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As reservas brasileiras estão ficando menos americanas

A queda dos títulos americanos atribuídos a residentes brasileiros coincide com uma diversificação acelerada do Banco Central.

O Brasil vem reduzindo de forma relevante sua exposição aparente aos Treasuries. Na metade de 2019, títulos do Tesouro americano atribuídos a residentes brasileiros somavam US$ 310 bilhões; em julho de 2026, eram US$ 168 bilhões – uma queda de cerca de 45%. O número não representa apenas o Banco Central e é influenciado pelo local de custódia dos papéis, portanto não permite dizer que o BC tenha vendido essa montanha de bilhões de dólares em Treasuries neste período. Ainda assim, é um símbolo poderoso de uma transformação mais ampla: o Brasil está menos concentrado em ativos americanos do que estava há poucos anos.

Essa mudança aparece de maneira inequívoca na própria carteira das reservas. Em 2018, 90% da alocação cambial do BC estava em dólares. No fim de 2025, a fatia havia caído para pouco mais de 70%. Ao mesmo tempo, o ouro passou de 0,75% para mais de 7% e o renminbi, que não aparecia na carteira em 2018, chegou a 6%. Não é o abandono do dólar, mas é uma redução material do risco de concentração em uma única moeda e em uma única classe de emissores.

A geopolítica tornou esse movimento mais relevante. O próprio Banco Central afirma que, em 2025, diante do aumento das “incertezas econômicas e geopolíticas”, ampliou a diversificação para reforçar segurança e liquidez, elevando posições em ouro, euro e renminbi. O BC não atribui essa decisão especificamente aos Estados Unidos, e não há evidência de que a redução tenha sido uma retaliação política. Mas o contexto mudou: Washington concluiu neste ano que determinadas práticas brasileiras em comércio digital e pagamentos eletrônicos, tarifas, propriedade intelectual, etanol e outras áreas restringem o comércio americano e aplicou uma tarifa adicional de 25% a determinados produtos brasileiros. O Pix entrou diretamente nesse contencioso.

É justamente essa diferença entre causa e contexto que torna a história interessante. A diversificação começou antes da atual deterioração das relações bilaterais, mas os novos atritos ajudam a explicar por que reduzir concentração pode adquirir valor estratégico. Um país que mantém centenas de bilhões de dólares em reservas não precisa concluir que ativos americanos deixaram de ser seguros para considerar excessiva a dependência de uma só moeda, de um só mercado e de uma infraestrutura financeira sobre a qual outro Estado exerce enorme influência.

A China oferece o paralelo mais evidente – embora não uma equivalência. Pequim reduziu seus Treasuries de mais de US$ 1,3 trilhão no pico de 2013 para US$ 618 bilhões em julho, o menor nível desde 2008, ao mesmo tempo em que ampliou posições em ouro e outros ativos. O Financial Times observa que parte dessa exposição pode estar escondida por custódia em centros como Bélgica e Luxemburgo, uma lembrança de que os próprios dados americanos têm limitações. Brasil e China enfrentam relações muito diferentes com Washington, mas ambos ilustram a mesma questão de gestão de reservas: quanto risco de concentração é razoável carregar num mundo mais fragmentado?

Nada disso significa que o dólar tenha perdido sua centralidade. As reservas brasileiras continuavam em robustos US$ 360 bilhões no fim de 2025, acima dos US$ 330 bilhões de um ano antes, e 72% da alocação cambial ainda estava na moeda americana. Treasuries oferecem uma combinação de escala, liquidez e segurança que ouro, renminbi ou qualquer outro ativo isoladamente não reproduzem. A diversificação brasileira é, portanto, uma mudança de grau, não uma ruptura com o sistema financeiro americano.

Uma eventual redução das tensões entre Brasília e Washington – independentemente de mudanças futuras de governo em qualquer dos dois países – diminuiria parte do prêmio geopolítico da diversificação, mas não eliminaria os argumentos financeiros para ela. O movimento já atravessou diferentes momentos políticos e ganhou velocidade sob uma justificativa técnica de segurança e liquidez; o teste será observar se futuras revisões da carteira preservam essa direção ou voltam a elevar a concentração em dólar e soberanos americanos. O atrito mais recente com os Estados Unidos não criou esse movimento, mas pode ter tornado muito mais clara a pergunta que ele procura responder: quanto de um colchão de segurança nacional deve continuar concentrado no sistema financeiro de uma única potência?


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