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Por que algumas empresas brasileiras pagam 5% aos credores internacionais e outras mais de 20%?

No mercado global de dívida, a diferença entre emissores brasileiros revela quem ainda controla a dívida e quem já começa a ser controlado por ela.

Brazil Stock Guide — O passaporte é brasileiro. A moeda da dívida é a mesma. E os investidores, em boa parte, também. Mas o preço do dinheiro pode ser completamente diferente.

No mercado internacional de bonds, um título da JBS com vencimento em 2033 negociava no fim de agosto com yield de cerca de 5,4% ao ano. Um papel da Minerva com vencimento também em 2033 pagava 8,4%.

No saneamento, um bond da Sabesp para 2036 rendia aproximadamente 7,6%. O da Aegea, com vencimento no mesmo ano, oferecia 10,6%.

A distância cresce à medida que o balanço fica mais pressionado.

Um bond da Azul para 2031 rendia cerca de 13,5%. O da Gol para 2030, 15,3%. Na CSN, os títulos negociavam entre aproximadamente 16% e 22,4%, dependendo do vencimento.

Os dados são do LatAm Bonds Weekly, do BTG Pactual Credit Research, com preços de 28 de agosto, e mostram uma ampla dispersão no custo implícito da dívida entre emissores brasileiros.

As taxas são yields no mercado secundário e, portanto, não equivalem necessariamente ao custo que cada companhia enfrentaria em uma nova emissão. Prazo, garantias, senioridade e liquidez também afetam a precificação.

Ainda assim, os preços oferecem uma medida de quanto retorno o mercado exige para carregar o risco de cada emissor.

Entre as empresas de melhor qualidade de crédito, os yields permanecem perto de 5% a 6%. Além da JBS, papéis de Vale, Suzano, Gerdau e Embraer estavam nessa faixa.

Um bond da Vale para 2030 rendia cerca de 5,2%. Na Suzano, títulos para 2028 e 2029 estavam pouco acima de 5%. Um papel da Gerdau para 2027 rendia aproximadamente 5,1%, enquanto um bond da Embraer para 2035 estava perto de 5,6%.

Balanço pesa mais que risco-país

Risco Brasil, juros dos Treasuries, câmbio e cenário fiscal afetam todos os emissores brasileiros. Mas não explicam sozinhos uma diferença que vai de cerca de 5% a mais de 20%.

O mercado também avalia nível de endividamento, cronograma de vencimentos, geração de caixa, necessidade de investimentos, ativos disponíveis para venda e acesso a refinanciamento.

Quanto maior a dependência de novas captações, maior tende a ser a sensibilidade da empresa a uma piora nas condições financeiras. Para os acionistas, os bonds também funcionam como um indicador adicional de risco.

Uma empresa endividada pode ter forte valorização na bolsa se vender ativos, reduzir alavancagem ou refinanciar passivos em melhores condições. O credor, porém, está concentrado principalmente na capacidade de pagamento de juros e principal.

JBS e Minerva

A comparação entre JBS e Minerva mostra essa diferença dentro de um mesmo setor. O bond da JBS com vencimento em 2033 tinha yield de 5,4% e spread de cerca de 117 pontos-base sobre a curva de referência. O papel da Minerva, também para 2033, rendia 8,4%, com spread próximo de 413 pontos-base.

A diferença é de quase três pontos percentuais no yield e cerca de 300 pontos-base no spread. Os ratings ajudam a explicar parte do prêmio. A JBS aparece no levantamento do BTG na faixa de grau de investimento, enquanto a Minerva está abaixo dessa classificação.

Para as empresas, a diferença pode ter impacto relevante quando chega a hora de refinanciar dívida, financiar aquisições ou acelerar investimentos.

Sabesp e Aegea

No saneamento, a diferença também é expressiva. Um bond da Sabesp para 2036 negociava com yield de aproximadamente 7,6%. O papel da Aegea com o mesmo vencimento estava em 10,6%.

O setor tem receitas reguladas e contratos de longo prazo, mas também exige investimentos elevados. Isso torna geração de caixa, alavancagem e necessidade de novos financiamentos fatores centrais para os credores. A disparidade mostra que estar exposto ao mesmo setor não implica custo de capital semelhante.

A faixa de 9% a 11%

Natura, Simpar, Movida e Aegea aparecem em uma faixa intermediária. Os bonds da Natura rendiam pouco acima de 9%, enquanto a Simpar estava perto de 9,6%. Na Movida, um título mais curto negociava em torno de 8,1%, enquanto um bond para 2033 chegava a aproximadamente 11%.

Esses níveis não significam necessariamente que o mercado esteja antecipando uma reestruturação. Mas indicam um custo de capital bem superior ao de emissores que negociam perto de 5%. Isso tende a aumentar a exigência de retorno sobre novos projetos e pode reduzir a flexibilidade para aquisições, investimentos ou distribuição de caixa.

Mesmo companhias com ratings semelhantes podem negociar com diferenças relevantes. Investidores também consideram liquidez, vencimentos, geração de caixa, garantias e necessidade futura de refinanciamento. No setor aéreo, a exposição a combustível, câmbio e ciclos econômicos adiciona volatilidade à avaliação de crédito. O bond da Azul para 2031 rendia cerca de 13,5%, enquanto o papel da Gol para 2030 estava em 15,3%.

CSN concentra o maior prêmio

Entre as grandes companhias do levantamento, a CSN aparece com os yields mais elevados. O bond com vencimento em janeiro de 2028 negociava perto de 82 centavos por dólar e rendia aproximadamente 22,4%, com spread superior a 1.800 pontos-base. Papéis da companhia com vencimentos entre 2030 e 2032 tinham yields entre cerca de 16% e 19%.

A comparação com a Vale mostra a diferença de percepção do mercado. Um bond da Vale para 2030 rendia aproximadamente 5,2%. Um título da CSN com vencimento no mesmo ano estava perto de 18%. As duas empresas têm exposição ao Brasil, ao dólar, à China e ao ciclo de commodities. A diferença de mais de 12 pontos percentuais aponta, portanto, para fatores específicos de crédito e estrutura de capital.


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