Os medicamentos para perda de peso estão se tornando um problema para quem financia a saúde nos Estados Unidos. Empresas americanas esperam que seus custos subam mais de 11% em 2027, a maior alta em mais de duas décadas, e a disseminação dos GLP-1 está entre os fatores por trás da pressão. No Brasil, a equação é diferente: quem toma Ozempic, Wegovy, Mounjaro ou medicamentos semelhantes geralmente paga pela própria caneta.
Isso não significa custo zero para os planos. Eles continuam financiando boa parte do acompanhamento que cerca o tratamento contra a obesidade. Entre 2022 e 2025, as consultas com endocrinologistas cresceram cerca de 16% por beneficiário na saúde suplementar brasileira. Atendimentos com nutricionistas avançaram aproximadamente 28% e exames de hemoglobina glicada, perto de 24%. No mesmo período, o total de consultas médicas ambulatoriais cresceu apenas cerca de 1% por beneficiário, enquanto os exames em geral avançaram aproximadamente 7%. Os dados mostram que a procura por especialistas aumentou muito mais rapidamente justamente no eixo ligado a metabolismo, diabetes, obesidade e acompanhamento nutricional. Isso não prova que os GLP-1 sejam a causa, mas a coincidência temporal parece confirmar essa tendência.
Mantidas as taxas de utilização de 2022 e ajustando apenas pelo crescimento da população coberta, 2025 registrou algo como 1,2 milhão de consultas adicionais de endocrinologia, 880 mil atendimentos extras de nutrição e quase 5 milhões de exames adicionais de hemoglobina glicada. Aplicando custos médios às categorias, o gasto incremental fica na vizinhança de R$ 330 milhões por ano. O valor deve ser entendido como um teto, não como “o custo dos GLP-1”. Ele inclui toda a expansão desses serviços, qualquer que tenha sido sua causa. Ainda assim, os R$ 330 milhões equivalem a apenas cerca de 0,12% dos R$ 276,9 bilhões de despesas assistenciais da saúde suplementar em 2025. Até aqui, portanto, o custo indireto parece pequeno diante do tamanho da conta médica.
É justamente aí que aparece a vantagem brasileira para as operadoras de planos de saúde. Nos Estados Unidos, planos e empregadores podem pagar tanto pelo medicamento quanto pelas consultas e exames associados. Na semana passada, o Wall Street Journal aponta, entre outros fatores, a adoção das canetas emagracedoras entre os vetores da inflação médica. Segundo pesquisa da AON com clientes, houve crescimento de 75% no uso de GLP-1 para emagrecimento em 2025.
No Brasil, a conta é outra. Hoje, o paciente paga pela caneta, enquanto o plano pode acabar ficando com parte da economia que ela gera. Se os GLP-1 reduzirem internações, cirurgias e complicações da obesidade, a sinistralidade pode cair sem que a operadora tenha bancado o principal custo do tratamento. A tese ainda precisa passar pelo teste do tempo. O boom das canetas é recente. Há abandono de tratamento e risco de reganho de peso. Portanto, ainda é cedo para saber se esse benefício será duradouro. Uma eventual cobertura obrigatória também mudaria toda essa equação. Mas, para um setor obcecado com inflação médica e sinistralidade, hoje essa assimetria é difícil de ser ignorada.












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