By Brazil Stock Guide – O empresário Benjamin Steinbruch está deixando o comando executivo da CSN, mas não a CSN. A partir de 3 de setembro, Fabio Schvartsman, ex-CEO da Vale e amigo de Steinbruch há mais de 40 anos, assume como presidente executivo, enquanto o controlador volta à presidência do conselho. Para investidores, a principal questão não é o currículo do novo CEO de 72 anos, mas quanto espaço ele terá para efetivamente comandar uma companhia historicamente centralizada em seu acionista controlador.
Em uma mensagem interna enviada aos cerca de 40 mil funcionários e obtida pelo Brazil Stock Guide, Steinbruch apresentou a mudança como parte de uma nova transformação da companhia. Ele lembrou os 33 anos desde a privatização e descreveu a construção de um grupo que hoje vai muito além do aço: mineração, cimento, ferrovias, portos, logística e energia, além de operações internacionais. Na mineração, destacou a posição da CSN entre os maiores exportadores brasileiros de minério de ferro; no cimento, a expansão construída em parte a partir da integração com a siderurgia.
Steinbruch também colocou a mudança dentro da própria trajetória empresarial de sua família: negócios que passaram pela agricultura e pelo setor têxtil antes de chegar ao aço e, posteriormente, ao conglomerado atual. É nesse contexto que apresentou Schvartsman como um amigo de mais de quatro décadas escolhido para liderar, em suas palavras, uma nova etapa de transformação da CSN.
Em 2017, poucos meses após Schvartsman assumir a Vale, surgiram no mercado discussões sobre uma possível aproximação da mineradora com Casa de Pedra, da CSN, negadas pela Vale à época.
É justamente aí que começa o teste de governança. Steinbruch comandou pessoalmente a operação por décadas e já recorreu, em outros momentos, a executivos externos que acreditaram numa possibilidade de sucessão. A última CEO da CSN foi Maria Silvia Bastos, que deixou a empresa em 2002.
Nos últimos anos, também passou a dividir seu tempo entre o Brasil e o Uruguai, onde mantém residência e permanece por longos períodos. Ainda assim, continuou exercendo influência direta sobre decisões estratégicas e operacionais da CSN.
Entre analistas que acompanham a companhia, a dúvida é se desta vez a separação entre conselho e diretoria será também uma separação efetiva entre definição estratégica e execução. A longa relação pessoal entre Steinbruch e Schvartsman pode facilitar essa transição — ou tornar seus limites ainda mais difíceis de enxergar.
O segundo teste é financeiro. A CSN encerrou junho com R$ 42,1 bilhões de dívida líquida e alavancagem de 3,49 vezes EBITDA, enquanto tenta executar um programa de venda de ativos para reduzir entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões de endividamento. Entre os ativos colocados no centro desse processo estão o negócio de cimento e participações em infraestrutura.
A própria companhia disse no resultado do segundo trimestre que continua avançando nesses projetos de venda. A chinesa Huaxin e o consórcio Votorantim/Cementir são apontadas como favoritas na aquisição do ativo de cimento.
Isso transforma a chegada de Schvartsman em algo maior do que uma sucessão administrativa. O executivo construiu carreira em empresas como Ultrapar, Duratex e Klabin antes de chegar à Vale, com experiência em estratégia, finanças, alocação de capital e transformação empresarial. Agora, terá de mostrar se consegue acelerar desinvestimentos, reduzir a alavancagem e reorganizar um conglomerado cuja diversificação foi construída ao longo de décadas sob Steinbruch.
Sua passagem pela Vale, porém, também acompanha seu retorno ao comando de uma grande companhia industrial. Schvartsman era CEO da mineradora quando ocorreu o rompimento da barragem de Brumadinho, em janeiro de 2019. Em abril deste ano, o Superior Tribunal de Justiça determinou a reabertura das ações penais contra o executivo relacionadas ao desastre, permitindo o prosseguimento das acusações de homicídio qualificado e crimes ambientais. Não há condenação, e o processo segue em andamento.
No fim, a transformação mais importante prometida pela CSN talvez não esteja no aço, no minério ou no cimento, mas em sua própria governança. O mercado agora terá de descobrir se a companhia está deixando de ser uma empresa administrada diretamente por seu controlador para se tornar uma empresa em que Steinbruch define a direção no conselho – e um CEO de fato dirige o negócio.













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