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Tomazoni, da JBS, diz que “não existe outra China” e vê novo ciclo para o agro brasileiro

CEO afirma que demografia e avanço dos medicamentos GLP-1 vão alterar padrões de consumo e diz que Brasil terá de agregar mais valor à produção agrícola.

Brazil Stock Guide — Gilberto Tomazoni, CEO global da JBS, disse que o agronegócio brasileiro entrará em um ciclo de crescimento diferente daquele observado nos últimos 25 anos, à medida que mudanças demográficas, novos padrões de consumo e o avanço dos medicamentos GLP-1 alteram a demanda global por alimentos.

Para o executivo, o Brasil não poderá contar com a repetição de um choque de demanda semelhante ao provocado pela China nas últimas décadas e terá de aumentar a agregação de valor à produção agrícola dentro do próprio país. “Não existe outra China”, disse Tomazoni, ao discutir as perspectivas do setor para os próximos anos no Agro Summit, evento promovido pelo Bradesco BBI.

A ascensão chinesa foi um dos principais motores da expansão do agronegócio brasileiro, combinando urbanização, aumento de renda e uma rápida mudança na dieta de centenas de milhões de consumidores, que passaram a consumir mais proteína animal.

Segundo Tomazoni, um fenômeno dessa magnitude dificilmente se repetirá. A mudança significa que o crescimento futuro deverá depender menos simplesmente da expansão das exportações de commodities agrícolas e cada vez mais da transformação de grãos em produtos de maior valor agregado.

O executivo citou milho, frango e ovos entre as cadeias que podem ganhar espaço nesse novo cenário.

A avaliação ocorre em um momento em que a própria JBS vem ampliando a exposição a alimentos mais processados, produtos de marca e proteínas de maior valor agregado, em uma estratégia destinada também a reduzir a dependência dos ciclos das commodities.

GLP-1 entra na equação

Tomazoni, que estava de óculos escuros após uma recente cirurgia, também colocou o avanço dos medicamentos GLP-1 — classe que inclui tratamentos usados para diabetes e obesidade — entre os fatores capazes de alterar a dinâmica mundial de consumo de alimentos.

Segundo ele, a combinação entre mudança demográfica e uso crescente desses medicamentos deverá afetar a demanda e tornar o cenário para os próximos cinco, dez ou vinte anos diferente daquele que sustentou a expansão do agro brasileiro nas últimas décadas.

A questão ganhou importância para empresas globais de alimentos diante da rápida disseminação de medicamentos que reduzem o apetite e podem modificar tanto o volume quanto a composição da alimentação dos consumidores.

Para grandes produtores de proteína, porém, a mudança não significa necessariamente uma redução linear da demanda. Ela pode aumentar a importância de produtos com maior densidade nutricional, maior teor de proteína e maior valor agregado, ao mesmo tempo em que altera a quantidade de calorias consumidas.

A JBS já vem apontando a nutrição funcional e alimentos de maior valor nutricional como uma das frentes de desenvolvimento do setor.

Mais valor dentro do Brasil

A leitura de Tomazoni aponta para uma transformação mais ampla da vantagem competitiva brasileira.

Durante grande parte do superciclo agrícola, o crescimento da produção de soja esteve ligado à forte expansão da demanda chinesa por ração animal. O grão produzido no Brasil era exportado e utilizado para alimentar animais criados em outros mercados.

No novo ciclo descrito pelo executivo, uma parcela maior dessa produção poderá ser transformada dentro do Brasil em proteína animal, biocombustíveis e outros produtos antes de chegar ao consumidor final.

Isso aumentaria o valor gerado por tonelada de grão produzida no país e reduziria parcialmente a dependência de um único grande vetor externo de expansão.

“Vamos ter que buscar cada vez mais agregar valor aqui”, disse Tomazoni. Para o CEO da JBS, essa transformação deverá começar a ficar mais evidente já nos próximos anos.

O executivo afirmou esperar que, dentro de cinco anos, esse processo já esteja em andamento e previu uma aceleração das mudanças a partir dos próximos dois anos.

Tomazoni permanecerá como CEO global da JBS até janeiro de 2027, quando Wesley Batista Filho assumirá o comando executivo da companhia. Ele passará então a atuar como vice-chairman do conselho de administração e senior advisor da empresa.


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