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EUA tentam voltar ao jogo da China, e o Brasil corre risco

Trégua preliminar entre Trump e Xi Jinping pode reduzir o prêmio geopolítico que soja, carne e minerais brasileiros ganharam com a guerra comercial.

Os efeitos imediatos do encontro de Donald Trump com Xi Jinping parecem modestos — e o jogo está longe de estar perdido para o Brasil. O entendimento anunciado pela Casa Branca ainda é preliminar, e seus impactos dependem da execução. Washington apresentou o pacote como uma vitória concreta, com compras chinesas de ao menos $17 bilhões por ano em produtos agrícolas americanos até 2028, reabertura para carne bovina dos EUA, retomada parcial de aves, 200 aviões Boeing e conversas sobre terras raras. Pequim, porém, foi mais cautelosa: disse que os detalhes ainda estão em negociação.

Para o Brasil, o risco não é uma perda abrupta de mercado. A China continuará precisando de soja, carne, frango, petróleo e minério brasileiros. A questão é de preço, margem e poder de barganha. Se o acordo for implementado de forma ampla, Washington pode recuperar parte do espaço que perdeu desde a guerra comercial. Nos últimos anos, o Brasil ganhou mercado porque os EUA decidiram aumentar a voz sem uma estratégia que pudesse alterar signicativamente o rumo tomada pela China. Agora, uma reaproximação administrada entre Washington e Pequim pode reduzir essa vantagem.

A soja brasileira seria o primeiro ponto de atenção. Caso a China tenha de cumprir compras mínimas dos EUA, o Brasil ainda venderia muito, especialmente na janela da safra local, mas talvez com menor poder de preço. Na carne bovina, o impacto potencial é mais sensível: a renovação de mais de 400 plantas americanas daria a Pequim uma alternativa adicional justamente quando o Brasil já enfrenta cotas e tarifas chinesas. Para frigoríficos instalados no Brasil, o risco inicial não seria necessariamente volume, mas compressão de margens, prêmios menores e maior pressão nas negociações com compradores chineses.

Nas aves, a pressão seria menor, mas seguiria a mesma lógica: mais fornecedores habilitados reduzem o conforto competitivo do Brasil. Em minerais críticos, o risco é estratégico. Se EUA e China reduzirem tensões em terras raras, o Brasil pode perder parte da urgência geopolítica como alternativa. Isso não elimina a oportunidade brasileira, mas reforça a necessidade de sair da promessa geológica para o processamento industrial, agregação de valor e contratos de longo prazo.

O mercado acompanhará o ritmo real das compras chinesas dos EUA, os prêmios de exportação da soja, as cotas e tarifas chinesas para carne bovina, a habilitação efetiva de plantas americanas e sinais de pressão sobre margens de frigoríficos e tradings. O acordo pode ter pouco efeito se ficar na diplomacia dos comunicados. Mas, se virar política comercial operacional, o Brasil venderá para a China em um ambiente menos favorável.

O Brasil se beneficiou da disputa entre EUA e China, mas não pode depender dela para sempre. A trégua preliminar mostra que vantagem natural não substitui estratégia comercial. O país continuará relevante — talvez indispensável em vários produtos. Mas quem não está à mesa ainda pode vender; só não deve esperar vender sempre com o mesmo preço, o mesmo poder e o mesmo conforto enquanto os outros negociam em seu nome.

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