By Brazil Stock Guide – A conta de luz dos brasileiros deve subir, em média, 9,4% em 2026, quase o dobro da inflação projetada para o ano. A estimativa consta da edição de setembro do InfoTarifa, boletim da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que prevê IPCA de 5,0% e IGP-M de 4,4% no período.
Mais do que o tamanho do reajuste, chama atenção sua composição. Segundo a agência, os componentes financeiros respondem por 4,7 pontos percentuais do efeito tarifário médio projetado para o país — praticamente metade do aumento total. Encargos setoriais acrescentam 1,6 ponto percentual, enquanto custos de energia contribuem com 1,1 ponto, transmissão com 0,9 ponto e distribuição com 0,8 ponto.
Isso significa que a pressão sobre as tarifas não decorre apenas do custo corrente de produzir, transmitir e distribuir eletricidade. Boa parte vem de ajustes financeiros acumulados, diferenças entre custos previstos e realizados e mecanismos criados para compensar despesas do sistema elétrico.
Entre os principais fatores está a chamada CVA Energia, mecanismo usado para compensar diferenças entre os custos de compra de energia reconhecidos nas tarifas e aqueles efetivamente pagos pelas distribuidoras.
A Aneel afirma que o efeito combinado da CVA Energia e da sobrecontratação passou de uma estimativa de 1,3 ponto percentual, em março, para 3,5 pontos percentuais na revisão de setembro. A deterioração refletiu custos maiores dos contratos de energia em um cenário hidrológico mais adverso que o inicialmente previsto.
Ao mesmo tempo, diminuiu um dos amortecedores que ajudariam a segurar a tarifa. A previsão de devolução aos consumidores de créditos de PIS/Cofins caiu de R$ 6,5 bilhões para R$ 5,3 bilhões, reduzindo de 2,4 para 1,9 ponto percentual o impacto negativo — ou seja, de redução — sobre a tarifa média.
Para parte dos consumidores, aumento será bem maior
A média nacional também esconde diferenças relevantes entre as distribuidoras. A projeção da Aneel mostra que 16% do mercado está em concessões cuja alta tarifária média deverá superar 15% em 2026. Nesse grupo, o efeito médio projetado é de 17,6%.
Outros 10% do mercado estão na faixa de reajustes entre 12% e 15%, com média de 12,4%, enquanto 18% estão na faixa de 9% a 12%, com efeito médio de 10,2%. Somadas, essas três faixas representam 44% do mercado das distribuidoras. No extremo oposto, apenas 5% do mercado aparece na faixa de reajuste inferior a 3%.
Subsídios passam de R$ 56 bilhões
Outro componente importante da conta são os subsídios financiados pelo setor elétrico. O “subsidiômetro” apresentado pela Aneel registra R$ 56,26 bilhões em subsídios entre setembro de 2025 e agosto de 2026. Parte desses gastos é financiada pela Conta de Desenvolvimento Energético, a CDE, fundo que concentra uma série de políticas públicas e benefícios tarifários.
Segundo a agência, o aumento das cotas da CDE relacionadas ao uso da rede e à geração distribuída contribui com efeito combinado de 1,4 ponto percentual sobre as tarifas de 2026.
A expansão dos encargos também deverá continuar nos próximos anos. Os novos contratos assinados nos Leilões de Reserva de Capacidade de 2026 devem elevar o Encargo de Reserva de Capacidade, o ERCAP, de R$ 192 milhões registrados em junho para aproximadamente R$ 650 milhões por mês até dezembro.
Até o fim de 2027, segundo a Aneel, esse custo mensal poderá superar R$ 1 bilhão, equivalente a cerca de R$ 9,3 bilhões por ano. O encargo é dividido entre consumidores dos mercados regulado e livre.
O mecanismo foi criado para remunerar usinas e outros recursos que podem ser acionados para garantir o fornecimento de energia em momentos de maior demanda ou de menor disponibilidade de geração.
Transmissão também fica mais cara
A infraestrutura de transmissão acrescenta outra camada de pressão. Para o ciclo entre julho de 2026 e junho de 2027, a Receita Anual Permitida das transmissoras — valor reconhecido pela Aneel para remunerar as empresas que operam as linhas de transmissão — chegou a R$ 55 bilhões, aumento de 9,43% em relação ao ciclo anterior.
Apesar disso, o impacto médio estimado dessa alta sobre os consumidores finais é de cerca de 1,1%. Também há efeitos decorrentes da privatização da antiga Eletrobras, hoje Axia Energia.
A conclusão da retirada gradual de 13 hidrelétricas do regime de cotas reduziu em 6,34% a Receita Anual de Geração do sistema para o ciclo 2026/2027, para R$ 8,1 bilhões. Mas a tarifa média das usinas que permanecem no regime subiu 19,8%, para R$ 257,54 por MWh.
A explicação está na redução mais rápida da quantidade de energia vinculada às cotas e na saída de algumas das hidrelétricas mais baratas do mecanismo.
Para o consumidor, o resultado é um paradoxo: mesmo com redução de algumas receitas reguladas e mecanismos destinados a amortecer os reajustes, o conjunto de encargos, subsídios e ajustes financeiros continua empurrando a tarifa para cima.
A projeção de 9,4% da Aneel indica que, em 2026, o custo da eletricidade deverá avançar bem acima do nível geral de preços — e que boa parte dessa pressão vem menos da energia em si do que da complexa arquitetura financeira e regulatória construída ao redor dela.












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