By Brazil Stock Guide – A Raízen (B3: RAIZ4) reduziu seu prejuízo líquido no primeiro trimestre do ano-safra 2026/27, apoiada por uma forte recuperação da distribuição de combustíveis e pela melhora da geração de caixa. O avanço operacional, contudo, foi parcialmente consumido pelo custo elevado da dívida e pelos efeitos contábeis associados à venda da operação argentina.
O prejuízo líquido ficou em R$ 1,64 bilhão entre abril e junho, 11% menor que o resultado negativo de R$ 1,84 bilhão registrado um ano antes.
A receita líquida cresceu 4%, para R$ 51,46 bilhões, enquanto o EBITDA ajustado avançou 126,3%, para R$ 3,85 bilhões. O lucro bruto mais que dobrou, alcançando R$ 3,71 bilhões.
A melhora foi mais expressiva nas operações continuadas, cujo prejuízo recuou 55,3%, para R$ 798 milhões. A operação descontinuada na Argentina, porém, gerou um impacto negativo de R$ 844 milhões, incluindo o resultado do negócio e efeitos contábeis da transação, como baixa de ágio, custos, variação cambial e impactos tributários.
Combustíveis carregam o trimestre
A distribuição de combustíveis no Brasil respondeu por aproximadamente 92% do EBITDA ajustado consolidado.
O EBITDA ajustado do segmento saltou de R$ 959 milhões para R$ 3,54 bilhões, alta de 269%. A margem por metro cúbico aumentou de R$ 142 para R$ 493, também mais que dobrando em relação aos R$ 240 registrados no trimestre anterior.
O volume comercializado cresceu 6,6%, para 7,18 milhões de metros cúbicos, impulsionado pelas vendas de gasolina, etanol e diesel. A receita do segmento avançou 16,1%, para R$ 44,71 bilhões.
A Raízen atribuiu o desempenho à expansão da base de clientes, à maior diluição de despesas, à eficiência logística e comercial e à gestão de suprimentos em um período de volatilidade dos preços do petróleo.
As despesas recorrentes com vendas, gerais e administrativas recuaram 2,3%, para R$ 798 milhões, apesar do crescimento dos volumes. Segundo a companhia, as medidas de eficiência representaram um ganho de R$ 10 por metro cúbico, equivalente a R$ 72 milhões no trimestre.
A dimensão do avanço torna a sustentabilidade da margem de combustíveis um dos principais pontos de monitoramento nos próximos resultados.
Açúcar, etanol e bioenergia seguem pressionados
O desempenho de Etanol, Açúcar e Bioenergia, ou EAB, foi significativamente mais fraco. O EBITDA ajustado caiu 63,1%, para R$ 301 milhões, enquanto a receita recuou 33,3%, para R$ 8,18 bilhões.
O segmento registrou prejuízo bruto de R$ 243 milhões, ante lucro bruto de R$ 211 milhões um ano antes.
Os preços realizados de açúcar caíram 22,3%, enquanto os volumes próprios vendidos recuaram 10,8%. No etanol, os volumes cresceram 24,1%, mas o preço médio caiu 12,2%.
A moagem de cana diminuiu 2%, para 19,7 milhões de toneladas, diante das chuvas que interromperam as operações de colheita. A produção de açúcar recuou 13,6%, enquanto a de etanol avançou 9,4%, refletindo a mudança do mix produtivo para 46% de açúcar e 54% de etanol.
Segundo a Raízen, preços e volumes reduziram o EBITDA do segmento em R$ 726 milhões. O impacto foi parcialmente compensado por R$ 286 milhões em ganhos de eficiência e redução de custos.
O custo caixa por tonelada de açúcar equivalente caiu 18,4%. Excluindo o efeito do Consecana, a redução foi de 8,7%.
Caixa melhora, mas comparação tem base distorcida
Na apresentação gerencial que exclui a operação argentina, a Raízen gerou R$ 3,56 bilhões em fluxo de caixa operacional, revertendo o consumo de R$ 10,94 bilhões observado um ano antes.
O fluxo de caixa livre para os acionistas ficou positivo em R$ 1,17 bilhão, ante consumo de R$ 6,79 bilhões no primeiro trimestre da safra anterior.
Parte relevante da diferença, porém, decorre da base de comparação. No ano passado, as iniciativas financeiras de capital de giro consumiram R$ 8,87 bilhões, ante apenas R$ 260 milhões neste trimestre.
A gestão de contas a receber e estoques ajudou a liberar caixa. Em sentido contrário, fornecedores consumiram R$ 1,14 bilhão. A própria Raízen associou o movimento à deterioração de seu perfil de crédito, que pressionou os prazos concedidos por determinados fornecedores.
Os investimentos consolidados caíram 32,6%, para R$ 1,05 bilhão, refletindo a preservação de capital e a redução de projetos de expansão. As plantas de etanol de segunda geração de Vale do Rosário e Gasa estavam, respectivamente, 98% e 65% concluídas.
Juros continuam consumindo o resultado
O resultado financeiro líquido foi negativo em R$ 2,97 bilhões, uma deterioração de 42,4% em relação ao ano anterior. Apenas o custo da dívida bruta aumentou 56,4%, para R$ 3,16 bilhões.
A dívida bruta, incluindo derivativos, encerrou junho em R$ 70,86 bilhões, alta de 9,1% em 12 meses. A dívida líquida alcançou R$ 56,87 bilhões, crescimento anual de 15,5%, embora tenha recuado 2,3% frente ao trimestre anterior.
A alavancagem diminuiu de 5,2 vezes para 4,8 vezes o EBITDA ajustado, mas permaneceu acima das 4,5 vezes registradas um ano antes.
A redução sequencial da dívida líquida foi ajudada principalmente pela reclassificação de aproximadamente R$ 2,2 bilhões em obrigações da Argentina para passivos mantidos para venda. Portanto, ainda não reflete o recebimento dos recursos da transação.
O patrimônio líquido consolidado permaneceu negativo e o passivo a descoberto aumentou de R$ 8,28 bilhões em março para R$ 10,60 bilhões em junho.
Recuperação extrajudicial ainda não aparece no balanço
A homologação do plano de recuperação extrajudicial ocorreu em 30 de julho, depois do encerramento do trimestre, e não produziu efeitos nas demonstrações de junho.
Durante o período de suspensão das cobranças, a Raízen continuou reconhecendo contabilmente os juros das dívidas abrangidas pelo plano, mesmo sem o desembolso correspondente. A companhia também acelerou o reconhecimento de custos de emissão e ajustes a valor justo dessas obrigações.
A venda da distribuição de combustíveis na Argentina para a Mercuria tem valor estimado de US$ 1,42 bilhão, incluindo a assunção da dívida do negócio pelo comprador. A conclusão ainda depende do cumprimento de condições precedentes. A Raízen também anunciou a venda da usina Caarapó como parte da simplificação do portfólio.
O trimestre mostra uma mudança relevante na direção do resultado operacional e do caixa, mas ainda não resolve a estrutura de capital. A consolidação da recuperação dependerá da capacidade de sustentar a rentabilidade excepcional da distribuição de combustíveis, estabilizar o negócio de açúcar e etanol e converter desinvestimentos e a recuperação extrajudicial em redução efetiva da dívida.













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