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O crime organizado brasileiro não tem um CEO

Combater facções criminosas exige atacar fluxos financeiros, logística e conexões institucionais.

A provocação partiu de Blairo Maggi, empresário, um dos nomes mais conhecidos do agronegócio brasileiro, ex-ministro da Agricultura e ex-governador de Mato Grosso. Questionado sobre crime organizado durante um evento do Bradesco na semana passada, em São Paulo, Maggi respondeu de uma maneira que à primeira vista soa quase absurda: para ele, “crime organizado”, no sentido convencional da expressão, não existe. Não há um presidente, um chefão ou um comando único capaz de dirigir toda a engrenagem.

Para explicar a provocação, Maggi citou Marcola, Marcos Willians Herbas Camacho, apontado pelas autoridades como principal liderança do Primeiro Comando da Capital, o PCC. Preso desde 1999 e mantido há anos no sistema penitenciário federal de segurança máxima, Marcola é frequentemente descrito como o chefe da maior facção criminosa do país. Maggi questionou a própria ideia de que alguém submetido a isolamento rigoroso, com comunicação fortemente limitada, possa administrar diariamente uma organização espalhada por vários Estados. “Como é que pode comandar alguma coisa?”, perguntou, comparando o problema à dificuldade de administrar até mesmo uma empresa sem estar permanentemente corrigindo, cobrando e tomando decisões.

A frase é deliberadamente provocativa, mas contém uma questão importante. O Brasil ainda tende a imaginar grandes organizações criminosas como se fossem empresas: existe uma hierarquia, um organograma e, no topo, um chefe. A consequência natural desse raciocínio é uma estratégia de decapitação — identificar o comandante, prendê-lo e esperar que a organização enfraqueça. Prender lideranças importa. Imaginar que isso desmonta a infraestrutura que as sustenta é outra coisa. A própria permanência e expansão de organizações como o PCC, mesmo depois de décadas de encarceramento de suas figuras mais conhecidas, sugere que o sistema é capaz de sobreviver à remoção de alguns de seus principais nós.

O crime contemporâneo parece cada vez menos uma corporação e mais uma rede. Há milhares de células, grupos e interesses que cooperam, competem, roubam uns dos outros e se reorganizam continuamente. Ele depende de operadores financeiros, transportadores, intermediários, empresas de fachada, acesso a armas, lavagem de dinheiro, corrupção, informações privilegiadas e conexões com partes da economia legal. Alguns nós da rede podem desaparecer sem que o sistema desapareça com eles. Outros ocupam rapidamente o espaço. A vantagem competitiva de uma rede criminosa está justamente em sua capacidade de adaptação: ela não precisa necessariamente de um centro para continuar funcionando.

Essa distinção ajuda também a entender por que o problema deixou há muito tempo de ser apenas policial. Quando perguntado até onde grupos criminosos poderiam ter penetrado nas instituições brasileiras, Maggi argumentou que pessoas envolvidas com atividades ilegais podem chegar à política, às empresas e a diferentes estruturas do Estado sem carregar uma placa identificando a organização à qual estão ligadas. A questão, portanto, não é saber se existe uma espécie de diretoria nacional do crime, mas identificar os pontos em que dinheiro ilegal, interesses privados e poder público começam a se misturar.

Para a economia, isso tem consequências concretas. Empresas gastam mais com segurança, rastreamento, seguro, proteção de cargas e controles internos. Investidores exigem prêmios maiores em ambientes menos previsíveis. Governos desviam recursos para enfrentar estruturas que se recompõem depois de cada operação. O crime passa a funcionar como um imposto informal sobre quem produz, transporta e investe. A provocação de Maggi desloca, assim, a pergunta central: talvez o desafio brasileiro não seja descobrir quem é o CEO do crime organizado, mas reconhecer que o crime já funciona como uma rede — e que combatê-lo exige atacar seus fluxos financeiros, sua logística, seus negócios legais, seus intermediários e suas conexões institucionais, não apenas o topo de um organograma que talvez já não exista.


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