By Brazil Stock Guide – A indústria brasileira de processamento de soja está ampliando sua capacidade mais rapidamente do que a demanda por esmagamento, aumentando a ociosidade das plantas mesmo em um momento de produção recorde do grão no país, segundo relatório do BTG Pactual.
A utilização da capacidade ativa de processamento caiu de 87,9% em 2022 para uma estimativa de 80,4% em 2026, à medida que a expansão das plantas superou o crescimento do volume efetivamente esmagado. Segundo o banco, o movimento também pressiona a rentabilidade: para uma mesma estrutura de custos fixos, a queda de utilização registrada no período representa cerca de 9% de aumento no custo fixo por tonelada.
A expansão industrial continua. A capacidade instalada de processamento de oleaginosas no Brasil aumentou de 65,5 milhões de toneladas por ano em 2022 para uma estimativa de 82,6 milhões em 2026, alta de cerca de 26% no período. O número de unidades ativas passou de 95 para 127 entre 2022 e 2025, enquanto investimentos previstos para 2026 somam R$ 5,9 bilhões, com potencial para adicionar 18,9 mil toneladas diárias de capacidade.
Parte do descompasso está ligada ao avanço mais lento do que o esperado da mistura obrigatória de biodiesel no diesel. O B16, que elevaria o teor de biodiesel de 15% para 16%, estava previsto para março de 2026, mas não foi implementado no prazo.
O banco calcula que cada ponto percentual adicional na mistura representa aproximadamente 690 milhões de litros de demanda por biodiesel, o equivalente a cerca de 460 mil toneladas de óleo de soja e a 2,4 milhões de toneladas adicionais de soja esmagada. Caso o B16 tivesse entrado em vigor conforme previsto, a utilização da capacidade estaria próxima de 83%, segundo o relatório.
A situação ocorre apesar da enorme disponibilidade de matéria-prima. O Brasil deverá produzir perto de 180 milhões de toneladas de soja em 2026, mas apenas cerca de um terço desse volume é processado internamente. Há pouco mais de duas décadas, aproximadamente 62% da produção brasileira era esmagada no país; atualmente, a proporção está próxima de 34%.
A diferença foi absorvida principalmente pelas exportações. Quase 80% da soja embarcada pelo Brasil tem a China como destino, criando um canal alternativo de grande escala para os produtores. Na prática, isso significa que as esmagadoras brasileiras competem pela matéria-prima não apenas entre si, mas também com exportadores que vendem o grão no mercado internacional.
Essa concorrência também limita o benefício da abundância de soja para a indústria doméstica. Segundo o BTG, os preços locais permanecem ancorados à paridade de exportação, refletindo cotações internacionais, câmbio, prêmios e custos logísticos. Assim, uma safra maior aumenta a disponibilidade do grão, mas não necessariamente torna a matéria-prima barata para as esmagadoras.
O resultado é uma indústria que continua adicionando capacidade em antecipação ao crescimento do mercado de derivados — especialmente óleo de soja e biodiesel — enquanto parte das plantas opera abaixo dos níveis registrados há alguns anos.
A dinâmica é relevante porque o esmagamento é um negócio de margens relativamente estreitas e altamente sensível à utilização das unidades. O processador compra soja e vende principalmente farelo e óleo, e pequenas mudanças relativas nos preços dos três produtos podem provocar grandes oscilações nos resultados.
Depois de uma profunda fase de paralisação, outro fator a ser acompanhado é a retomada das compras chinesas de soja dos Estados Unidos. A China, destino de quase 80% das exportações brasileiras do grão, voltou a fechar volumes relevantes com fornecedores americanos. Uma migração mais expressiva das compras chinesas poderia reduzir a pressão exportadora sobre a soja brasileira e enfraquecer os prêmios domésticos.
Para produtores e exportadores, isso representaria maior concorrência; para as esmagadoras, porém, poderia significar maior disponibilidade de matéria-prima e custos de originação mais favoráveis. Isso, no entanto, não resolveria sozinho a ociosidade do setor: para ocupar a nova capacidade, as esmagadoras também precisam de demanda suficiente por farelo, óleo e biodiesel.













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