Por Rodrigo Uchoa, especial para Brazil Stock Guide
Na semana passada, dia 2 de novembro, enquanto os cemitérios brasileiros recebiam a romaria de Finados (fila no portão, vendedor de crisântemo na calçada, família lavando lápide com balde e escova), o “New York Times” publicou uma reportagem de Maggie Hennessy com uma pergunta quase ingênua: bares e restaurantes podem virar as novas casas funerárias?
O caso que abre o texto é o de Ed Elkins, morto aos 86 anos, em janeiro, depois de mais de uma década de Alzheimer. Muito antes da doença, ele dissera à mulher, Angela, que queria uma festa no Perry’s, o restaurante japonês em Washington onde o casal era freguês de balcão. Ela chegou a ligar para funerárias, desistiu e foi conversar com o gerente. A despedida aconteceu em maio, no happy hour. A descrição tem uma coisa tocante, de celebração da vida daquele que partiu, feita num lugar que era especial para ele e para a sua família.

Para o leitor americano, é uma tendência. Para quem cresceu no Brasil, há uma memória familiar, de tradição afro-brasileira: o gurufim. A palavra, provavelmente de origem do quimbundo, como tantas outras usadas no cotidiano brasileiro, ganhou destaque em horário nobre em agosto do ano passado, quando a família de Arlindo Cruz velou o compositor com música, cerveja e churrasco, como ele havia pedido. Basta rolar o feed de notícias para achar versões parecidas pelo Brasil afora.
Não que essa tradição não exista nos EUA também. Os funerais com música são atração turística e jazzística em Nova Orleans há muito tempo. A mudança mais profunda é outra. Agora, a festa no restaurante se tornou um sintoma de um mercado que já mudou de forma.
Segundo dados da National Funeral Directors Association citados pelo “NYTimes”, a cremação passou de 60% das destinações em 2025 e deve chegar a 80% até 2045. Sem corpo para velar nem jazigo para comprar, o ritual se descola da funerária e vai para onde a família quiser: praia, parque, salão de hotel, bar. Na pesquisa anual da associação, feita com americanos acima de 40 anos, 58% disseram ter ido, em 2025, a uma cerimônia em local não tradicional.

O Brasil está longe disso. A cremação responde por de 8% a 9% dos óbitos, segundo o Sincep, sindicato dos cemitérios e crematórios particulares. Mas o setor já é grande: cerca de R$ 13 bilhões por ano, de acordo com levantamento da Zurik Advisors encomendado pela entidade. E é pulverizado, majoritariamente familiar, que é justamente o perfil que atrai fundos.
Atraiu. O caso mais visível é o do Grupo Zelo, nascido em Belo Horizonte da fusão de quatro funerárias, em 2017. Depois que a gestora Crescera aportou cerca de R$ 370 milhões, o grupo iniciou uma agressiva expansão por aquisições. Hoje afirma atender mais de 4 milhões de pessoas em 14 estados, com faturamento de R$ 540 milhões em 2023. O gaúcho Cortel fez outro caminho, a partir dos cemitérios, e tem quase 20% do capital nas mãos de um fundo imobiliário listado na B3, o CARE11. Nos EUA, a referência é a Service Corporation International, negociada em bolsa há décadas.
O ativo que interessa a esses investidores não é o velório, e sim o plano funerário, com mensalidade baixa, contrato longo e receita recorrente e previsível. A virada veio com a Lei 13.261, de 2016, que regulou a venda desses planos e deu segurança jurídica ao modelo. Segundo o CEO do Zelo, as contratações cresceram mais de 15% entre 2023 e 2024.
O exemplo polêmico nessa seara vem de São Paulo. Em 2023, a Prefeitura da capital paulista concedeu 22 cemitérios públicos e um crematório a quatro empresas privadas, em contratos de 25 anos. Segundo o Sindsep, sindicato dos servidores municipais, o pacote funerário mais barato saltou de R$ 428,04 para R$ 1.494,14. A prefeitura sustenta que a concessão modernizou os cemitérios e preservou o acesso das famílias mais pobres.
Em novembro de 2024, o ministro Flávio Dino, do STF, mandou em liminar que os preços voltassem ao patamar anterior à concessão, corrigidos pelo IPCA, numa ação movida pelo PCdoB. Em maio de 2025, quando o plenário analisava a decisão, Luiz Fux pediu vista para julgar o caso junto com outra ação sobre o tema, de sua relatoria. O teto continua valendo. O mérito, ou seja, se a concessão é constitucional, segue sem data.
O caso expõe o dilema central do setor: a família enlutada é o consumidor menos capaz de pesquisar preço, negociar ou desistir da compra. Ninguém pede três orçamentos com o corpo à espera da liberação. Por isso o plano funerário é, ao mesmo tempo, proteção para o consumidor e ouro para quem vende, pois ele desloca a compra para um momento em que ainda dá para pensar.

Esse tempo para pensar nos leva de volta à festa no Perry’s. Achei a descrição da cerimônia reconfortante exatamente porque Angela Elkins pôde escolher, sem pressa, onde e com quem se despedir.
Meu pai morreu no ano passado. Assim, meio de supetão, fechamos um pacote com pequena cerimônia e posterior cremação. A cerimônia era uma gravação, com texto anódino saindo retumbante das caixas de som de alta fidelidade, luzes dramáticas, uma projeção no enorme telão imersivo, lembrando a Sphere de Las Vegas, onde o U2 fez turnê. Ao fim, o caixão saiu automaticamente, sob uma chuva de pétalas. O que isso tinha a ver com a vida ou a personalidade dele? Ou com a nossa?
Para os meus filhos, já deixei avisado: na minha vez, quero um gurufim.













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