A espera da sanção presidencial depois de aprovado nesta terça-feira pelo Senado, o Redata, programa para a instalação e expansão de data centers no Brasil, traz uma lógica conhecida. Isenção de impostos para para atrair capital. O tamanho da oportunidade ajuda a explicar a aposta. Em novembro de 2025, havia 26,2 GW de projetos de data centers em processo de conexão no Ministério de Minas e Energia, ante 19,8 GW apenas dois meses antes. O Brasil não está tentando criar um mercado inexistente; está tentando capturar uma onda de investimentos que já ganhou velocidade.
O principal ativo brasileiro é energia. Em 2025, 86,8% da eletricidade produzida ou importada pelo país veio de fontes renováveis, e eólica e solar responderam juntas por 26,4% da geração. Para uma indústria que consome eletricidade em escala e cujos maiores clientes globais perseguem metas de descarbonização, isso é uma vantagem competitiva relevante. Há também um ganho estratégico: cerca de 60% das cargas brasileiras de dados e inteligência artificial ainda são processadas fora do país, segundo o governo. Mais capacidade local reduz latência e dependência externa, embora servidores no Brasil não transformem o país, por si só, em produtor de tecnologia.
O Redata tenta cobrar contrapartidas em troca do benefício. Empresas habilitadas precisam aplicar 2% do valor dos equipamentos incentivados em pesquisa, desenvolvimento e inovação, e pelo menos 40% desses recursos de P&D devem ser destinados ao Norte, Nordeste e Centro-Oeste. É um desenho mais defensável do que uma isenção pura e simples. E convém não vender o programa pela geração de empregos: data centers são muito intensivos em capital e relativamente pouco intensivos em mão de obra. Seu benefício econômico potencial está mais na infraestrutura digital, no investimento e na produtividade que podem gerar ao redor.
A conta ambiental, porém, existe. O regime impõe exigências de eficiência energética e hídrica, mas o maior risco pode estar fora dos prédios. Só em São Paulo, novos projetos já demandam cerca de R$ 1,6 bilhão em obras de transmissão para liberar aproximadamente 4 GW de capacidade adicional. Energia renovável não é energia gratuita nem infraestrutura automática. Se a chegada dos data centers exigir novas usinas, subestações e linhas, o ponto decisivo será garantir que parte adequada desse custo seja suportada pelos novos consumidores, e não diluída nas tarifas pagas pelo restante da economia.
Resta a questão mais difícil: o preço do incentivo. A Receita estima renúncia de R$ 5,2 bilhões em 2026, R$ 1 bilhão em 2027 e R$ 1,05 bilhão em 2028. O teste é saber quantos desses investimentos só acontecerão por causa do Redata. Se empresas já viriam pela combinação de energia, conectividade e mercado, a isenção apenas aumenta seu retorno. O melhor subsídio muda uma decisão de investimento; o pior remunera uma decisão já tomada. O risco para o Brasil não é perder a corrida pelos data centers. É pagar caro demais para ganhar uma corrida em que talvez já estivesse bem posicionado.












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