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A bolha da Inteligência Artificial estourou? Quando saberemos?

A queda de US$ 3,2 trilhões em Wall Street coloca à prova o maior ciclo de investimentos em tecnologia das últimas décadas.

A bolha da inteligência artificial estourou? A pergunta deixou de ser uma provocação de investidores pessimistas para se tornar uma preocupação central de Wall Street. Nesta quinta-feira, dia 5, as bolsas americanas perderam US$ 3,2 trilhões em valor de mercado, segundo o Financial Times. O Nasdaq 100 despencou 6,4%, a Nvidia perdeu mais de US$ 400 bilhões e o índice de semicondutores da Filadélfia recuou 12,3%. No momento em que esta coluna é escrita, as bolsas asiáticas abriam o pregão de sexta-feira em forte queda, com negociações temporariamente interrompidas na Coreia do Sul. O que começou como uma liquidação de ações de tecnologia ameaça transformar-se em uma crise financeira mais abrangente.

Uma queda dessa magnitude não significa, necessariamente, que uma bolha tenha estourado. Os mercados têm correções violentas, muitas vezes seguidas de recuperações igualmente rápidas. O que faz a diferença é a quebra de confiança dos investidores nas premissas que sustentavam os preços anteriores. No caso da inteligência artificial, a questão é saber se os investimentos trilionários em semicondutores, servidores e data centers produzirão receitas e lucros suficientes para remunerar o capital empregado. A vitória dos democratas nas eleições americanas, acompanhada da perspectiva de restrições à construção de data centers, acelerou o movimento. Mas as ações do setor já vinham perdendo força antes mesmo da eleição que derrubou o partido de Trump no comando do Congresso.

Os sinais mais preocupantes começam a aparecer fora das bolsas. Os contratos de proteção contra inadimplência da CoreWeave, fornecedora de infraestrutura computacional, atingiram níveis recordes, indicando dúvidas crescentes sobre a sustentabilidade de seu endividamento. Ao mesmo tempo, grandes investidores questionam a avaliação de US$ 1,5 trilhão pretendida pela Anthropic em sua abertura de capital, prevista ainda neste mês. Segundo o The Wall Street Journal, alguns consideram mais plausível um valor próximo de US$ 1 trilhão. A OpenAI também enfrenta um ambiente menos favorável: sua última rodada de financiamento havia captado US$ 11 bilhões, diante de uma meta inicial de US$ 30 bilhões.

O teste decisivo virá das gigantes de tecnologia. Microsoft, Alphabet, Amazon e Meta sustentam uma parcela extraordinária da demanda por chips, servidores, energia e construção de data centers. Seus investimentos alimentam os lucros dos fornecedores, que por sua vez justificam avaliações elevadas na bolsa. Se essas companhias começarem a adiar projetos ou reduzir seus orçamentos para 2027, o círculo virtuoso poderá se inverter. Menos investimentos significariam menos encomendas, menores expectativas de lucro e novas quedas nas ações. A desaceleração também poderia atingir setores industriais, empresas de energia e construção civil. Nesse cenário, o estouro da bolha deixaria de ser um problema restrito aos investidores de tecnologia.

Quando saberemos se a bolha realmente estourou? As próximas sessões indicarão se a onda de vendas se transformará em uma fuga generalizada dos ativos de risco. As próximas semanas, especialmente com as decisões sobre o IPO da Anthropic e as condições de financiamento das empresas mais endividadas, revelarão a profundidade da perda de confiança. Mas os sinais mais conclusivos provavelmente virão nos próximos três meses, quando as grandes companhias apresentarem seus resultados e atualizarem os investimentos previstos para 2027.

Durante a bolha da internet, no início dos anos 2000, sucessivas recuperações alimentaram a expectativa de que o pior havia passado, enquanto as avaliações continuavam a desmoronar. A turbulência desta semana já reúne elementos que vão além de uma realização convencional de lucros: perdas históricas, contágio internacional, pressão sobre o crédito e dúvidas sobre o financiamento das empresas.

Pode ser cedo para declarar o fim do ciclo de valorização da inteligência artificial. Mas a história mostra que o estouro de uma bolha raramente é reconhecido no momento em que acontece. Em geral, quando o mercado finalmente percebe, os prejuízos já se acumularam.


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