimestre de 2026 com lucro líquido de R$ 2,46 bilhões, um salto de 504% em relação aos R$ 407 milhões registrados no mesmo período do ano passado. O lucro líquido ajustado alcançou R$ 2,43 bilhões, alta de 345%.
O Ebitda ajustado atingiu R$ 4,29 bilhões, crescimento de 137% na comparação anual, enquanto a receita líquida ajustada avançou 17%, para R$ 56,9 bilhões. O volume total comercializado cresceu 4%, chegando a 9,61 milhões de metros cúbicos.
A melhora da rentabilidade foi favorecida pelo ambiente de preços e abastecimento e pelos avanços no combate às irregularidades no setor. Mesmo excluindo itens não recorrentes, o Ebitda ajustado recorrente cresceu 148%, para R$ 3,66 bilhões.
A companhia também acelerou a redução de seu endividamento. A dívida líquida recuou R$ 1,7 bilhão em relação ao trimestre anterior, para R$ 14,4 bilhões, levando a alavancagem a 1,0 vez o Ebitda, ante 2,7 vezes um ano antes. O retorno sobre o capital investido (ROIC) do negócio de distribuição chegou a 32,8%.
A Vibra anunciou ainda R$ 499 milhões em juros sobre capital próprio no trimestre, elevando para aproximadamente R$ 1,5 bilhão os proventos anunciados ao longo de 2026. Os números reforçam a capacidade financeira da distribuidora justamente no momento em que ela se prepara para negociar o futuro de um de seus principais ativos comerciais: a marca BR.













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