By Brazil Stock Guide – O Grupo Casas Bahia (B3: BHIA3) registrou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026, ante perda de R$ 555 milhões um ano antes, em um balanço no qual a Ernst & Young se absteve de emitir conclusão sobre as informações financeiras diante de uma incerteza relevante relacionada à continuidade operacional da varejista.
As demonstrações foram publicadas por volta das 2h da madrugada deste domingo, após a divulgação do resultado ter sido prevista inicialmente para sexta-feira, depois do fechamento do mercado.
O relatório da EY, datado de sábado, 15 de agosto, afirma que não foi possível realizar procedimentos de revisão suficientes para fundamentar uma conclusão sobre as informações financeiras da companhia.
Segundo o auditor, o prejuízo acumulado de R$ 11,2 bilhões no primeiro semestre, o capital circulante líquido negativo e o patrimônio líquido negativo em R$ 8,27 bilhões, entre outros fatores, indicam uma incerteza relevante capaz de levantar dúvida significativa sobre a capacidade de continuidade operacional da Casas Bahia.
A EY acrescentou que a companhia depende da implementação bem-sucedida de medidas operacionais e financeiras para sustentar suas necessidades de capital de giro e cumprir obrigações nos vencimentos contratados.
Diante dessas incertezas, o auditor disse que também não foi possível concluir sobre o uso da base contábil de continuidade operacional adotada nas demonstrações financeiras.
Captação internacional não se concretiza
As notas explicativas mostram que parte da deterioração da liquidez ocorreu após uma operação de captação internacional, considerada de “extrema relevância” para o planejamento financeiro da companhia no segundo trimestre, não ter sido concluída.
A operação estava em estágio avançado, com processos de due diligence e negociação da documentação jurídica já concluídos, mas o investidor-âncora desistiu das negociações, segundo a empresa.
A Casas Bahia não identifica nas demonstrações financeiras quem era esse investidor-âncora, nem informa o valor exato que pretendia levantar. O relatório da administração afirma apenas que havia um investidor-âncora confirmado e bookbuilding estruturado antes de a operação fracassar. Nas notas explicativas, a companhia confirma posteriormente a desistência do investidor com quem vinha negociando, novamente sem revelar sua identidade.
Outras alternativas de liquidez, incluindo novos recursos por meio de empréstimos-ponte, também não se viabilizaram dentro do cronograma e das condições inicialmente considerados. A companhia afirmou ainda que possui R$ 6,3 bilhões em créditos fiscais federais e estaduais, mas enfrenta dificuldades para monetizá-los e utilizá-los, limitando o acesso imediato aos recursos.
A combinação entre a captação frustrada, menor disponibilidade de crédito comercial e financeiro e o custo elevado de financiamento reduziu a capacidade de compra da varejista. Os estoques consolidados caíram de R$ 5,4 bilhões em março para R$ 4,24 bilhões em junho, uma redução de R$ 1,16 bilhão no trimestre. Os dias de estoque recuaram de 95 para 75 dias.
A Casas Bahia disse que a redução refletiu tanto medidas de disciplina de capital de giro quanto restrições de crédito e compras, que afetaram a disponibilidade de mercadorias em determinadas categorias, lojas e canais.
Empresa cita possível recuperação judicial
Nas notas explicativas, a administração afirma que continua negociando com fornecedores, instituições financeiras e credores e avaliando alternativas para reforçar a liquidez e reorganizar sua estrutura de capital. Entre as medidas que podem ser potencialmente implementadas, a companhia menciona uma nova recuperação extrajudicial ou uma recuperação judicial.
A Casas Bahia ressalta, porém, que não há garantia de que essas medidas serão adotadas ou de que as iniciativas atualmente em execução produzirão os resultados esperados nos prazos e montantes considerados pela administração.
As demonstrações foram preparadas sob o pressuposto da continuidade operacional e não refletem os efeitos de um eventual processo formal de reestruturação de dívidas e obrigações.
Prejuízo ajustado também aumenta
Grande parte do prejuízo de R$ 10,1 bilhões decorreu de efeitos contábeis não recorrentes ligados à revisão das projeções da companhia. Entre eles estão R$ 5,7 bilhões de baixa de ativos fiscais diferidos, cerca de R$ 970 milhões em impairment de ágio, R$ 1,8 bilhão em provisões relacionadas a revisões contratuais e despesas relacionadas à reorganização de pessoal e fechamento de lojas.
Mesmo excluindo esses efeitos, o prejuízo líquido ajustado aumentou para R$ 978 milhões, ante R$ 555 milhões no segundo trimestre de 2025.
A receita líquida cresceu 1,6% no período, para cerca de R$ 7 bilhões, enquanto o EBITDA ajustado caiu 9,4%, para R$ 518 milhões. A margem EBITDA ajustada recuou para 7,4%, de 8,3% um ano antes. A margem bruta, por outro lado, subiu 2,8 pontos percentuais, para 32,9%.
298 lojas fechadas
A companhia acelerou uma segunda fase de seu plano de transformação e concluiu o fechamento de 298 lojas, em uma estratégia que passa a privilegiar geração de caixa, rentabilidade e retorno sobre capital em vez de volume.
A Casas Bahia afirmou que o ambiente de crédito mais restritivo, a captação internacional não concretizada e o consumo mais fraco tornaram necessário operar em uma escala menor. Além do fechamento de lojas, a estratégia inclui redução estrutural de custos e investimentos, revisão dos níveis de estoque, redução do capital empregado e maior seletividade nos canais digitais. Mas a crise da Casas Bahia parece longe do fim.













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