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Por dentro da rede logística que sustenta o boom das compras internacionais no Brasil

Amazon, Mercado Livre, Shopee e Shein compartilham cada vez mais a mesma teia logística transfronteiriça.

Por Brazil Stock Guide – Um consumidor brasileiro que compra uma capinha de celular, um utensílio de cozinha ou um par de tênis de um vendedor no exterior pode imaginar que a transação pertence à Amazon, ao Mercado Livre, à Shopee ou à Shein.

O pacote muitas vezes conta uma história mais complicada.

Por trás dessas vitrines conhecidas existe uma densa rede de agentes de carga, grupos logísticos chineses, operadores postais e empresas brasileiras de courier que trabalham, cada vez mais, para mais de um concorrente ao mesmo tempo. Alguns são nomes conhecidos na Ásia. Outros são praticamente invisíveis para o consumidor.

Juntos, eles formam a rede logística que sustenta o boom do comércio eletrônico transfronteiriço no Brasil.

O Brazil Stock Guide mapeou os operadores e intermediários vinculados às principais plataformas a partir dos registros da Receita Federal no Remessa Conforme — programa que permite às empresas certificadas calcular e recolher os tributos da compra internacional já no checkout e enviar antecipadamente os dados da encomenda à alfândega. A partir dessa base, foi possível reconstruir parte da infraestrutura que conecta vendedores no exterior aos consumidores brasileiros.

Novos documentos aduaneiros publicados nesta terça-feira mostram o quanto esse sistema se tornou interligado. A Amazon acrescentou a Hangzhou Cainiao Supply Chain Management, parte do ecossistema logístico do Alibaba, à estrutura certificada para suas remessas internacionais dentro do programa Remessa Conforme. O arranjo conecta a Cainiao ao Brasil por meio dos Correios e da Cainiao Express.

Aeronave cargueira da Cainiao: a malha aérea da companhia é uma das engrenagens que conectam vendedores internacionais a consumidores brasileiros no comércio eletrônico cross-border. (divulgação)

A mudança cria uma ligação pouco usual entre dois rivais globais. O AliExpress, do Alibaba, compete com a Amazon pelo consumidor online. Agora, o braço logístico do grupo chinês pode fazer parte da cadeia autorizada da própria Amazon para o Brasil. A Amazon também incluiu uma rota envolvendo a S.F. Express International, de Singapura, com Anjun Courier e Cainiao Express responsáveis pela etapa brasileira, além de outro arranjo com a uruguaia Mailatinamerica.

A J&T Express Brasil, por sua vez, foi acrescentada a uma rota já existente com a Lion eCommerce Logistics, de Hong Kong. Na documentação anterior da Amazon, de março, essa rota incluía apenas Correios e Tex Courier. Os documentos não mostram quantos pacotes passam por cada empresa nem o grau de utilização de cada rota autorizada. O que eles oferecem é algo diferente: uma rara visão das alternativas existentes por trás do botão de compra.

E o mapa é amplo. A rede certificada da Amazon já incluía DHL, SkyPostal, Cross Border Hub e Bringer, além de operadores com forte presença na Ásia, como Royallway Supply Chain Management, Shenzhen Anjun Logistics e YunExpress. Uma das rotas divulgadas em março, por exemplo, conectava a Shenzhen Qianhai YunExpress Logistics à Shenzhen Anjun e, depois, aos Correios e à Anjun Courier no Brasil.

A entrada da Cainiao torna essa rede ainda mais reveladora. Ecossistemas de comércio eletrônico que antes pareciam separados começam a compartilhar a mesma infraestrutura de bastidores. Procurada pelo Brazil Stock Guide, a Amazon informou que não comentaria.

As redes são compartilhadas

A Amazon não é uma exceção. A rede cross-border certificada do Mercado Livre inclui Cainiao, Anjun, Correios, Tex Courier, Phoenex e Mile Express. A Shopee utiliza Cainiao, Anjun, Correios e SHPX, seu próprio braço logístico. A Shein trabalha com Anjun, Correios, Flogistics, Phoenex e Tex Courier. O AliExpress também utiliza Cainiao, Anjun, Correios, Phoenex e Tex Courier.

Essas listas não significam que as empresas movimentem os pacotes exatamente da mesma forma. Tampouco mostram qual transportadora detém a maior fatia dos volumes. Mas a repetição chama atenção. Na ponta visível ao consumidor, as plataformas gastam bilhões tentando se diferenciar: aplicativos, programas de fidelidade, ferramentas para vendedores, promessas de prazo e publicidade.

Nos bastidores, os mesmos nomes continuam aparecendo: Cainiao. Anjun. Correios. Tex Courier. Phoenex. Em outras palavras, as vitrines competem pela atenção dos consumidores. As redes são cada vez mais compartilhadas.

Quem são os nomes por trás da rede

Essas empresas têm dimensões e funções muito diferentes. A Cainiao é uma das maiores redes de logística cross-border do mundo. Criada dentro do ecossistema Alibaba, a companhia opera em mais de 200 países e regiões, com uma infraestrutura global de armazéns, centros de triagem e rotas internacionais. No Brasil, a Cainiao Express está autorizada a operar remessas expressas nos aeroportos de Guarulhos e Viracopos.

A Anjun é outro nome que aparece repetidamente nas cadeias de Amazon, Mercado Livre, Shopee, Shein e AliExpress. Especializada em comércio eletrônico internacional, a companhia afirma processar mais de 400 mil produtos por dia no Brasil e opera serviços que vão da importação consolidada e armazenagem à entrega de última milha.

Caminhão da Anjun em operação logística: a empresa está entre os operadores que fazem a conexão final entre remessas internacionais e a entrega de compras online no Brasil. (divulgação)

A entrada da J&T Express na estrutura da Amazon acrescenta outro grande grupo asiático ao mapa. Nascida no Sudeste Asiático, a empresa expandiu rapidamente sua presença internacional e afirma ter cobertura para os 5.570 municípios brasileiros, além de oferecer serviços de desembaraço de remessas e soluções ligadas ao Remessa Conforme.

Já alguns nomes que parecem menos familiares nos documentos da Receita são, na prática, empresas conhecidas do consumidor brasileiro. Tex Courier é a razão social da Total Express, uma das maiores companhias privadas de entrega de comércio eletrônico do país.

A Phoenex Cargo, por sua vez, atua na logística rodoaérea e desenvolveu operações específicas para marketplaces e encomendas internacionais, incluindo transporte e suporte ao fluxo de importação.

Apesar da crise que atravessam, os Correios continuam funcionando como um dos principais elos físicos do comércio eletrônico transfronteiriço no Brasil, conectando algumas das maiores plataformas do mundo ao consumidor local.

Correios em operação: mesmo em meio à crise, a estatal continua sendo um elo central da logística cross-border, conectando grandes plataformas de e-commerce às entregas no Brasil. (Valter Campanato/Agência Brasil)

O que aparece nos documentos, portanto, não é uma coleção aleatória de fornecedores. É uma combinação de gigantes asiáticos especializados em levar produtos para fora da China, operadores internacionais de carga e empresas brasileiras responsáveis por desembaraçar, classificar e entregar as encomendas.

Essa infraestrutura é o que permite que uma compra feita em poucos segundos num celular em São Paulo acione uma cadeia que pode começar a milhares de quilômetros dali.

Isso importa porque um dos maiores desafios do comércio eletrônico transfronteiriço não é encontrar um produto barato. É fazer esse produto sair de um armazém na China, em Hong Kong, nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar, atravessar a alfândega e chegar à casa de um consumidor brasileiro rápido o suficiente para que ele não se arrependa da compra.

A disputa, portanto, está avançando cada vez mais para dentro da cadeia de suprimentos.

Mercado Livre vai à China

O Mercado Livre talvez seja o exemplo mais claro de como as antigas categorias deixaram de funcionar. A companhia é latino-americana, lidera o comércio eletrônico brasileiro e passou anos construindo uma das redes logísticas domésticas mais sofisticadas da região. Agora, está se aproximando dos vendedores chineses.

O Mercado Livre opera um centro de fulfillment na China onde milhares de lojistas podem armazenar produtos antes do envio ao exterior. O volume bruto de mercadorias, ou GMV, do negócio cross-border cresceu 60% em relação ao ano anterior, em moeda constante, no segundo trimestre de 2026, enquanto Brasil, Argentina e mercados menores cresceram em taxas de três dígitos.

O volume processado pela operação chinesa saltou 170% em relação ao trimestre anterior, segundo a companhia. O Mercado Livre não respondeu ao pedido de comentário até a publicação desta reportagem.

A lógica do modelo é simples: levar o estoque para mais perto da porta de saída da China, reduzir prazos de entrega, diminuir cancelamentos e fazer com que um produto importado pareça menos distante. Isso também torna cada vez mais incômoda a distinção entre um marketplace “brasileiro” e um marketplace “chinês”.

Um vendedor na China pode colocar seus produtos dentro da estrutura de fulfillment do Mercado Livre, conectar-se a operadores cross-border e vender para um consumidor em São Paulo pelo mesmo aplicativo usado por esse consumidor para comprar de um lojista local.

Mercado Livre robots Brazil
Robôs em centro de fulfillment do Mercado Livre: a automação integra a infraestrutura usada pela companhia para acelerar separação, movimentação e entrega de pedidos. (divulgação)

A plataforma deixa de ser apenas um marketplace doméstico e passa a funcionar como uma camada global de distribuição.

A taxa das blusinhas começa a desaparecer

Essa evolução acontece justamente quando o Brasil muda novamente a economia das importações de baixo valor. Em agosto de 2024, o país passou a cobrar 20% de Imposto de Importação federal sobre compras de até US$ 50 realizadas por empresas inscritas no Remessa Conforme. A medida rapidamente ficou conhecida como taxa das blusinhas.

O apelido leve não mostra a disputa que há por trás dele. Varejistas e fabricantes brasileiros argumentavam que plataformas como Shein, Amazon, AliExpress, entre outras, haviam construído uma vantagem injusta ao enviar diretamente do exterior produtos de baixo valor. O imposto de 20% deveria reduzir essa diferença.

Durante quase dois anos, essa cobrança permaneceu em vigor. Depois, o governo mudou de direção. Desde 12 de maio, compras de até US$ 50 feitas por empresas do Remessa Conforme voltaram a ter alíquota federal zero de Imposto de Importação. O ICMS estadual continua sendo cobrado.

Na semana passada, o Congresso aprovou a manutenção da alíquota zero, embora a medida ainda aguarde sanção presidencial. A mudança torna imediatamente mais valiosa a infraestrutura construída por Amazon, Mercado Livre e seus concorrentes.

Um centro de distribuição na China, um contrato adicional com uma transportadora ou uma rota aduaneira mais rápida passam a importar mais quando desaparece a penalidade tributária sobre uma compra de US$ 20 ou US$ 40.

A Shein, que se posicinou contra a cobrança, disse ao Brazil Stock Guide que considera a retirada do imposto de 20% “uma importante conquista” para os consumidores brasileiros, especialmente os das classes C, D e E. Segundo a companhia, a medida aumenta o poder de compra e amplia as possibilidades de escolha das famílias de menor renda.

A Amazon já vinha ampliando o sortimento internacional disponível aos consumidores brasileiros. Desde o início de 2025, compradores no Brasil podem adquirir mais de 40 milhões de produtos adicionais vendidos pela Amazon nos Estados Unidos diretamente pelo Amazon.com.br. O documento aduaneiro mais recente indica que a companhia também está ampliando a rede logística capaz de sustentar esse tipo de transação.

As velhas categorias já não funcionam

Quando o Brasil discutiu a taxa das blusinhas, o debate foi frequentemente apresentado de maneira simples. De um lado, os varejistas brasileiros. Do outro, os marketplaces chineses. As cadeias de suprimentos que estão sendo montadas não cabem mais nessa descrição.

A Shein diz que sua estratégia no Brasil combina o comércio internacional com a expansão do marketplace doméstico. A companhia afirma reunir mais de 50 mil vendedores brasileiros e mantém, ao mesmo tempo, seu modelo global de produção sob demanda para abastecer o canal cross-border. Segundo a empresa, ela também foi a primeira plataforma internacional a operar uma área alfandegada própria no Aeroporto de Guarulhos, criada para acelerar o processamento das remessas internacionais.

Apesar de recorrer à Cainiao e à Anjun nas encomendas internacionais, a Shopee tem uma operação predominantemente local no Brasil. A plataforma reúne cerca de 3 milhões de vendedores no país, responsáveis por 95% das vendas. Para atender esse mercado doméstico, a companhia construiu uma rede logística com 26 centros de distribuição, mais de 200 hubs e cerca de 5 mil agências locais.

O modelo que surge tem menos a ver com escolher entre “local” e “importado” e mais com saber transitar entre os dois. Estoque local pode ganhar em velocidade. Estoque no exterior pode ganhar em preço ou variedade. A vantagem pertence à plataforma capaz de tornar essa diferença quase invisível para o consumidor.

O Remessa Conforme foi criado como um sistema de controle aduaneiro e tributário. As empresas participantes recolhem os tributos no checkout e enviam os dados da remessa antes da chegada da mercadoria ao país. Mas o programa também se tornou algo maior: um arcabouço regulatório por meio do qual marketplaces podem conectar vendedores estrangeiros diretamente ao consumidor brasileiro.

A maior mudança, portanto, talvez não seja o fato de a Amazon ter adicionado a Cainiao, nem o de o Mercado Livre ter construído um centro de fulfillment na China. É o fato de que a infraestrutura física por trás do comércio eletrônico brasileiro começa a se parecer menos com um conjunto de redes rivais e mais com uma utilidade global compartilhada. As vitrines virtuais nos celulares e computadores continuam brigando pelo cliente. Mas o pacote pode viajar pelos mesmos operadores logísticos.


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