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Em Atenas, Marco Rubio discursa sobre o futuro do Ocidente – parte 1

Em discurso elogiado pelo Wall Street Journal, secretário de Estado recorre à Grécia Antiga para dar dimensão histórica ao America First — e herdar legado de Trump.

Enquanto o Brasil concentra suas atenções no segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, um discurso pronunciado em Atenas pode estar oferecendo pistas importantes sobre a ordem internacional com a qual o próximo ocupante do Palácio do Planalto terá de conviver.

Na quarta-feira, 7 de outubro, Marco Rubio recorreu a 2.500 anos de história para apresentar o nacionalismo de Donald Trump não como uma ruptura, mas como o resgate de virtudes que teriam sustentado a civilização ocidental. O conselho editorial do The Wall Street Journal classificou o pronunciamento como o discurso do ano.

O elogio do WSJ merece atenção. Não apenas pelo prestígio do jornal entre os círculos conservadores e financeiros americanos, mas porque Rubio procurou ir além da defesa do governo do qual faz parte. Tentou construir uma interpretação histórica capaz de justificar uma orientação política que sobreviva ao próprio Trump.

O cenário em Atenas foi escolhido a dedo. Rubio discursou no Pnyx, a colina onde se reunia a assembleia da antiga democracia ateniense, tendo ao fundo a Acrópole e o Partenon. Começou lembrando a destruição de Atenas pelos persas (hoje Irã) em 480 a.C., e a reconstrução posterior de seus monumentos sob Péricles, numa mensagem de reconstrução e grandeza.

Rubio reconheceu a contribuição dos gregos à filosofia, às instituições políticas e ao pensamento racional para, em seguida, sustentar que essas realizações nasceram de características mais profundas: individualismo, ambição, curiosidade, competição, coragem e disposição para superar limites – o que ajudou a moldar, na visão dele, os Estados Unidos.

A palavra decisiva foi thymós, conceito da tradição grega associado ao ânimo, à coragem, ao orgulho e ao impulso de afirmação. Para Rubio, sem essa energia as civilizações perderiam a capacidade de competir, lutar e sobreviver. A decadência ocidental seria, portanto, antes de tudo, uma crise de vontade.

É uma formulação politicamente poderosa, apresentada por alguém apontado como possível sucessor de Trump e frequentemente citado ao lado do vice-presidente JD Vance na disputa pelo futuro do Partido Republicano.

Na visão de Rubio, o Ocidente teria começado a declinar quando passou a sentir vergonha de sua história, a condenar o nacionalismo, a transferir decisões para burocracias internacionais e a deslocar sua produção industrial para outros países, como a China. Recuperar o orgulho nacional seria a condição para recuperar a prosperidade e o poder.

A narrativa desemboca diretamente na política americana. Rubio declarou que, sob Trump, os Estados Unidos escolheram a retomada do poder nacional. Enumerou como objetivos o controle de cadeias produtivas, a reindustrialização, o fortalecimento militar e a liderança em semicondutores, minerais críticos, inteligência artificial, energia e tecnologias de defesa.

A história como argumento

A construção histórica do discurso do ano, na avaliação do WSJ, merece ser examinada. Rubio estabelece uma continuidade que começa na Grécia, atravessa Roma e a cristandade europeia, passa pelo Renascimento e pelas grandes navegações e culmina na expansão territorial e tecnológica dos Estados Unidos.

Nessa sequência, cita Alexandre, o Grande; Julio César; Carlos Magno e Hernán Cortés como manifestações sucessivas de uma mesma disposição civilizacional para conquistar, explorar e superar fronteiras. Copérnico, Galileu, Kepler e Newton integram a genealogia intelectual que conduz às grandes realizações científicas modernas.

Há, porém, algo de forçado nessa construção: transformar personagens e tradições tão distintos numa linha quase contínua de progresso, selecionando as realizações que sustentam o argumento e deixando em segundo plano suas contradições.

Como se sabe, a democracia ateniense conviveu com escravidão e imperialismo. A expansão europeia produziu conhecimento e intercâmbio, mas também conquista colonial e violência. E a própria filosofia grega refletiu sobre os perigos da ambição e do poder desmedido.

Para os dias atuais, o discurso também foi concebido para circular como imagem, espetáculo e narrativa nas plataformas digitais. Segundo o Washington Post, a apresentação em Atenas contou com quatro câmeras do Departamento de Estado, uma delas instalada num guindaste para registrar imagens cinematográficas de Rubio diante das ruínas gregas.

A disputa pelo legado de Trump

É nessa combinação de história, ideologia e comunicação que Rubio procura dar consistência intelectual ao America First. Mais do que justificar decisões de Trump, apresenta uma visão de longo prazo para o poder americano, na qual nacionalismo, capacidade industrial, superioridade tecnológica e alianças internacionais devem servir à recuperação da grandeza ocidental.

Rubio termina propondo que as nações ocidentais recuperem sua identidade sem abandonar seus interesses próprios. Mas há uma pergunta que o discurso deixa sem resposta. Se a grandeza americana exige colocar os Estados Unidos em primeiro lugar (America First), como Washington reagirá quando outros países invocarem a mesma tradição para defender prioridades que não coincidem com as suas?

Para o Brasil, essa não é uma questão de filosofia grega. É uma escolha econômica e diplomática que o próximo governo terá de enfrentar.

No próximo Behind the Lines, examinaremos os efeitos dessa nova visão do poder americano sobre o Brasil, suas relações com a China e os limites de um eventual alinhamento com Washington.


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