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O caso Master e a outra independência do Banco Central

Mensagens entre Roberto Campos Neto e Daniel Vorcaro expõem uma questão que vai além do Banco Master: a autonomia do BC também exige distância de quem ele regula.

As mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro, mostrando que Roberto Campos Neto, quando presidia o Banco Central, chegou a convidar o dono do Banco Master para uma reunião em sua mensão na Fazenda Boa Vista, no interior de São Paulo, são reveladoras. O encontro só não ocorreu na casa porque uma dedetização obrigou Campos Neto a transferi-lo, no próprio dia, para uma unidade do BC na Avenida Paulista, segundo informou O Globo.

As mensagens não provam favorecimento, interferência em decisões técnicas ou qualquer irregularidade. Mas revelam um grau de informalidade incomum: o presidente do regulador considerava natural receber em sua residência o controlador de uma instituição submetida à autoridade que comandava. Isso ganha peso porque Campos Neto posteriormente procurou afastar da presidência do BC a responsabilidade pelas operações específicas do Master, afirmando que bancos do segmento S3 eram tratados pelas áreas técnicas.

O argumento pode ser formalmente correto, mas é incompleto. Foi durante a gestão Campos Neto que, em outubro de 2019, o BC aprovou por unanimidade a transferência do controle do Banco Máxima para Vorcaro, depois de a operação ter sido rejeitada meses antes na gestão Ilan Goldfajn. Não há base para afirmar que Campos Neto tenha aprovado pessoalmente o negócio ou favorecido Vorcaro. Mas as novas mensagens tornam difícil apresentar a presidência do BC como completamente distante do banqueiro e de sua instituição.

O ponto central é mais amplo. Durante seu mandato, Campos Neto tornou-se símbolo da independência do Banco Central em relação ao governo, resistindo inclusive às críticas públicas do presidente Lula à política de juros. Mas independência não pode funcionar em uma só direção. Um banco central precisa estar protegido da pressão de presidentes e ministros, mas também preservar distância dos bancos, executivos e investidores que regula. Independência, afinal, precisa existir em todas as direções.

A própria trajetória de Campos Neto torna essa discussão mais relevante. Em 2022, ele foi votar no segundo turno com a camisa amarela da seleção, então fortemente associada aos apoiadores de Jair Bolsonaro, embora nunca tenha revelado seu voto. Depois de deixar o BC e cumprir a quarentena legal, assumiu em 2025 como vice-chairman e chefe global de políticas públicas do Nubank. No fim daquele ano, o Nubank já era a segunda maior instituição financeira do país em número de clientes, atrás apenas da Caixa; no segundo trimestre de 2026, alcançou quase 118 milhões de clientes no Brasil. A mudança foi legal, mas ilustra de forma particularmente clara a porta giratória entre regulador e regulado.

Nada disso prova que Campos Neto tenha favorecido, até o momento, o Master ou qualquer outra instituição. A questão é institucional: a credibilidade de um banco central depende não apenas de suas decisões, mas também da distância que preserva daqueles que podem ser afetados por elas. O caso Master sugere que o debate brasileiro foi estreito demais ao perguntar apenas se o BC era independente do governo. A pergunta também deveria ser se mantinha independência suficiente do mercado que deveria regular.


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