Os candidatos Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) vão ao segundo turno na eleição presidencial, mas as urnas já redesenharam o equilíbrio de forças do próximo governo – a onda à direita que percorreu a América Latina chegou ao Brasil. A eleição legislativa revelou um forte avanço das forças conservadoras. O PL, de Flávio, emerge como a maior bancada da Câmara, saltando dos 99 deputados eleitos em 2022 para cerca de 120, e ampliou fortemente sua presença no Senado, enquanto União Brasil, PP e Republicanos também avançaram, reforçando o peso da direita e da centro-direita.
Ainda assim, mesmo fortalecido, o PL continuará dependente do Centrão para construir maiorias no sistema brasileiro de presidencialismo de coalizão. Para Flávio, a diferença pode estar no preço dessa negociação. Valdemar Costa Neto, presidente do PL, já disse esperar União Brasil, PP e Republicanos ao lado do candidato no segundo turno e sinalizou espaço para outras siglas num eventual governo. Ainda não existe acordo formal, mas a aproximação de partidos neutros ou independentes no primeiro turno pode antecipar o desenho da base parlamentar de 2027.
Isso não significa que Flávio teria um Congresso obediente. O Centrão continuará sendo Centrão. União Brasil, PP, Republicanos, PSD e MDB têm interesses próprios, governadores, lideranças regionais e forte influência sobre o orçamento. O fortalecimento das emendas parlamentares e do próprio Legislativo nos últimos anos reduziu o espaço de qualquer presidente para impor sozinho sua agenda.
Há, além disso, uma incógnita importante: Flávio ainda não apresentou com clareza suficiente até onde pretende levar sua agenda econômica e externa. Sua campanha já sinaliza maior disciplina fiscal, mas vários elementos permanecem em construção. Na política externa, os sinais apontam para uma aproximação muito maior com os Estados Unidos de Donald Trump. Para investidores, a questão é até que ponto essa proximidade poderia resultar numa relação mais assimétrica, com interesses americanos – de comércio e minerais críticos a segurança e política externa — ganhando maior peso na formulação brasileira. Por enquanto, isso permanece uma hipótese, não uma agenda de governo plenamente definida.
Nesse cenário, o custo político para aprovar determinadas medidas poderia ser menor, mas não desapareceria. Flávio ainda teria de negociar espaço no governo, orçamento, comissões e prioridades legislativas. Sua vantagem seria começar mais perto das maiorias necessárias e dialogar com partidos que, em vários temas econômicos, podem ter maior afinidade com sua agenda. Uma vitória de Lula produziria uma configuração distinta: ele manteria o Executivo, mas enfrentaria Câmara e Senado mais inclinados à direita e dependeria fortemente do mesmo Centrão para construir maiorias. Isso poderia limitar iniciativas rejeitadas pelo Congresso, mas também dificultar medidas defendidas pelo próprio governo. Para o mercado, a questão central não é simplesmente se o novo Congresso é “pró-mercado”, mas quanto ele altera o custo de transformar uma agenda presidencial em legislação.
Esse talvez seja o principal recado do primeiro turno para quem investe no Brasil. A eleição presidencial continua aberta, mas o preço político da governabilidade já começou a mudar. Um eventual governo Flávio partiria com a maior bancada da Câmara e uma direita fortalecida, podendo atrair boa parte do Centrão para sua órbita. Isso não eliminaria o presidencialismo de coalizão — apenas poderia reduzir seu custo em determinadas agendas. A pergunta para o investidor deixa então de ser apenas quem vencerá em 25 de outubro e passa a ser outra: quanto o próximo presidente terá de pagar, em capital político, para conseguir governar?













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