By Brazil Stock Guide — Os efeitos do El Niño de 2026 começaram a se tornar mais concretos sobre a economia brasileira, com agravamento acelerado da seca na Amazônia, restrições à navegação e à logística em centenas de localidades e riscos maiores para a implantação da safra de grãos, ao mesmo tempo em que o excesso de chuva provoca inundações no Sul do país.
O quadro marca uma mudança em relação ao boletim anterior do Painel El Niño 2026-2027. Em agosto, os órgãos federais ainda descreviam boa parte dos impactos como riscos para os meses seguintes. O quarto boletim, referente a setembro, já registra deterioração efetiva das condições hidrológicas em partes do Norte e Nordeste, problemas operacionais de transporte e cheias em bacias do Sul.
Um dos sinais mais claros da deterioração aparece no Norte. Roraima, Acre e Amazonas registraram agravamento de até duas categorias de severidade em apenas um mês, e já há relatos de municípios com dificuldades de captação de água e comprometimento da navegação. No Nordeste, 16% da região está sob seca grave, a categoria S2 do Monitor de Secas.
A deterioração ocorre enquanto o El Niño continua ganhando força. O novo boletim atribui probabilidade superior a 95% à ocorrência de um evento classificado como muito forte entre outubro e dezembro. O documento também afirma que há possibilidade de o episódio 2026/27 tornar-se o mais intenso desde 1950, com anomalias de temperatura do Pacífico podendo superar 2,5°C.
Logística passa a entrar no radar
Uma das principais novidades do quarto boletim é a inclusão de um levantamento específico das restrições logísticas associadas às condições hidrológicas na Amazônia e no Pantanal.
O governo identificou 564 localidades classificadas com prioridade logística alta ou muito alta, reunindo potencialmente cerca de 904 mil pessoas. Desse total, 478 apresentam condições logísticas consideradas difíceis ou críticas e 517 estão sujeitas a algum grau de restrição hidrológica.
Roraima concentra 264 dessas localidades, ou quase 47% do total. Três aparecem na categoria máxima de prioridade e combinam restrição hidrológica severa, forte anomalia e dependência do transporte fluvial.
As rotas dessas comunidades até o município de apoio de Amajari chegam a aproximadamente 650 quilômetros, com tempo estimado de quase 49 horas. Entre 401 rotas analisadas pelo governo, 165 exigem mais de 24 horas de deslocamento, envolvendo cerca de 23 mil pessoas.
O quadro acrescenta uma dimensão econômica ao fenômeno, especialmente em áreas onde os rios funcionam como a principal infraestrutura de transporte de pessoas, alimentos, combustível e outros produtos.
Plantio da soja fica mais vulnerável
Na agricultura, a preocupação também se tornou mais específica à medida que o plantio da safra 2026/27 avança.
O boletim alerta para a possibilidade de falhas de germinação, redução do estande das lavouras e necessidade de replantio da soja semeada precocemente em áreas do centro-norte do país, diante da combinação de chuvas abaixo da média e temperaturas elevadas.
No centro-norte de Mato Grosso, norte de Goiás e Distrito Federal, a redução da umidade do solo pode comprometer o estabelecimento inicial de soja, milho e feijão. A situação deve começar a melhorar a partir de novembro, caso se confirme a recuperação prevista das chuvas.
No MATOPIBA, uma das principais fronteiras agrícolas do país, o governo aponta risco de falhas no estabelecimento da soja, enquanto temperaturas mais elevadas devem aumentar a demanda por irrigação.
O café também está entre as culturas expostas. Chuvas acima da média em São Paulo e no centro-sul de Minas Gerais podem favorecer o pegamento dos frutos, mas a persistência do calor e da restrição hídrica em outras áreas mineiras e no norte do Espírito Santo pode prejudicar a florada do arábica e o desenvolvimento do conilon.
No Sul, risco virou cheia
A evolução no Sul ocorreu na direção oposta. Em setembro, o rio Uruguai ultrapassou cotas de alerta e atenção em vários pontos, enquanto as bacias dos rios Caí e Taquari registraram episódios de inundação. O Taquari transbordou em municípios como Muçum, Encantado, Estrela e Lajeado, e o nível do Guaíba chegou próximo à cota de atenção em Porto Alegre.
O Serviço Geológico do Brasil informa ter emitido mais de 170 boletins de alerta hidrológico em 2026 para seus sistemas na Região Sul.
Para a agricultura, a elevada disponibilidade de água tende a beneficiar o milho de primeira safra, mas aumenta o risco de doenças fúngicas no trigo, pode atrasar a colheita e reduzir a qualidade dos grãos no Paraná. O excesso de umidade também pode dificultar a semeadura da soja e, por consequência, apertar a janela para o milho de segunda safra.
Reservatórios ainda oferecem proteção
Apesar do agravamento de alguns indicadores, o quadro não aponta neste momento para uma crise de geração de energia.
Os reservatórios do Sistema Interligado Nacional estavam em 65,9% do volume útil em 23 de setembro, o segundo maior nível para a data desde 2015. Todos os sistemas com faixas operativas estabelecidas pela ANA permanecem em condição normal.
Em São Paulo, porém, o Sistema Cantareira merece atenção. O principal manancial da região metropolitana estava em 41,3% do volume útil em 25 de setembro e passa a operar em outubro na chamada Faixa de Atenção.
Fogo acelera
Os incêndios mostram um quadro mais misto. O número de eventos de fogo permaneceu abaixo das médias recentes em julho e agosto, mas a atividade aumentou 146% de julho para agosto e outros 66% em setembro em relação a agosto, com sinais de antecipação da temporada de fogo no Amapá.
Para o trimestre entre outubro e dezembro, o Cemaden classifica 395 municípios em Alerta Alto e outros 533 em Alerta para risco de fogo. As áreas de maior preocupação permanecem concentradas sobretudo no centro-norte do país.
O quarto boletim, portanto, mostra uma mudança de estágio no acompanhamento do El Niño. O fenômeno e sua intensidade já eram conhecidos. A novidade de setembro é que parte dos riscos começa a aparecer nos dados observados — na seca, na navegação, na logística, nas enchentes e no início da safra 2026/27.













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