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Stone queria virar banco. Agora precisa provar que sabe emprestar

Carteira de crédito cresce 16% no trimestre, mas inadimplência, provisões e custo de risco mostram o preço da ambição bancária da companhia.

A Stone passou anos tentando provar que era mais do que uma maquininha de cartão. Agora começa a enfrentar a consequência lógica desse sucesso: quanto mais se aproxima de um banco, mais precisa lidar com os riscos de um banco. No segundo trimestre, a companhia registrou lucro líquido ajustado de R$ 583 milhões e ROE de 22%, mas os números de crédito mostram que a próxima fase de crescimento será menos simples do que a expansão original em pagamentos.

A mudança já é visível no balanço. A carteira de crédito chegou a R$ 3,8 bilhões, avanço de 16% apenas em relação ao trimestre anterior, enquanto os depósitos cresceram 22% em 12 meses, para R$ 10,8 bilhões. A empresa também incorporou a Pagar.me à marca Stone e passou a se apresentar explicitamente como “o banco para quem empreende”. O objetivo é capturar uma parcela maior da relação financeira com seus 4,8 milhões de clientes, combinando pagamentos, conta e crédito em uma única plataforma.

Há lógica nisso. O negócio original continua grande, mas já mostra sinais de maturidade. O volume total de pagamentos cresceu apenas 4% em 12 meses, para R$ 142 bilhões, enquanto o lucro bruto ajustado ficou praticamente estável, em R$ 1,6 bilhão. O crédito oferece à Stone uma avenida de crescimento que pagamentos sozinhos talvez já não entreguem na mesma velocidade. Também aprofunda a relação com pequenas e médias empresas, permitindo à companhia ganhar mais sobre clientes que já conhece.

O preço aparece do outro lado do balanço. A inadimplência entre 15 e 90 dias chegou a 6% no trimestre. O custo de risco atingiu 21,5%, enquanto as provisões subiram cerca de 13% frente aos primeiros três meses do ano, para R$ 188 milhões. Nenhum desses números significa, isoladamente, que a estratégia esteja errada. Mas eles mostram que o crescimento bancário traz uma variável que não existe com a mesma intensidade na simples captura de pagamentos: a qualidade de quem toma o dinheiro emprestado.

Esse é o ponto mais importante para os investidores. A Stone está deixando de ser uma história baseada principalmente em volume processado, número de clientes e take rates para se tornar também uma história de underwriting, provisões e custo de crédito. O sucesso da transformação não será medido apenas pela velocidade com que a carteira cresce, mas pela rentabilidade que sobra depois das perdas. Quanto maior for a participação do crédito no negócio, mais relevante se tornará essa conta.

Por enquanto, os retornos continuam fortes. O ROE consolidado chegou a 22%, um ponto percentual acima de um ano antes, e o lucro por ação ajustado cresceu 9%. A Stone também distribuiu R$ 3,1 bilhões aos acionistas no acumulado do ano, incluindo cerca de R$ 700 milhões em recompras. Isso dá à companhia espaço para absorver a expansão do crédito sem que o trimestre pareça pressionado.

Mas a estratégia muda o tipo de risco que o acionista está comprando. Crescer pagamentos depende de conquistar lojistas e processar mais transações. Crescer crédito exige acertar também quem merece receber dinheiro, quanto cobrar e quanto reservar para perdas. Em um segmento concentrado em pequenas e médias empresas, esse julgamento tende a se tornar ainda mais importante à medida que a carteira ganha escala.

Além da adquirência, o próximo teste é mais difícil: provar que consegue construir um banco sem sacrificar os retornos que tornaram sua plataforma de pagamentos atraente. Se virar banco abre uma nova fonte de crescimento, também significa que, daqui para frente, cada real emprestado importa tanto quanto cada real processado.


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