By Brazil Stock Guide – A China pode produzir quase toda a carne que consome. O problema é alimentar os animais.
É nessa equação que Blairo Maggi, ex-ministro da Agricultura e um dos empresários mais conhecidos do agronegócio brasileiro, vê um dos principais limites à busca chinesa por autossuficiência alimentar e uma vantagem difícil de substituir para o Brasil.
No Agro Summit, evento promovido pelo Bradesco BBI nesta quinta-feira, e que reúne empresários, executivos, investidores e outras lideranças ligadas ao agronegócio, Blairo deixou claro que a China pode reduzir as importações de carne suína e de aves, já que sua produção doméstica atende grande parte da demanda. Mas, para produzir mais proteína animal dentro do país, continuará precisando de grandes volumes de proteína vegetal, especialmente soja.
“Para fazer a proteína animal, ele vai precisar da proteína vegetal. E aí que está onde o Brasil está pendurado nesse negócio”, disse Maggi no evento realizado em São Paulo.
A alternativa seria ampliar significativamente o plantio doméstico de soja, deslocando terras hoje destinadas a outros produtos. Para Maggi, essa conta é difícil de fechar quando a commodity está amplamente disponível no mercado internacional.
“Hoje eles têm condições de fazer isso? Não, não têm”, afirmou.
A busca chinesa por segurança alimentar, acrescentou, não deve ser vista apenas como uma decisão econômica. Para um país com a escala da China, comida é também uma questão de estabilidade. A lógica exposta por Maggi é direta: quando alimentos faltam, aumenta o risco de tensão e conflito. Por isso, Pequim continuará tentando reduzir vulnerabilidades mesmo quando importar for economicamente mais eficiente.
Maggi, no entanto, não vê a dependência chinesa como uma garantia permanente para o Brasil. Ele classificou a concentração brasileira na China como um “sinal amarelo” e disse que o país precisa continuar abrindo mercados — um processo que considera difícil tanto na conquista de novos compradores quanto na manutenção do acesso depois que ele é obtido.
É aí que sua análise muda de direção. Para Maggi, o maior risco ao agro brasileiro na próxima década talvez não esteja na capacidade de plantar mais, colher mais ou incorporar tecnologia. Está no que acontece fora da fazenda. “O presente acontece em fóruns que muitas vezes nós, agricultores, empresários, não frequentamos”, disse.
Segundo ele, novas exigências começam muitas vezes em discussões técnicas relativamente pequenas e, anos depois, aparecem como regras sanitárias, ambientais ou comerciais capazes de limitar exportações.
O Brasil, em sua avaliação, precisa estar presente antes que essas regras estejam prontas. “Nós vamos estar no jogo do futuro se nós atendermos às regras e exigências do futuro, quer sejam elas sanitárias, quer sejam elas ambientais e comerciais.”
A preocupação é particularmente relevante para alguém que observa a cadeia agrícola dos dois lados da porteira.
Maggi é acionista da Amaggi, uma das maiores companhias brasileiras do agronegócio e hoje a maior empresa de capital integralmente brasileiro na cadeia de soja, milho e algodão. O grupo atua na produção e comercialização de grãos, logística, exportação, energia, insumos, serviços financeiros e biodiesel, com presença comercial inclusive na China.
Essa integração ajuda a explicar por que sua leitura da competitividade vai além da produtividade agrícola.
Maggi lembra de um Brasil que, quando ele era criança, ainda recebia leite em pó americano por meio de programas de ajuda. Cerca de seis décadas depois, o país tornou-se uma das grandes potências exportadoras de alimentos.
A transformação, disse, veio da formação de pessoas, das escolas de agronomia, da tecnologia e de políticas que permitiram ao setor avançar. Mas ele fez uma ressalva. “O que nos garantiu chegar até aqui não é o que nos vai levar para frente.”
O dinheiro ficou mais caro
Um desses desafios está no crédito. Maggi estima que as linhas oficiais respondam hoje por apenas 20% a 30% da necessidade de financiamento do agro. O restante vem de bancos privados, tradings e instrumentos de mercado desenvolvidos nas últimas décadas.
Na visão dele, dinheiro existe. O problema é quanto custa. Além dos juros elevados, Maggi chamou atenção para o efeito das dificuldades financeiras e dos defaults de produtores e empresas sobre o custo de financiamento de todo o setor. E foi particularmente duro ao falar de casos em que empresários assumem dívidas elevadas, acumulam patrimônio e depois tentam transferir parte das perdas aos credores.
“O cidadão toma um dinheiro emprestado na praça, compra um apartamento em Balneário Camboriú, compra um avião […] dá problema e ele vai e quer dividir com todo mundo”, disse.
Para Maggi, esse comportamento termina embutido no preço do crédito para todos os demais produtores.
A segurança das garantias também entra na conta. Quanto menor a previsibilidade para recuperar o dinheiro emprestado, argumentou, maior tende a ser o prêmio exigido por quem financia o setor — especialmente investidores estrangeiros.
Da soja ao diesel
A mesma lógica de reduzir vulnerabilidades aparece quando Maggi fala de fertilizantes e energia. O Brasil tem reservas de potássio, disse ele, mas continua fortemente dependente de importações porque transformar essas reservas em projetos comerciais esbarra em dificuldades regulatórias, ambientais e indígenas.
Ele citou especificamente depósitos na região amazônica que poderiam atender o Centro-Oeste e se beneficiar da logística pelo rio Amazonas. O problema é antigo. “De fato, ficou muito mais fácil você importar do que você produzir”, afirmou.
Mas é nos biocombustíveis que Maggi enxerga uma oportunidade de atacar dois riscos ao mesmo tempo.
Quanto mais biodiesel e etanol o Brasil produzir, argumenta, menor será a dependência de combustíveis importados. Ao mesmo tempo, o país cria um mercado doméstico adicional para soja e milho — uma espécie de amortecedor caso a demanda externa, inclusive chinesa, cresça menos no futuro.
A estratégia já está presente na Amaggi. A companhia produz biodiesel a partir de óleo de soja e vem usando B100, biodiesel puro, em máquinas agrícolas, caminhões e embarcações. Em julho, concluiu ainda a aquisição de 40% da FS, uma das maiores produtoras brasileiras de etanol de milho, em uma operação que incluiu aporte de US$ 100 milhões.
Maggi disse que algumas operações da companhia já trabalham com 100% de biodiesel, mesmo com um custo que estimou em cerca de 3% a 4% superior ao diesel convencional. Para ele, há um valor adicional nessa conta. “É uma independência.”
O etanol de milho fecha outro ciclo. A transformação do cereal em combustível cria demanda para a produção agrícola e gera DDGS, coproduto utilizado na alimentação animal.
Assim, parte da resposta a uma eventual mudança no padrão de compras da China poderia estar dentro do próprio Brasil: transformar mais grãos em combustível, proteína e produtos de maior valor agregado, em vez de depender exclusivamente da exportação da commodity.
Dentro da porteira, confiança
Apesar dos alertas, Maggi é otimista sobre uma parte essencial da equação: o produtor brasileiro.
Ele vê agricultores cada vez mais jovens e uma disposição incomum para absorver novas tecnologias. Inteligência artificial, aplicativos, sistemas de gestão e ferramentas de controle já estão mudando, segundo ele, a forma como produtores acompanham custos e tomam decisões.
“Somos muito mais assertivos hoje do que éramos no passado”, disse. “Essa geração que está aí hoje é muito ávida por novas tecnologias. Eles são feras.”
Por isso, quando olha dez anos à frente, Maggi parece menos preocupado com o que acontece dentro da fazenda do que com tudo que a cerca.
O produtor continuará buscando produtividade. A tecnologia continuará chegando. A China continuará precisando alimentar uma população enorme e um gigantesco rebanho de animais.
A China está pensando em sua segurança alimentar. Para Blairo Maggi, o Brasil precisa pensar com a mesma antecedência. A dúvida está nas demais peças: quanto custará o dinheiro, de onde virão os fertilizantes, quais mercados permanecerão abertos e quais regras sanitárias, ambientais e comerciais definirão o comércio mundial.
A soja brasileira continua ocupando uma posição difícil de substituir nessa engrenagem. Mas a principal mensagem de Maggi é justamente que o Brasil não deve tratar uma vantagem construída ao longo de décadas como se ela fosse permanente.








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