Por Rodrigo Uchoa, especial para Brazil Stock Guide
Em algum momento de sua viagem pelos Estados Unidos, na década de 1830, Alexis de Tocqueville registrou uma impressão que surpreenderia muitos europeus de sua época: os americanos não apenas viviam em uma sociedade relativamente igualitária, mas pareciam notavelmente bem apresentados. Não havia nem a ostentação aristocrática que ele conhecia na França nem o desleixo que muitos observadores do Velho Mundo esperavam encontrar numa república jovem. Havia uma espécie de elegância democrática, feita menos de títulos e mais de hábitos.
Boa parte daquela elegância poderia estar nos cabides da Brooks Brothers. Quando Tocqueville desembarcou nos EUA, a empresa fundada por Henry Sands Brooks já existia havia mais de uma década. Duzentos anos depois, ela é uma exceção num mundo onde marcas desaparecem com a mesma velocidade com que as tendências surgem.

(reprodução redes des sociais)
Isso chama a atenção no retorno da Brooks Brothers ao calendário oficial da New York Fashion Week. Em 10 de setembro, a marca apresentou sua coleção Primavera/Verão 2027 no Radio Park, um jardim suspenso escondido sobre o Rockefeller Center. Foi sua primeira participação oficial desde 2018 e, também, a estreia do diretor criativo Michael Bastian em uma apresentação da marca na semana de moda nova-iorquina.
O Radio Park é um lugar que está à vista de milhões de pessoas e, ao mesmo tempo, permanece desconhecido para a maioria delas. A Brooks Brothers também está escondida em plena vista. Muita gente nunca entrou numa de suas lojas, mas já usou uma camisa de colarinho button-down ou vestiu alguma versão de fórmulas que a marca ajudou a popularizar. Ainda assim, poucas empresas exercem tanta influência e aparecem tão pouco nas conversas contemporâneas sobre moda.
Michael Bastian foi direto: “It’s time we got back in the conversation”. Está na hora de voltarmos à conversa.
A sua coleção foi construída quase inteiramente a partir do próprio arquivo da empresa. Estavam lá a button-down collar shirt, criada pela marca em 1900; os sack suits; os tecidos seersucker; os madras coloridos; os bordados irreverentes que ajudaram a definir décadas de estilo preppy americano. Tudo foi reorganizado sob uma paleta inspirada em Mônaco no início dos anos 1980, quando o guarda-roupa da Riviera encontrou a confiança colorida da era Reagan.

A Brooks está tentando usar a nostalgia para lembrar ao público que ela própria ajudou a inventar muito do que vestimos hoje. Antes de ser uma grife histórica, ela foi uma empresa extraordinariamente inovadora. Hoje, o ready-to-wear é um conceito banal, mas, no século XIX, era revolucionário, quando boa parte da população ainda dependia de alfaiates ou costureiras.
E a onda histórica ajudou. Veio a expansão territorial americana, a corrida do ouro na Califórnia e a rápida urbanização do Nordeste do país. Por fim, esse ciclo criou uma classe média que se tornou o cliente que a Brooks sabia atender: homens que queriam parecer respeitáveis sem ter de esperar semanas por um alfaiate.

Mais tarde, a empresa forneceria uniformes ao Exército (uma história polêmica, pois foi acusada de usar lã de baixa qualidade), vestiria presidentes e se tornaria uma presença permanente na iconografia política americana, tanto entre republicanos quanto entre democratas. Abraham Lincoln usava Brooks Brothers; John Kennedy ajudaria a transformar o visual Ivy League em linguagem nacional.

Há alguns marcos históricos que merecem nota. Em 1896, John Brooks observou jogadores de polo ingleses prendendo as pontas do colarinho para que não voassem durante as partidas. Em 1900, nasceu oficialmente a camisa de colarinho button-down da Brooks Brothers, hoje uma das peças mais copiadas da história do vestuário masculino.
Ao longo do século XX, a camisa button-down se transformou numa das peças centrais da estética Ivy League, depois do chamado preppy style e, finalmente, do guarda-roupa corporativo.
Milhares de marcas a reproduziram e boa parte delas acabou recebendo mais crédito cultural do que sua criadora. O caso mais famoso sem dúvida é o de Ralph Lauren, que começou a carreira vendendo gravatas para a Brooks Brothers. Décadas depois, sua própria marca se tornaria, para o público global, a principal referência visual do universo WASP, Ivy League e East Coast. A Brooks passou anos parecendo uma versão menos inspirada da Ralph Lauren, quando o legado histórico aponta justamente na direção oposta.

Em julho de 2020, a empresa entrou com pedido de recuperação judicial. A pandemia acelerou a crise e aprofundou um desgaste latente. O declínio do traje formal no ambiente corporativo, a ascensão do athleisure e anos de posicionamento pouco claro haviam corroído a relevância da marca. Em seguida, ela foi adquirida por uma parceria entre a Authentic Brands Group e a Simon Property Group por US$ 325 milhões. Desde então, passou por uma reestruturação ampla e hoje faz parte do grupo Catalyst Brands, que reúne JCPenney e Eddie Bauer, entre outros.
Hoje, a geração que transformou o blazer azul-marinho em uniforme de sucesso profissional está se aposentando e os jovens executivos aparecem em reuniões usando tênis minimalistas, moletons italianos e camisas que não precisam de ferro de passar.
Nesse contexto, o retorno à Fashion Week parece mais uma declaração de intenção. Michael Bastian não apresenta a Brooks Brothers como disruptiva e reforça o valor das peças que a marca inventou.
A proposta da Brooks Brothers é encontrar um equilíbrio entre o novo e a tradição. Retornou à conversa, pelo menos.
Nota de rodapé: Para quem se interessa sobre como a moda molda o comportamento e a história, uma grande dica é o podcast “Articles of Interest”. Procure na lista uma série de sete capítulos sobre American Ivy. Imperdível. Segue o link do primeiro capítulo: https://open.spotify.com/episode/5qRZfBYlAcB3MzUvIoTb9y












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