By Brazil Stock Guide – “Eu não estou muito otimista, mas estou otimista.”
A frase de Letícia Cardelli resume a leitura do Bradesco para um segmento específico do agronegócio brasileiro: as grandes empresas, agroindústrias e produtores de maior porte atendidos pelo banco no atacado.
Para esse grupo, a diretora do Bradesco BBI Agro vê um cenário que começa a melhorar, apoiado pela recuperação dos preços de commodities, maior disciplina financeira e vantagens estruturais que continuam colocando o Brasil entre os produtores agrícolas mais competitivos do mundo.
Cardelli esteve recentemente na Expointer, tradicional feira do agronegócios do Rio Grande do Sul, e saiu do evento com uma percepção positiva sobre a mudança de humor no setor.
“Estava todo mundo mais animado”, disse ela, em entrevista ao Brazil Stock Guide durante o Agro Summit 2026, promovido pelo Bradesco BBI, em São Paulo.
A melhora de percepção coincide com movimentos mais favoráveis nos mercados agrícolas. “O preço das commodities está começando a voltar”, afirmou. “Eu acho que a gente vai começar a ver um ciclo mais positivo para o nosso agronegócio.”
A expectativa não é de um movimento permanente — o setor continua sendo cíclico —, mas de um ambiente mais favorável e sustentável nos próximos meses e em 2027.
No universo acompanhado por Cardelli, a situação financeira permanece saudável. Sua área cobre grandes companhias, agroindústrias e produtores rurais de maior porte, incluindo grupos altamente profissionalizados e com estruturas de governança mais desenvolvidas.
“De uma forma geral, neste público, a composição ainda é saudável”, afirmou.
A ressalva sobre o perfil dos clientes é importante. Cardelli reconhece que existem pontos de estresse dentro da cadeia do agronegócio, especialmente entre produtores mais alavancados e no segmento de revendas de insumos, que já passou por recuperações judiciais e reestruturações nos últimos anos.
Mas ela evita extrapolar esses problemas para o conjunto do setor. “Quando a gente fala do agro, é muito importante fazer essa diferenciação”, disse. Entre os grandes grupos atendidos pelo Bradesco, o cenário é de maior resiliência financeira, escala e profissionalização.
As dificuldades recentes também vêm criando oportunidades de reorganização dentro da cadeia. No segmento de revendas, Cardelli observa o retorno de cooperativas e grupos locais e regionais. “A gente vê o retorno deles, que conhecem aquele produtor rural”, afirmou.
O movimento representa uma mudança em relação ao ciclo anterior, quando várias empresas apostaram na expansão nacional de redes de distribuição em busca de escala e sinergias. Segundo Cardelli, em alguns casos o conhecimento local acabou se mostrando mais importante do que se imaginava.
Também há maior movimentação no mercado de terras, particularmente em Mato Grosso. Os preços de alguns ativos se tornaram mais atraentes, embora o custo de capital ainda limite decisões de aquisição.

Esse mesmo ambiente de juros elevados ajuda a explicar por que até os produtores mais capitalizados continuam seletivos nos investimentos. A prioridade hoje é manter a operação eficiente, garantir insumos e preservar liquidez. “Preservação de caixa”, resumiu ela.
Isso não significa retração operacional. Os grandes produtores seguem investindo no necessário para manter produtividade e competitividade, mas evitam projetos de expansão que possam ser adiados até que o custo de capital se torne mais favorável.
Essa disciplina pode ganhar importância justamente quando as commodities começam a reagir. Cardelli observa melhora em mercados como grãos e acredita que parte dessa recuperação possa continuar ao longo de 2027.
Os produtores já começam a aproveitar preços melhores para proteger margens. “A gente está vendo muita trava de preço. Por conta dessa alta do preço das commodities, o pessoal está vendendo”, afirmou.
O resultado é uma combinação potencialmente mais favorável: preços em recuperação, balanços preservados e uma gestão de risco mais sofisticada. Para Cardelli, no entanto, o principal argumento a favor do agro brasileiro continua sendo estrutural. “A gente vê o agronegócio como uma vantagem competitiva estrutural. O Brasil é o mais competitivo do mundo em diversas culturas”, disse.
O país reúne escala territorial, clima, solo, tecnologia e uma cadeia empresarial desenvolvida ao longo de décadas. Proteínas, açúcar, café e laranja estão entre os exemplos citados por Cardelli de setores em que o Brasil ocupa uma posição particularmente competitiva no mercado mundial.
Essa vantagem também ajuda a explicar por que ela não vê a busca da China por maior segurança alimentar como uma ameaça estrutural ao país. O gigante asiático deve continuar tentando ampliar sua produção doméstica, mas, na avaliação da executiva, continuará dependendo de fornecedores externos para atender à escala de sua demanda.
“A China não vai ter a quantidade de proteína necessária. Ela vai continuar consumindo do Brasil”, afirmou. A relação, segundo Cardelli, pode inclusive avançar além da exportação tradicional de commodities.
O Brasil tem condições de exportar também conhecimento, tecnologia e expertise acumulada na produção agrícola tropical em grande escala. “Podemos contribuir com a China não só com exportação propriamente dita, mas com expertise, com know-how.”
A diversificação de mercados também começa a ganhar importância. Cardelli vê oportunidades crescentes no Oriente Médio, onde segurança alimentar tornou-se uma prioridade estratégica e investidores vêm buscando parcerias com empresas brasileiras, principalmente na cadeia de proteínas.
A Indonésia aparece como outra frente de expansão potencial. Recentemente, a JBS fechou acordo com um fundo soberano da Indonésia.
“O Oriente Médio tem muito essa pauta de segurança alimentar”, afirmou. “E a Indonésia é um país que também tem flertado muito com essa possibilidade de investimento no agro brasileiro.”
A maior relevância do agronegócio também levou o próprio Bradesco a reorganizar sua estrutura de atendimento. Há cerca de um ano e meio, o banco criou uma diretoria específica para concentrar dentro do atacado os clientes ligados às diferentes cadeias do setor.
Cardelli assumiu a nova estrutura. Hoje, a área conta com 11 plataformas regionais espalhadas pelo Brasil e 32 profissionais dedicados exclusivamente à análise de crédito dos clientes do agronegócio. O banco também possui mesa de commodities, traders especializados e equipes de pesquisa econômica voltadas ao setor.
“Quando você especializa, você fica mais assertivo nas ofertas que faz”, disse. Segundo Cardelli, a carteira total de agronegócio do Bradesco está em torno de R$ 130 bilhões – entre as três maiores operações do setor, que inclui Banco do Brasil e o Itaú.
Mais da metade desse volume está relacionada aos clientes atendidos pela estrutura de atacado do Bradesco. Para ela, a especialização permite ao banco compreender melhor um setor que se tornou mais sofisticado e no qual empresas aparentemente semelhantes podem apresentar perfis financeiros e operacionais bastante diferentes.
O grande produtor hoje administra simultaneamente produtividade, preços, câmbio, clima, crédito e risco financeiro. Depois de um período mais desafiador, Cardelli acredita que os grandes grupos chegam ao próximo ciclo mais disciplinados e preparados.
Por isso, o otimismo de Cardelli ainda é cuidadoso — mas está aumentando. “Eu acho que a gente vai começar a ver um ciclo mais positivo daqui para frente.” Para as grandes empresas do agronegócio brasileiro, 2027 pode marcar justamente essa virada.












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