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União cria caminho para Samarco encerrar obrigações remanescentes de Mariana

Nova regra estabelece rito para quitação de medidas herdadas da Fundação Renova, enquanto obras de abastecimento ainda são discutidas entre empresa e governo.

By Brazil Stock Guide — O governo federal estabeleceu um procedimento para reconhecer formalmente o cumprimento de obrigações remanescentes da Samarco relacionadas ao desastre de Mariana, criando um caminho para o encerramento gradual de compromissos que ainda permanecem sob execução quase dois anos após a assinatura do novo acordo de reparação do Rio Doce.

A Resolução nº 42 do Comitê do Rio Doce, publicada nesta quinta-feira, 1º de outubro, disciplina a quitação das chamadas “obrigações de fazer” previstas no Anexo 19 do acordo que estão sob fiscalização da União. O anexo trata da transição e do encerramento dos programas, medidas e responsabilidades herdados do sistema anterior de reparação.

Pelas novas regras, a Samarco poderá solicitar formalmente a quitação de uma obrigação depois de considerar sua execução concluída. O órgão federal responsável poderá recorrer a auditoria externa independente e deverá posteriormente realizar sua própria análise técnica antes de recomendar a quitação ou sua negativa. A posição final da União será formalizada pela Casa Civil.

O processo pode levar até 90 dias após o recebimento do relatório final da auditoria — ou do próprio pedido de quitação, quando a auditoria for dispensada — e o prazo poderá ser prorrogado por outros 90 dias em obrigações consideradas complexas. Pedidos adicionais de informação também podem interromper a contagem do prazo.

A medida não altera o valor do acordo nem representa uma redução automática das provisões relacionadas ao desastre. Ela, porém, estabelece o mecanismo administrativo pelo qual obrigações específicas poderão deixar de permanecer abertas depois que a União reconhecer seu cumprimento.

O Anexo 19 foi criado para organizar a transição e o encerramento dos 42 programas originalmente executados pela Fundação Renova e de outras obrigações remanescentes do rompimento da barragem de Fundão.

Parte dessas medidas já avançou para estágios próximos do encerramento. Em Itueta e Resplendor, por exemplo, a Samarco realizou testes previstos no Anexo 19 para verificar a possibilidade de retomada do tratamento da água captada no Rio Doce. A auditoria independente AECOM considerou os resultados tecnicamente adequados e a Copasa retomou a captação nos dois municípios em fevereiro de 2026.

Outras obrigações continuam em discussão. Um dos principais pontos envolve obras do antigo Programa de Melhoria dos Sistemas de Abastecimento de Água, o PG-32. O Comitê Estadual de Minas Gerais e a Samarco divergiram sobre os efeitos da não adesão de determinados municípios ao novo acordo e sobre a manutenção de obras ainda não iniciadas como obrigações de execução direta da mineradora.

Em fevereiro, o comitê pediu à AECOM uma análise específica de cada uma dessas obras para avaliar se elas deveriam continuar como obrigações de fazer da Samarco. As notas técnicas tinham entregas previstas entre abril e setembro de 2026, segundo relatório do governo de Minas Gerais.

A discussão mostra a importância do processo de quitação: antes de uma obrigação ser encerrada, o governo terá de determinar não apenas se determinada entrega foi realizada, mas também qual era exatamente a obrigação remanescente da Samarco.

Caso o governo conclua que houve descumprimento ou atraso injustificado, a Resolução 42 prevê a abertura de procedimento de penalidade. A Samarco terá prazo para apresentar documentação ou justificativa técnica, e eventual aplicação de multa ou outra sanção não elimina a obrigação original de fazer.

O novo acordo do Rio Doce, assinado em outubro de 2024 e posteriormente homologado pelo Supremo Tribunal Federal, tem valor global estimado em R$ 170 bilhões e substituiu a estrutura anterior de reparação criada após o rompimento da barragem de Fundão, em 2015.

Desse total, a Samarco classifica R$ 32 bilhões como obrigações de fazer executadas diretamente pela companhia, incluindo indenizações, reassentamentos e recuperação ambiental. Até dezembro de 2025, R$ 22,8 bilhões desse montante haviam sido executados, segundo a empresa. Esses valores abrangem o conjunto das obrigações de fazer do novo acordo e não apenas aquelas previstas no Anexo 19.

A Samarco é controlada em partes iguais por Vale e BHP. O avanço na quitação das obrigações não produz, por si só, impacto financeiro imediato para as acionistas, mas pode reduzir gradualmente a incerteza sobre compromissos de execução que permanecem abertos no processo de reparação.


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