A reação positiva dos mercados no primeiro dia útil após o primeiro turno embute uma aposta: a de que um eventual governo Flávio Bolsonaro fará um forte ajuste fiscal. O mercado ainda espera, porém, maior detalhamento da proposta. No início de setembro, Adolfo Sachsida, integrante da equipe econômica do candidato, disse que seria possível colocar a relação dívida/PIB em trajetória de queda em 18 meses. Assessores têm mencionado informalmente cortes de até R$ 200 bilhões no primeiro ano. Parece muito, mas equivale a cerca de 1,5% do PIB — praticamente o tamanho do déficit estrutural, estimado em 1,4% do PIB.
É aí que os juros precisam fazer uma parte importante do trabalho. Com juro real perto de 7% e crescimento de 2%, seria necessário superávit primário de cerca de 3,25% do PIB para estabilizar a dívida. Se o juro real cair para 4% ou 5%, a necessidade recua para 1,6% a 2,5%; aos 3% observados durante parte do governo Temer, bastariam 0,8%. A estratégia da equipe econômica de Flávio fica mais clara: cortar gastos, produzir um choque de credibilidade e deixar a queda do custo da dívida completar parte do ajuste.
A aritmética funciona melhor que o calendário. No governo Temer, os ganhos mais expressivos nos juros levaram de dois a três anos para aparecer e ocorreram num mundo em que os EUA tinham juros reais negativos; hoje estão perto de 2%. Há ainda uma circularidade incômoda: para o mercado cobrar menos do governo, precisa primeiro acreditar no ajuste. Só que a equipe ainda não detalhou medidas estruturais em áreas como Previdência, vinculações nas áreas de saúde e educação, salário mínimo, BPC ou seguro-desemprego.
Reforma administrativa, redução de ministérios, cortes de altos salários eliminação de cargos e diminuição da burocracia podem ajudar, mas dificilmente produzirão sozinhas uma economia dessa dimensão. Não está claro se atacarão as aposentadorias dos militares ou do Judiciário.
A equação fica mais apertada porque Flávio também promete reduzir impostos. Menos impostos, desregulamentação e juros menores podem elevar investimento e crescimento, melhorando a dinâmica da dívida no futuro. Mas cortes tributários reduzem receita imediatamente, crescimento adicional leva tempo e venda de ativos diminui o estoque da dívida apenas uma vez. Até que esses benefícios apareçam, o ajuste precisa existir no Orçamento.
A aposta, portanto, não é economicamente absurda: credibilidade fiscal pode reduzir os juros e, com eles, o superávit necessário para estabilizar a dívida. Se todos os dias fossem como segunda-feira, tudo seria mais fácil. Mas a semana continua – e a euforia do mercado acaba tendo de encontrar a aritmética fiscal. O problema é transformar a expectativa de juros menores em premissa antes de mostrar de onde sairão os cortes. Credibilidade pode reduzir o tamanho do ajuste necessário. Não pode substituir o ajuste que cria a credibilidade.













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