Em julho de 2001, o presidente Fernando Henrique Cardoso sentou-se para jantar na casa de Olavo Setubal, então à frente do grupo Itaú, com alguns dos chamados “pesos pesados do PIB brasileiro”. Na mesa estavam Lázaro Brandão, do Bradesco, Antônio Ermírio de Moraes, da Votorantim, Jorge Gerdau Johannpeter, da Gerdau, entre outros. A sucessão presidencial já estava no ar, Lula despontava como candidato competitivo e “governabilidade” era um dos assuntos daquela noite.
Vinte e cinco anos depois, algumas cadeiras parecem surpreendentemente familiares. Nos encontros realizados nos últimos dias com os candidatos Lula e Flávio Bolsonaro, Bradesco, Itaú, Gerdau e Votorantim estiveram representados dos dois lados. Não parece uma escolha eleitoral. Parece aquilo que grandes grupos fazem diante de qualquer risco relevante: diversificam. Mas olhar apenas para quem permaneceu esconde a mudança mais importante. A mesa mudou.
No jantar de FHC, a elite econômica brasileira ainda tinha forte identidade industrial. Antônio Ermírio praticamente personificava a indústria nacional. Jorge Gerdau comandava uma siderúrgica brasileira em expansão. Odebrecht, Camargo Corrêa, Sadia e outros grandes grupos produtivos também faziam parte daquele universo de interlocução com Brasília. Bancos sempre estiveram próximos do poder, mas dividiam espaço com empresários cuja principal atividade era construir fábricas, siderúrgicas, estradas, usinas e grandes projetos de engenharia.
A fotografia de 2026 é diferente. No encontro de Flávio havia Itaú, Bradesco e Santander, além de Nubank, B3, Lumina e outros nomes do mercado financeiro. A mesa de Lula era mais diversificada – Gerdau, Votorantim, Cosan, Amil e MRV estavam lá -, mas incluía também Itaú, Bradesco e BR Partners. Dois nomes talvez sejam as grandes estrelas empresariais desta era: André Esteves (BTG Pactual) e Joesley Batista (J&F), que transformaram grupos já existentes em potências do capitalismo brasileiro – um nas finanças, outro na indústria. Nos dois jantares, as contas públicas ocuparam espaço importante na conversa.
Alguns dos antigos protagonistas, porém, simplesmente desapareceram da fotografia. As grandes empreiteiras já não ocupam o lugar que tinham em Brasília antes da Lava Jato e da profunda reestruturação que se seguiu no setor. A MRV estava na mesa de Lula, mas representa outra construção: habitação, não o antigo modelo de empresas nacionais capazes de projetar hidrelétricas, metrôs, refinarias e rodovias dentro e fora do Brasil. Mais revelador ainda é observar que mesmo alguns dos sobreviventes mudaram. A Votorantim de Fábio Ermírio (holding de investimento) não é mais a Votorantim de Antônio Ermírio (conglomerado industrial). A Gerdau seguiu outro caminho: continua siderúrgica, mas se internacionalizou profundamente. Seu próximo dólar de investimento pode disputar espaço entre Brasil, Estados Unidos, México e outros mercados.
O mercado financeiro, por sua vez, passou a ocupar um espaço que não tinha a mesma dimensão na elite empresarial de 2001. Isso não exige que sua participação no PIB tenha explodido. Significa que quem administra e aloca capital ganhou peso em relação a quem possui e opera ativos produtivos. E ajuda a entender por que o ajuste fiscal ganhou tamanho protagonismo. Para bancos, gestores, investidores e grandes detentores de patrimônio, a trajetória da dívida pública afeta diretamente juros reais, títulos públicos, spreads, câmbio, ações e o valor das próprias carteiras. O fiscal não é apenas uma condição para investir na economia real. É parte do preço do dinheiro.
É por isso que talvez haja uma leitura excessivamente eleitoral dos jantares recentes. Havia muito mais Faria Lima nas mesas de 2026 do que naquela fotografia do PIB de 2001. Vinte e cinco anos depois, empreiteiras perderam protagonismo, antigos conglomerados viraram holdings, empresas se internacionalizaram e o mercado financeiro avançou para o centro da elite empresarial. Há 25 anos, boa parte dos homens sentados à mesa decidia onde construir a próxima fábrica. Hoje, cada vez mais, a pergunta é se vale a pena construí-la – ou simplesmente aplicar o dinheiro.













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