A pergunta relevante para o investidor não é se existe estresse no crédito brasileiro. Existe. Famílias estão mais endividadas, empresas carregam passivos refinanciados a custos elevados e recuperações e renegociações se tornaram parte frequente do noticiário corporativo. A questão mais interessante é outra: isso pode se transformar em uma crise de crédito como a de 2015? Os sinais de deterioração justificam atenção, mas a comparação histórica sugere cautela antes de responder que sim. O sistema financeiro que está enfrentando os juros altos de 2026 é bastante diferente daquele que entrou na recessão de uma década atrás.
A primeira diferença é entender corretamente o que aconteceu em 2015. Os bancos não começaram aquela crise sem dinheiro: o próprio Banco Central dizia que o sistema tinha “confortável nível de liquidez” e permanecia bem capitalizado. O problema estava na economia ao redor deles. Em meio à crise política que levaria ao impeachment, uma atividade em queda, juros elevados, piora do emprego e colapso da confiança reduziram a demanda por crédito e levaram as instituições a endurecer as concessões; nos bancos privados, a carteira chegou a contrair em termos reais. Quando isso aconteceu, havia poucas alternativas. As empresas brasileiras captaram apenas R$ 124,8 bilhões no mercado de capitais naquele ano, menor volume em sete anos, e a própria Anbima descreveu um ambiente de maior dificuldade de captação. Em outras palavras, o perigo de 2015 não era simplesmente a liquidez dos bancos mas sim a grande dependência deles.
Hoje há razões concretas para preocupação, sobretudo no crédito às famílias. A apresentação feita semana passada pelo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, mostra que o endividamento total subiu de 41,8% para 49,8% da renda anual entre 2020 e 2026. O crédito pessoal sem consignação chegou perto de R$ 400 bilhões, com quase 69% do saldo sem garantia, enquanto o consignado privado cresceu 145% em um ano e sua inadimplência passou de 5% para 6,7%.
Mas falta, por enquanto, uma peça que foi devastadora em 2015: o mercado de trabalho ainda não virou. O desemprego estava em apenas 5,4% em junho, o menor nível da série histórica da PNAD Contínua, e a renda disponível das famílias permanecia elevada. Crédito deteriorado com renda e emprego fortes pode gerar perdas; crédito deteriorado enquanto milhões perdem renda transforma-se muito mais facilmente em crise.
A segunda diferença é ainda maior. Na última década, o Brasil construiu uma enorme infraestrutura de financiamento fora dos balanços bancários. Em 2025, as ofertas no mercado de capitais chegaram ao recorde de R$ 838,8 bilhões; somente de janeiro a julho de 2026 foram R$ 429,8 bilhões, 8,8% acima do mesmo período do ano anterior. O Banco Central registra a mesma transformação por outro ângulo: em abril, enquanto os empréstimos do sistema financeiro cresciam 9,1% em 12 meses, os títulos privados de dívida avançavam 19,9%; para empresas, o estoque de títulos crescia 17,2%. Debêntures, notas comerciais, fundos de crédito e estruturas como FIDCs criaram portas de refinanciamento que simplesmente não existiam na mesma escala em 2015.
Isso não significa que mais liquidez elimine o risco. Pode inclusive adiá-lo. Uma companhia excessivamente alavancada pode emitir outra dívida, alongar vencimentos ou oferecer novas garantias enquanto espera a Selic cair; investidores podem acabar financiando uma estrutura de capital que deveria ser corrigida. É mais do que fundamental que se acompanhe os dados de inadimplência, recuperações e spreads. Mas há uma diferença importante entre perdas de crédito e crise de crédito. O próprio Banco Central afirma hoje que o mercado de capitais está absorvendo parte da demanda anteriormente atendida por bancos e que, apesar da capacidade de pagamento mais desafiadora de famílias e empresas, as provisões permanecem compatíveis com as perdas esperadas. O BC também considera adequados os níveis de capital e liquidez bancários. Até agora, portanto, os sinais apontam mais para bolsões de deterioração do que para uma interrupção sistêmica do financiamento.
É por isso que 2015 talvez seja menos uma previsão do que um bom teste para 2026. Para a história realmente se repetir, seria necessário que vários amortecedores começassem a falhar juntos: emprego e renda deteriorarem, a inadimplência se espalhar para além das linhas mais arriscadas e, sobretudo, bancos e mercado de capitais fecharem simultaneamente a porta para o refinanciamento. Nada disso é impossível. Mas o Brasil chega ao atual ciclo com uma estrutura financeira mais profunda, fontes de recursos mais diversificadas e instituições capazes de distribuir melhor os choques. Os juros altos ainda produzirão perdas e algumas empresas e famílias inevitavelmente terão de ajustar seus balanços. A boa notícia é que, desta vez, o sistema parece ter mais condições de transformar esse ajuste em uma longa limpeza de crédito e não em outra crise como a de 2015.












Deixe uma resposta